Com esta opção, nunca se está mal acompanhado...


Ah pois é... esta até já me calhou. Ficarem indignados por eu pegar num livro, e depois não tiram os olhos dos telemóveis! Que lata! Mais valia pegarem em livros também...





Ora aqui está um clássico intemporal imperdível. O livro, lançado em 1842, conta a história de Júlia em várias fases da sua vida. Está dividido em seis partes, cada uma correspondendo a uma idade e fase desta mulher que carrega em si um peso enorme do início ao fim.

Contrariando os conselhos do pai, casa com o homem errado
Ainda era uma jovem quando se apaixonou pelo coronel Vitor D´Aiglemont. Contra todos os avisos do pai, que tentou por todos os meios dissuadi-la de o fazer, acabou por casar com ele, e não demorou muito até dar razão ao progenitor. Viu-se presa num casamento sem cor com um homem de integridade duvidosa que não fazia o mínimo esforço para compreender a mulher.

Um jovem inglês misterioso aparece na sua vida
A um certo momento, um jovem inglês aparece na vida de Júlia, que fica lisonjeada por aquilo que parece ser um interesse romântico por ela, mas nada ela pode fazer, afundando-se num sentimento de obrigação e lealdade perante o marido. Infeliz, prossegue a sua vida até o inglês aparecer de novo, desta vez tornando-se um amigo da família e, como tal, mais perto do coração de Júlia.

A vida de Júlia prossegue com um grande peso
Os anos vão passando, Júlia e o marido vão-se evitando, mudam várias vezes de local devido às exigências da guerra, e até acabam por ter filhos. Mas vivendo vidas cada vez mais separadas, Júlia apaixona-se novamente por outro homem, mas uma grande desgraça vai bater-lhe à porta, atirando-a ainda mais para o abismo e nada parece fazê-la conseguir sorrir de novo. Vemos as décadas passar por esta mulher à medida que os filhos vão crescendo e algumas pessoas à sua volta vão desaparecendo.

Gosto destas histórias trágicas e que retratam tempos bem diferentes daqueles que vivemos. Aqui, principalmente, quando a mulher era abalada pela infelicidade mas escolheu uma vida recatada, calma e serena, aceitando a sua depressão, fazendo esta já parte da sua personalidade. As descrições, tanto dos vários cenários, das casas, das roupas, e também, claro, dos sentimentos, são de um realismo fantástico e raro. A narrativa é densa mas nunca baixa o ritmo, pelo que não se torna cansativa.

A nota final tem de ser dirigida ao foro psicológico desta personagem feminina, numa abordagem rara em que esta é vítima mas ao mesmo tempo a culpada da sua depressão. Punindo-se a ela primeiro, e aos que a rodeiam depois, carrega uma aura de mártir desnecessária que nem a sua beleza consegue esconder.

A Mulher de Trinta Anos
De: Honoré de Balzac
Ano: 1842
Editora: Difel
Páginas: 180

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.

O Centro Nacional de Cultura abraça mais uma edição do projecto Disquiet, que traz ao nosso país cerca de 90 escritores norte-americanos que, durante 15 dias, vão participar numa Universidade de Verão onde os autores vão ter "um contacto tão abrangente quanto possível com diferentes aspetos da cultura portuguesa, destacando naturalmente o literário, dando-lhes assim a oportunidade de conviver com escritores e poetas lusófonos de diversas gerações, instituições ligadas à cultura portuguesa, etc.”, segundo o CNC.

Esta iniciativa fantástica conta também com autores portugueses convidados como José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares e pretende aproximar as culturas, possibilitando aos visitantes a oportunidade de criar laços e desenvolver conhecimentos que serão uma mais-valia evidente para a criação literária.

Saibam mais sobre o Disquiet 2017 no site oficial do CNC e aproveitem para conhecer melhor os escritores e formadores convidados, os eventos paralelos e o programa completo de dia 25 de Junho a 07 de Julho. Visitem também o site oficial do Disquiet que é puramente brilhante. 


Esta publicação nasce do amor que sinto por esta música e como uma homenagem ao autor Manuel Alegre que, finalmente, depois de décadas a cantar a liberdade nos seus versos foi honrado com o Prémio Camões. Parabéns ao poeta, aqui cantado na voz de Carlos do Carmo. Eterno.

Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.

Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.

Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarras nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.

Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

Eu cá não acredito em coincidências :P



Livros nunca são suficientes, pá!


