Neste livro que explora o universo mitológico, Gonçalo M. Tavares apresenta-nos 13 histórias mirabulantes passadas num mundo fantasioso onde o exagero e o surrealismo imperam.

As várias narrativas interligam-se num tempo indefinível sem uma óbvia linha temporal e entrelaçam personagens marcantes, como a Mulher-sem-cabeça que procura incessantemente os filhos; ou o Homem-do-mau-olhado, que evita olhar as pessoas de frente, ainda assim não as amaldiçoe para sempre; ou ainda um homem tão alto que a anormalidade vai fazer com que morra muito cedo.

As personagens são marcantes e muito características, e talvez seja essa, para mim, a parte mais positiva. No entanto, a falta de sentido e de pontos orientadores deixaram-me um pouco à nora e dei por mim a perder o interesse. São vários os acontecimentos presentes, e à partida muito interessantes - como o advento do cinema, a revolução industrial, ou a evolução científica - mas sou uma pessoa muito lógica e ver as coisas acontecerem do nada e sem uma ligação óbvia levam-me à descrença.

É um livro pequeno que se lê muito rápido, e acredito que para a maioria dos leitores será deveras interessante. Para mim foi um pouco penoso não me conseguir embrenhar na leitura, mas para quem aprecia o universo mitológico será concerteza imperdível.

A Mulher-sem-cabeça e o Homem-do-mau-olhado
De: Gonçalo M. Tavares
Ano: 2017
Editora: Bertrand
Páginas: 152

A nossa pontuação: ★★☆☆☆
Disponível no site Wook.
Se alguém me quiser dar este saco de pano no Natal, aceitarei de boa vontade. É baratinho e é a minha cara :P
Disponível na Bertrand.



A história começa bem - em 1914, três professores universitários em Espanha, aparentemente sem qualquer relação (nem nos estudos) mutilaram-se de diferentes formas e ficaram em estado catatónico. Hércules é o investigador que vai tentar descobrir a razão, e pede ao seu amigo polícia americano, Lincoln, que viaje até à Europa para se lhe juntar.

Os dois deparam-se com uma investigação difícil que os vai levar por diversos pontos da Europa, incluindo Lisboa. Num período que antecede o estalar da II Guerra Mundial, eles vão fazer de tudo para pôr as mãos num perigoso livro que augura o aparecimento de um messias ariano que irá mudar o mundo, sem retorno possível. E todos sabemos o que isso acabou por significar. Passou a ser também a perseguição por uma pessoa que, pese a inocência que ainda mantém, se vai tornar o cerne da questão e a chave para o futuro da Europa.

Com uma grande base de acontecimentos, nomes, e documentos reais, esta é uma aventura megalómana que na minha opinião peca por isso mesmo - é demasiado. Como é que duas pessoas que fazem inimigo atrás de inimigo, perseguidas por meio mundo, e que acabam por arrastar outras pessoas consigo, conseguem deslocar-se livremente por uma Europa mergulhada no caos, numa época em que mal haviam carros? E eles tanto estão em Madrid, como em Lisboa, como em Viena, com uma rapidez e uma facilidade que fariam inveja à TAP.

Tirando este "pormenor" que para mim tira algum crédito à narrativa, aprendi imenso sobre o período pré-guerra e apreciei o clima de suspense que o autor conseguiu manter até ao fim.

O Messias Ariano
De: Mario Escobar

Ano: 2009
Páginas: 414
Editora: Bertrand

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Aqui fica uma sugestão para o frio. Ele não irá embora, mas pelo menos ficam com um livro 😜


O narrador assiste à queda de um pequeno avião no pantanal. No local, viu que nada podia fazer pelo piloto. Levou alguns pertences dele: o relógio, a mochila, que tinha o telemóvel, e ainda uma surpresa: um quilo de cocaína.

Manteve a boca fechada em relação à sua descoberta, e só partilhou com um amigo a questão da droga - queria a sua ajuda para a vender e ganhar uns trocos extra. Quando as notícias do desaparecimento do piloto começaram a espalhar-se o peso na consciência também apareceu, mas quiseram as circunstâncias da vida que viesse a trabalhar para os pais dele, e que, claro, se tenha metido em confusões por causa da venda da cocaína.

A narrativa acompanha este homem desde que achou aquela pequena fortuna no pantanal até ao momento em que o seu plano para sair incólume da confusão criada é posto em prática. O stress é crescente e o ritmo alucinante - não temos hipótese de descanso - mas a ação decorre a um ritmo natural. Parece que estamos a assistir a um bom thriller, lendo.

Ele passa por momentos de verdadeiro aperto, por dificuldades com a vizinhança, com as mulheres, com os dealers, luta com a sua consciência, vê-se metido numa data de enrascadas, mas a estrutura está muito bem feita e o relato parece completamente real.