É ou não é? :)

Ele pode ter feito cocó no sapato... mas quem é que consegue ficar zangado com esta carinha linda? Este livro reúne cartas do cão Doggie para os seus donos que o adoram, a desculparem-se pelas asneiras que fazem. Foi escrito pelo comediante Jeremy Greenberg e contém 50 cartas acompanhadas com fotos que, apesar da estranheza, aposto que são super amorosas!

Disponível na Amazon.



João Melo, escritor e jornalista angolano, oferece-nos neste livro uma série de pequenas histórias que têm como protagonistas homens comuns, que à partida não teriam nada de assinalável para serem os actores principais de história alguma.

Mas acontece que é na normalidade que se escondem segredos de várias ordens, e é-nos mostrado, por A mais B, que cada um deles, assim como cada um de nós, somos merecedores da atenção. São-nos revelados pormenores das suas vidas com muito humor negro, descrições super cómicas e situações inusitadas que revelam estes seres, à partida, envoltos em normalidade. O nome do livro advém da primeira história do livro, sobre o homem que não tira o palito da boca, esse protagonista que mais tarde ou mais cedo todos encontramos na nossa vida, que nos causa um misto de repugnância e curiosidade...

A escrita é muito assertiva mas cheia de estilos; bastante explicativa, perfeccionista e requintada, explorando vários temas pertinentes e eternamente actuais, em especial na realidade Angolana - a família, o dinheiro, o racismo, a prostituição ou a indecência. Nem Portugal escapa às críticas, sendo mencionado mais do que uma vez...

Um livro para descobrir de alma aberta, mascarado como uma brincadeira, mas que denuncia e incomoda na sua ironia permanente.

O Homem Que Não Tira o Palito da Boca
De: João Melo
Ano: 2009
Editora: Caminho
Páginas: 176

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Poderia ser mais uma das pessoas a parabenizar o Salvador (e sou). Poderia ser mais uma das pessoas a dizer que esta música da Luísa é uma bela homenagem à simplicidade harmoniosa da nossa língua (e sou). Poderia até ser mais umas das pessoas a agradecer a ambos o facto de terem sacudido o glitter plastificado e a maquilhagem esborratada do Festival da Canção e criado uma música que vale por si, sem artifícios (e sou). Mas prefiro apenas ser uma das pessoas que fica calada a ouvir, porque a música, quando é assim, vale por si e tem voz própria, sem necessitar de advogados outros que a sua natural e indiscutível qualidade.

Deixo um suspiro de alívio e um "Graças a Deus! Ainda há poetas e trovadores em Portugal." Cantemos:
Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender.

Se o teu coração não quiser ceder 
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois.


Eu avisei que sofria de esquizofrenia literária. Isto dito, em seguimento desta publicação, hoje venho falar de mais um livro que marcou a minha juventude : "A Metamorfose" de Franz Kafka

Como qualquer boa adolescente amante de literatura, sem borbulhas ou óculos, mas transtornada com as questões do Ser, tive a minha fase existencialista. Assoberbada de hormonas e nos meandros do auto-conhecimento dediquei meses à leitura dos mais variados títulos de Camus a Malraux e embrenhei-me nos fantasmas Kafkianos como que bêbada de vontade de sentir o Nada em pleno. 

Foi neste inebriamento que se destacou o "A Metamorfose". Caminhei lado a lado com Gregor Samsa, no absurdo da sua dor e solidão, página a página, sofregamente e ansiosamente à espera de respostas: como um insecto? Porquê uma maçã? De onde vem esta aceitação bolorenta do monstruoso?

Lembro distintamente, como se fosse hoje,  a náusea que me acompanhou durante esta leitura. Um insecto porque é insignificante, tão repugnante aos outros que repugna o próprio; uma maçã, talvez por representar o conhecimento, como quando nos vemos ao espelho e à nossa fealdade (a do Homem) de tal forma que esse conhecimento se impregna como erva daninha no espírito; aceitação, talvez porque nada mais resta do que estar conformado com a solidão, a exclusão... afinal, de que outra forma sobreviveríamos à crueldade humana e à alienação inevitável da sua natureza?

As obras de Kafka são como uma chapada, ou melhor, um murro no estômago. Nelas se vê o Humano nú, fragmentado, disperso em pensamentos e acontecimentos que parecem perder na lógica o que ganham em verdade. O absurdo é um recurso natural nos livros de Franz, as personagens e enredo afogam-nos desde as primeiras palavras num estado de estranheza que nunca mais nos larga:

"Metamorfose", Paula Rego
"Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto."

Assim começa o livro. Sem introdução colorida nem floreados descritivos, apenas assim. Uma obra marcante, inquietamente simples na escrita, mas uma leitura humanamente complexa nas questões que desperta. Para sempre na memória.

Mais sobre o livro na Wook.
Armando Silva Carvalho, falecido ontem aos 79 anos, foi um verdadeiro homem dos sete ofícios. Mais conhecido pela sua poesia, também foi advogado, jornalista, tradutor, professor e publicitário. Nascido em 1938, estreou-se na poesia em 1965 com "Lírica consumível", trabalho com que recebeu o Prémio Revelação da APE.

Foi uma carreira recheada de prémios, sendo o mais recente o prémio literário Casino da Póvoa, em 2016, pelo livro "A Sombra do Mar". Afirmando sempre que não era um autor culto, destacou-se pelo olhar irónico, comovente e lúcido sobre o tempo. 

E como homenagem, aqui fica um poema do autor, presente em "Sentimento de um Acidental", e que, como se pode ver, é intemporal. E, para bom entendedor... já se sabe.

"Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma"

Sim... ou sim! :)


Quando peguei neste livro na biblioteca não sabia que estava a levar para casa um thriller fantástico. Tendo como personagem principal o médico David Hunter, é o primeiro de vários livros centrados no médico forense. Nesta primeira história, David deixa Londres e instala-se numa aldeia isolada para exercer medicina geral. No fundo, está a fugir de uma tragédia pessoal e de uma cidade que nesse momento é um espelho do caos que o consome.

Acontece que nessa aldeia pacata, e depois de já estar instalado há algum tempo, é cometido um assassínio macabro. É encontrado o corpo de uma mulher em condições horríficas e, quase por acaso, o polícia responsável pela investigação vem a saber que David é um dos médicos forenses mais respeitados do país. Quase exigindo a sua participação, o médico acaba por se envolver numa investigação que, infelizmente para si e para toda a comunidade, só ali começou.

É daquelas histórias extremamente bem construídas, com muitas reviravoltas inesperadas. O leitor é constantemente surpreendido num enredo nada óbvio e muito bem interligado, num livro que é o exemplo de como o suspense deve ser construído. Estou ansiosa por ler mais livros desta saga.

A Química da Morte
De: Simon Beckett
Ano: 2006
Editora: Presença
Páginas: 304

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


Bem... eu ia ficar furiosa por terem rabiscado e furado um livro desta forma... mas pronto, vale a intenção. E é uma forma original de fazer o pedido que muitos anseiam. Parabéns aos noivos! (se ela não tiver ficado chateada, como eu ficaria. Com livros não se brinca!)


Maria Luísa é gorda. Isso é inegável. Ela sabe, toda a gente sabe. E desde cedo levou com as bocas que, infelizmente, são normais nas tenras idades. Chamaram-na todos os nomes, sofreu de bullying, mas curiosamente nada abalou a sua determinação. A sua inteligência e perseverança contribuíram para um crescimento que acabou por ser normal para as vezes que a tentaram inferiorizar.

Neste livro conhecemos as diversas fases da sua vida, em cada parágrafo apresentadas brilhantemente por uma divisão de uma casa. Com vários saltos temporais (que talvez sejam o aspecto menos positivo por se tornar confuso), acompanhamos Maria Luísa desde a infância à idade adulta. Filha de pais emigrados em África e que tiveram de regressar à metrópole após o 25 de abril, este é também um bom retrato dessa época.

Sozinha em Portugal para estudar, ela passa pelas fases complicadas, pelas amizades tóxicas, más influências, e também pelas paixões. Ser gorda fá-la passar algumas vergonhas e ver-se em situações incompreensíveis e inacreditáveis para quem nunca passou por isso. É também, por isso, um livro de coragem e que marca a diferença desde o momento em que olhamos para as actuais prateleiras das livrarias.

Numa escrita em tom leve mas determinado, ficamos rapidamente fãs desta rapariga-mulher que, acima de tudo, não desiste dos seus sonhos e não deixa que a sua aparência seja um estandarte da sua pessoa.

A Gorda
De: Isabela Figueiredo
Ano: 2016
Editora: Caminho
Páginas: 288

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Se viajar de comboio entre Lisboa e Braga até ao fim do mês, no Alfapendular, vai ter uma surpresa. Ao escolher o seu lugar, vai também estar a escolher um livro que o vai acompanhar durante a viagem. A maioria são contos, histórias curtas mais fáceis de ler. E entre eles encontram-se, por exemplo, Machado de Assis ou Edgar Allan Poe.

A iniciativa é da Cetelem em parceria com a CP. Chama-se "Viagens Com Livros" e vem do Programa de Apoio à Leitura "Tem Tudo a Ler". Uma ideia fantástica para promover a leitura que devia, sem dúvida, ser estendida tanto na data como nos trajectos. Se houver uma pessoa por dia que pegue num dos 301 livros (para os 301 lugares disponíveis) e sinta o prazer da leitura, já será uma vitória.

Via Visão.

Estou constantemente a ouvir isto... "mas tu só pedes livros? não te fartas?" Claro que não! Encham-me de livros! É a prenda útil que nunca desilude! (a não ser quando me deram um da Margarida Rebelo Pinto :/ )

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Antes de mais, este é um trabalho jornalístico formidável, realizado ao longo de bastante tempo e ouvindo o relato de muitas, muitas pessoas, todas elas ligadas de uma forma ou de outra ao desastre de Chernobyl.

Estes discursos foram colocados no livro tal como foram ditos, portanto estamos a "ouvir" as vozes puras, carregadas da tristeza, do medo, da estranheza que os protagonistas sentiram. Conhecemos todo o tipo de intervenientes no desastre, desde as mulheres que viram os seus maridos - bombeiros, polícias, militares... - serem chamados imediatamente para o centro da acção sem saberem onde e por quanto tempo iriam; passando pelos mais velhos que se recusaram a abandonar as casas e os bens e que acabaram por ver tudo à volta morrer; até às futuras mães que esperavam no ventre as consequências negras de Chernobyl.

É claro que é impressionante e que muitas palavras nos moem por dentro. A mim, dois aspectos em especial me fizeram impressão. Primeiro, ter percebido, só agora, do escrutínio que estas pessoas sofreram. Ninguém os queria por perto. A população tornou-se refugiada sem ter para onde ir. Chamavam-lhe "os radioactivos" e outras coisas muito piores, e toda a gente - toda - desde crianças na escola aos mais velhos, foram segregados, postos de parte, olhados de esguelha, numa situação que dura mesmo nos dias de hoje.

Em segundo, os animais. Com a fuga da população, estes ficaram para trás. Gatos, cães, tartarugas, porcos, vacas, cavalos. Todos. Ficaram sem comida, sem água, em solo radioactivo aguardando a morte. Até que foi decretado que deveriam ser mortos (a tiro, para manter a distância) e as terras tornaram-se um palco de morte, com animais mortos por todo o lado, que não podiam ser queimados (por causa da radioactividade espalhada através do fumo) e não houve outro remédio senão enterrá-los em valas (alguns deles ainda vivos, por já não existirem balas suficientes).

Um momento da nossa história que nunca devia ter acontecido. Uma leitura aconselhável aos que querem conhecer melhor os intervenientes directos.
A autora foi distinguida com o Prémio Nobel em 2015.

Vozes de Chernobyl
De: Svetlana Aleksievitch
Ano: 1997
Editora: Elsinore
Páginas: 336

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
É ou não é? 😊



Foi numa feira de antiguidades que comprei esta edição bem antiga do livro "Nascido a 4 de Julho". Neste, o autor conta a sua própria história, desde o tempo em que era um jovem cheio de força e energia que sonhava lutar pelo seu país, até se ter tornado num retornado da guerra do Vietname, paralisado do peito para baixo.

A acção vai saltando entre o passado e o presente, dando ênfase à impressionante vontade de viver do jovem Kovic, a quem não faltavam prémios por excelência no desporto. É-nos contada a sua infância e adolescência, e conhecemos as suas amizades, brincadeiras, namoros e interesses. Tudo para nos dar uma base da personalidade activa deste homem. Assim que teve idade para se alistar, quis representar a América ao mais alto nível, assim ele pensava, e lutar de arma na mão no Vietname.

Quis o destino que este homem sobrevivesse, mas completamente paralisado do peito para baixo. Reduzido a uma cadeira de rodas, percebemos como a sua masculinidade é afectada, como não se sente um ser humano inteiro e como lamenta a decisão que tomou, ainda para mais depois de verificar como é tratado. Testemunha que não há condições para os lesados da guerra, que acabaram por viver em hospitais degradantes e sem ajuda digna, vistos mais como os coitadinhos que se querem escondidos e calados do que como heróis.

Antes orgulhoso por ter defendido o seu país, Kovic torna-se num homem que vai lutar pelo fim de uma guerra sem sentido, não hesitando em dar a cara, e o seu pouco corpo, aos media, em todo o lado que tivesse oportunidade.

É uma história impressionante que, centrada num indivíduo, nos faz ver muito para além dele, que nos mostra outros verdadeiros destroços humanos da guerra, que são aqueles que viram coisas abomináveis e que sobreviveram para relembrá-lo, ainda por cima sofrendo no corpo as horríveis consequências de uma guerra muito questionada.

É uma edição antiga com letras pequenas e com algumas gralhas, o que dificulta um pouco a leitura, e existem alguns devaneios incompreensíveis de Kovic pelo meio do livro, mas tirando isso aconselha-se a leitura.

E que se complete com a visualização do filme, com Tom Cruise no principal papel. Um filme de 1990 que já é um clássico.

Nascido a 4 de Julho
De: Ron Kovic
Ano: 1976
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 140

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
É um quiz da Wook que pode encontrar aqui e que lhe vai dizer que tipo de leitor é... Não se esqueça de apontar as respostas! Eis o que me calhou:

MAIORIA E 
Tem a certeza que não é da famíia do Sherlock Holmes? E do Poirot? É um desvendador nato de mistérios e dilemas e não tem medo de livros assustadores! Não suporta finais sem sentido e leu de uma rajada só toda a coleção da Agatha Christie. Lembra-se quando se deliciou com O Cão de Baskervilles ou com A Rapariga no Comboio?

Bem, ainda não li as últimas duas referências, mas sim, adoro mistério e dilemas!! :)

Eu seria apanhada imediatamente!😄


E boa segunda-feira para todos os leitores :)



A história começa numa Feira de Emprego. Centenas de desempregados madrugaram e estão na fila do evento para serem os primeiros a entrar e a agarrar as oportunidades. Enquanto esperam, algumas pessoas socializam e conhecem-se, incluindo uma mulher que teve de levar o filho bebé e o homem que está atrás dela e a ajuda com a criança.

Nisto, um carro aproxima-se a alta velocidade. É um Mercedes, mas ainda na escuridão poucos dão por isso. Só ouvem e acabam por sentir o carro que não pára, que lhes passa por cima. Que mata algumas pessoas e deixa mazelas para sempre noutras. É um verdadeiro massacre, que muito faz lembrar alguns recentes ataques terroristas. Os desempregados, que ali estavam numa réstia de esperança, foram desprovidos de toda, alguns até de vida, numa cena icónicamente sádica e macabra mesmo ao estilo do meu querido Stephen King.

O carro foi encontrado vazio e sem pistas não muito longe dali. O autor não foi apanhado, nem havia a menor desconfiança. Agora, algum tempo depois, o detective encarregue da investigação está reformado e começa a receber mensagens de alguém que se identifica como o autor e que no fundo quer brincar com ele num jogo do gato e do rato que pode levar a sérias consequências.

Um livro que não desaponta, cheio de mistério e naquele estilo que nos leva a querer ler mais e mais. Stephen King é especialista nisso... Destaca-se ainda o perfil psicológico do assassino. O homem tem tantos pormenores de destaque naquela mente perturbada que vale a pena a leitura só por isso. Uma história de investigação policial com algo de doentio e de demente.

Sr. Mercedes
De: Stephen King
Ano: 2014
Editora: Bertrand
Páginas: 472

Disponível no site Wook.
A nossa pontuação: ★★★★☆
Recordando o jornalista e autor que nos deixou recentemente, deixamos uma citação de Baptista-Bastos presente no Jornal de Negócios em 2009, que muito diz sobre os nossos dias, as relações de hoje e os tempos frenéticos que vivemos em busca de não sei o quê, esquecendo-nos do que é importante.

Que descanse em paz e que as suas palavras inspirem os que por cá vão ficando.

"A nossa sociedade está a desmoronar-se e ninguém lhe acode. Os laços sociais estão a desaparecer, substituídos por um sistema de valores em que impera a vacuidade, o poder da «competitividade» como força motriz - e não é. Há tempo para tudo, diz o Eclesiastes. Mas a verdade é que os «tempos» foram pulverizados pela urgência de não se sabe bem o quê. A frase mais comum que ouvimos é: «Não tenho tempo para»; para quê? A correria mina as relações de civismo e de civilidade; está a roer os alicerces da família; a família deixou de ser o núcleo das nossas próprias defesas; e vamos perdendo o rasto dos nossos filhos, dos nossos amigos, dos nossos camaradas, dos nossos companheiros. A azáfama nos locais de trabalho é o sinal das nossas fragilidades e dos nossos medos. Estamos com medo de tudo, inclusive de confiar em quem, ainda não há muito, seríamos capazes de confidenciar o impensável."


Uma belíssima homenagem ao amor pelos livros! Uma tatuagem bem original, com uma composição excelente e imenso significado.


Hoje em dia a tecnologia está em todo o lado e na maioria das vezes não conseguimos evitá-la... mas podemos disfarçá-la! Esta capa para portátil é um mimo e mata um pouco as saudades dos nossos amigos livros. Giríssima!




Heinrich Böll, Prémio Nobel em 1972, é conhecido pela sua escrita dotada de uma clareza tão crua e dilacerante como a sua consciência política. Em "O Anjo Mudo" Böll fala-nos de um jovem militar alemão e do seu regresso em 1945 à sua cidade fragmentada e destruída, onde as ruínas do Terceiro Reich assombram mais o espírito dos homens do que as paredes das casas em pedaços.

Hans, um jovem recrutado, sem outra escolha do que seguir a sentença militar, chega-nos neste livro com fome, com traumas e fantasmas, mostrando o outro lado da Segunda Guerra Mundial. A educação (a História) é tão rápida nos seus julgamentos de valor, que é fácil deixar cair no esquecimento estes jovens, estas famílias, mulheres, crianças, pais, que sofreram com devastação causada nas suas vidas após os bombardeamentos, as mortes, e a ocupação do território no final da guerra.

No meio da desolação Hans encontra o amor e quem sabe até a fé, diria mesmo a esperança de um dia ser merecedor de alguma paz, consolação e perdão, no meio da austeridade da perda e da miséria. Regina é a mulher que o acolhe, saindo do luto de um filho morto para salvar um militar que, à força do contexto e do julgamento, nunca será um herói aos olhos de ninguém : para os seus é um pária ilegal, para os outros um criminoso.

Não é de estranhar que este livro não tenha sido publicado na data da sua conclusão em 1951, por despertar memórias que se queriam enterradas num passado demasiado recente e doloroso para uma nação que já perdera tanto de si mesma. Apenas em 1992, já depois da morte do autor, "O Anjo Mudo" ganhou voz e contou o outro lado humano de um dos períodos mais atrozes da história mundial.

Quanto mais lemos, mais vemos, mais sabemos, sobre as guerras que assolam e assolaram o nosso mundo, mais simples é perceber que não há vencedores. Todos os que perdem - sejam vidas, alma, valores morais, em contextos de total desumanidade e desumanização, são vítimas; e a qualificação de "os bons" e "os maus" é injusta por pecar no erro de esquecer que a natureza humana tem um pouco de ambos e que não nos compete julgar com uma simplicidade embrutecida, mas sim tentar compreender e melhorar para que as atrocidades que julgamos não se repitam por novas radicalizações da verdade.

Este é um livro honesto. Tão honesto como a verdade deve ser, com o seu respeito pelos factos, sim, mas acima de tudo com o seu respeito pelo Homem, qualquer Homem, sempre.

Uma lição sobre a Humanidade.

O Anjo Mudo
De: Heinrich Böll
Ano: 1992
Editora: Bibliotex Editor S.L. (trad. cedida por Edições Asa)
Páginas: 174

A nossa pontuação: ★★★★★

Num bairro de respeito (Arlington Park) vivem algumas mulheres que dedicam a sua vida à família, aos filhos e maridos, algumas às suas carreiras. Todas são diferentes, mas têm em comum algumas frustrações, desejos que nunca se irão cumprir e um modo de vida que escolheram e que umas acataram como o certo, e outras sonham com o que a vida poderia ter sido e não foi.

O enredo passa-se ao longo de um dia na vida destas mulheres, entre saídas umas com as outras, jantares e convívios que correm menos bem, momentos com os filhos e outros de algum desespero e confusão, mas também de agradecimento. A acção salta entre umas e outras, mostrando-nos pormenores na vida destas mulheres que por vezes se cruzam.

É um livro leve e fácil de ler, mas ao mesmo tempo é um desafio porque na verdade a trama não nos leva a lado nenhum. A autora mostra-nos a vida como ela é, e a acção não caminha para nenhum ponto crucial e impactante, para nenhuma reviravolta mirabolante. Isto é a descrição simples, mas sincera, e por isso, interessante, da alma feminina e da resignação, ou não, a um estilo de vida.

Livro finalista do Orange Prize 2007.

Arlington Park
De: Rachel Cusk
Ano: 2007
Editora: Edições Asa
Páginas: 240

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.

Hoje é dia 25 de abril, um dia que ontem, hoje e amanhã carregará um significado ímpar na nossa história. Estamos aqui, hoje, a fazer o que fazemos, a dizer o que queremos, a ler o que queremos, graças a um grupo de pessoas que nesse dia, e não só, deram o golpe para a liberdade.

E porque há heróis "indirectos" e menos óbvios, a sugestão de hoje vai para o livro "Capitãs de Abril", centrado nas mulheres dos militares da revolução. Elas foram lutadoras sem balas, com um papel importantíssimo nos bastidores que vale a pena conhecer.


Um alento, um amigo, um professor, um companheiro... os livros merecem ser celebrados e hoje é o dia deles e, portanto, também o nosso. Essa luz que nos ilumina na escuridão e nos torna mais ricos mesmo sem tostão. Feliz dia do livro!



A história passa-se entre 1930 e 1958, embarcando portanto uma fase horrível da história mundial. A personagem principal é um rapaz de 9 anos, judeu, e a trama começa por ser contada na sua perspectiva, na Alemanha. A sua família, composta pelos pais, irmã e avó, vivia bem, até começar a segregação dos judeus. Aí, começa uma aventura "desnecessária", uma luta pela sobrevivência e por encontrar um lugar onde fosse garantido que continuassem vivos, coisa cada vez mais difícil.

O rapaz encontrou consolo num pombo ferido que o acompanhou enquanto pôde. Com ele desabafava e encontrava um aconchego que lhe foi falhando em tudo o mais. Mas o avançar dos acontecimentos, os campos de concentração, a fome, a doença, a morte, pairaram sobre tudo e mudaram a vida de todos.

Outro aspecto explorado neste livro e que é mais raro observar é a exploração das mulheres para a prostituição. Mulheres que foram desprovidas da sua vontade e do seu corpo, que viram queimadas as suas entranhas para não terem filhos, e que foram postas como carne num talho para o alívio imediato dos actores de uma guerra sem sentido.

Outra parte importante da narrativa é o nosso país. A autora, que vive cá há muitos anos (e que se naturalizou portuguesa), concentrou-se também no facto de Portugal ter sido um país neutro onde muitos, mesmo muitos, encontraram refúgio e graças à caridade e à boa vontade dos portugueses e de comunidades judias conseguiram sobreviver para contar as suas tristes histórias. Fomos um país muito importante, pequeno em tamanho para tanta gente, mas mesmo assim chegou para tudo - para albergar, dar amor, responder a pedidos desesperados, ajudar com tudo o que foi possível. E eu questiono-me o que foi feito desse povo, que hoje é desconfiado e crítico até à ponta dos cabelos, mas que no passado foi responsável por dar esperança e vida a milhares de pessoas que pensavam que estava tudo acabado para elas. Enfim, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Gostei muito do livro e recomendo.

O Rapaz e o Pombo
De: Cristina Norton
Ano: 2016
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 272

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
"I Could Pee on This: And Other Poems by Cats" é um livro muito estranho, com poemas como se fossem saídos directamente da mente de um felino.

Com fotos dos gatos dos autores, outros poemas são, por exemplo, "This Is My Chair" ou "Some of My Best Friends Are Dogs", e todos os donos de gatos vão-se identificar, e rir, com estes pensamentos.

Disponível na Amazon.


Foi com imensa curiosidade que peguei neste livro do falecido músico e autor, que muito admiro nos talentos musicais mas desconhecia a sua escrita de ficção.

Escrito nos anos 60, é uma amostra significativa do experiencialismo na literatura e é uma autêntica trip. O protagonista é obcecado com a cultura nativo-americana Mohawk, especialmente com a santa Kateri Tekakwitha, de quem vai contando a mirabolante e chocante história, intercalada com a sua própria.

A sua mulher, também nativo-americana, havia cometido suicídio, e são as saudades da sua pele escura e da sua forma de estar diferente que vão sendo o mote para uma escrita que tem tanto de estranha como de sentimental. Ele e o seu melhor amigo, F., recordam esta mulher, Edith, e estas conversas vão revelando que F. e Edith eram afinal muito mais que amigos. À medida que as revelações vão tomando proporções gigantes, os dois amigos também se vão embrenhando cada vez mais numa relação homosexual e muito conspurcada, pode-se dizer que bastante doentia.

É um livro difícil. Porque não há uma linha temporal segura para seguir, porque as histórias e os tempos se vão misturando, porque há páginas lá pelo meio que são só devaneios imensos e longos, sem pontuação e sem linhas de raciocínio. Por um lado, é revelador saber o que a mente de Leonard Cohen criou antes de se tornar músico. Por outro, é simplesmente assustador. Leiam, se quiserem uma viagem estranha, mas estejam preparados.

Vencidos da Vida
De: Leonard Cohen
Ano: 1966
Editora: Alfaguara Portugal
Páginas: 296

A nossa pontuação: ★★☆☆☆
Disponivel no site Wook.


Como descrever este conto em apenas uma palavra? Não dá, mas duas bastam: nostalgia e solidão.

Em "A Balada do Café Triste", a escritora Carson McCullers conta-nos a história de uma mulher forte, em corpo e em espírito, Miss Amélia, do seu primo corcunda Lymon e de um rufia condenado de seu nome Marvin Macy.

Numa terra norte-americana solitária e esquecida, perdida no tempo e sem muito que fazer, vão se cruzando histórias de várias personagens com as três principais. Um sentimento de tédio peganhento pode descrever a cidade, até à inesperada chegada do primo anão de Miss Amélia, que com as suas maledicências tem tanto de caricato como de entusiasmante : uma novidade numa terra estagnada onde nada acontece.

Desta relação imprevista entre um corcunda anão, Lymon, e a gigante impetuosa que é Miss Amélia, nasce um café onde todos os habitantes do lugarejo vão para conviver. Este café vai ser o palco onde se desenrola o quotidiano na sua calma e tranquilidade, até à chegada de Marvin Macy, ex-marido de Amélia e um ex-presidiário perigoso.

Miss Amélia nutre um ódio profundo por Macy, mas apesar de ser uma mulher reservada e isolada, no seu coração começa a nascer um estranho amor pelo anão corcunda. Este amor vai ser ameaçado pela presença de Macy e o inesperado acontece... Como se irão relacionar estas personagens, donas de personalidades controversas e intensas?

Uma escrita simples e crua, uma história onde as personagens agem para fugir da solidão, procurando entretenimento nas discussões e brigas entre os seus habitantes.
Dá que pensar...Talvez hoje em dia não seja esta terra assim tão diferente de uma qualquer terra deste mundo, pois a verdade é que parece que se buscam muito mais a desgraça e a desventura, do que a paz e a felicidade.

Serão as nossas notícias, as nossas redes sociais, a nossa imprensa, como o café de Miss Amélia, um palco para a má-língua? Estaremos nós tão entediados que não procuramos mais que guerras e desavenças? Espero que não.


A Balada do Café Triste
De:
Carson McCullers
Ano: 2003 - Coleção Biblioteca Escritores Estrangeiros da Atualidade
Editora: Planeta DeAgostini
A nossa pontuação: ★★★★☆

Mais sobre este livro no site Wook.pt

Também não sei... ajudam a escolher? 😀


Um ex-polícia, Matthew Scudder, que de vez em quando faz umas investigações por conta própria é o protagonista deste policial. A acção passa-se 9 anos depois de uma série de crimes que aconteceram, cujas vítimas foram unicamente mulheres, todas atacadas com um picador de gelo. O assassino foi finalmente apanhado e confessou os crimes, mas diz que não foi o autor de um deles.

O pai dessa vítima quer paz e acima de tudo que o verdadeiro responsável, caso não seja o confessor dos outros crimes similares, seja apanhado, e perante a inactividade da polícia, contacta Matthew para investigar. Este acaba por aceitar, embora o rasto dos acontecimentos esteja bastante frio após quase uma década.

Mesmo assim, o faro de Matthew Scudder vai levá-lo a falar com pessoas que nunca foram escutadas e a fazer pressões, levantando véus sobre o passado que fará com que muita gente fique incomodada.

Esta personagem é recorrente nos livros do autor e este foi o primeiro livro que li dele. Adquiri-o no Jumbo por 3€ e valeu bem a pena. É um policial decente com muito mistério e bem estruturado. Matthew Scudder é também uma personagem que vale a pena conhecer e continuar a explorar. A linguagem é simples mas o autor consegue perpetuar o suspense, condição essencial neste tipo de livros.

Uma Punhalada no Escuro
De: Lawrence Block
Ano: 1981
Editora: Cotovia
Páginas: 184

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.