O ponto mais negativo da leitura é ter-se mantido no português do Brasil original. Acho que a editora devia ter revisto esta opção. Apesar de todos sabermos que "ônibus" é "autocarro", ou que "cara" pode ser "gajo", há inúmeras expressões que nunca tinha visto. As estruturas do diálogo e o tratamento por "você" no nosso "tu" também criam dificuldades. Demorei imenso tempo a entrar nos eixos e a conseguir ter uma leitura disruptiva.

Fica a sugestão para a editora para eventuais próximas edições. Apesar deste "contratempo", é um livro da autora brasileira Patrícia Melo que vale bem a pena.

Ladrão de Cadáveres
De: Patrícia Melo
Ano: 2012
Editora: Quetzal
Páginas: 208

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.

Neste livro de 1908, é-nos contada a história de sete condenados à morte por enforcamento. Todos cometeram crimes graves, e todos receberam a mesma sentença. Acompanhamo-los desde o momento do crime até ao final das suas vidas.

A narrativa mostra a brutalidade da pena de morte. Individualmente, entramos na mente de cada um dos condenados e são-nos apresentadas as diferentes maneiras de lidar com o assunto. Há quem entre em negação, não acreditando na visão do seu próprio corpo pendurado sem vida. Há quem seja altruísta até ao fim e pense mais no sofrimento dos outros - se estão bem nas suas celas, sem fome, conseguindo dormir e sem sentir a falta do tabaco. Há quem julgue enlouquecer, dando por si em grandes conversas consigo mesmo misturando actuais sentimentos com recordações antigas. Há quem esteja contente porque o seu nome vai ficar escrito para sempre nos anais da História.

Em todos os relatos, um ponto é comum - estas pessoas sabem que vão morrer, e quando. E esse ponto sem retorno é explorado até ao âmago mais profundo daquelas almas que sabem que vão conhecer o fim.

É um livro absolutamente fantástico, bastante à frente do seu tempo, e muito tocante. Nunca é lamechas - pelo contrário, há ali um negrume difícil de obter e um pessimismo inigualável - mas puxa pelo nosso lado mais sensível.

Para além desta história principal, somos ainda brindados com uma mais curta, intitulada "O Pensamento", que é um relato escrito de um médico que cometeu um assassínio. E ele explica detalhadamente porque o fez, como o fez, mostrando uma lucidez lancinante com rasgos de genialidade e com comentários mordazes que chegam a ser cómicos.

Uma leitura que se faz muito rapidamente, super recomendada, brutal e poderosa, e que me deu a conhecer Leonid Andreyev, o autor russo, dramaturgo, que morreu demasiado cedo.

A História dos Sete Enforcados
De: Leonid Andreyev
Ano: 1908
Editora: Hespéria
Páginas: 204

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível no site Wook.
Disponível para leitura online, gratuita, em inglês.
Há muitas décadas atrás, Jamie Morton era uma criança numa pequena vila na Nova Inglaterra. Morava com os seus pais e irmãos em relativa normalidade, até que o reverendo Charles Jacobs chegou à povoação. A sua juventude, o seu arrojo, e a sua família bonita vieram dar um novo ânimo à terra que andava cada vez mais desligada de Deus. Os jovens voltaram a gostar de passar as tardes de quinta-feira com o reverendo e a família, onde lhes mostrava "truques" com a sua obsessão - o uso da electricidade.

Tudo ia bem, até que a tragédia se abateu sobre o reverendo e a família, e ele nunca mais foi o mesmo. O seu fim naquela terra foi marcado por um discurso em que colocou Deus em causa e irritou a população, e não voltou a ser visto por muitos anos.

Até que Jamie Morton, já adulto, se tornou um viciado em heroína. Aí, o "reverendo" - agora um feirante que apresenta para um público os tais "truques" com electricidade - se atravessa no seu caminho, e ajuda Jamie. Este fica com uma dívida para com ele, e quando Jacobs sai novamente do seu caminho, ele sabe que não será a última vez que o vê.

Tudo isto caminha para as verdadeiras intenções de Jacobs, relacionadas com o uso da "electricidade secreta", como lhe chama. Amargurado com a vida, ele pretende abrir uma porta que nunca deverá ser aberta e conta com Jamie e a sua dívida para o ajudar.

É difícil descrever este livro sem fazer um grande spoiler, e por isso este resumo poderá parecer incompleto ou sensaborão. Garanto que o livro não o é. Stephen King apresenta aqui duas das melhores construções de personagens que já lhe li, e eu já lhe li quase tudo. Os pormenores de carácter destes são soberbos, o que os une (o tal spoiler que não vou revelar) é imenso, assim como acompanhar o envelhecimento deles e o entrelaçar das suas vidas.

Há muito mais por descobrir - o livro acompanha várias décadas da vida destes homens e dos que se atravessam no seu caminho. Contém muito sobre o fanatismo, misticismo, e é negro, especialmente no final. Vai ser adaptado para cinema, por isso veremos se faz jus ao bom livro que é. Não será  uma adaptação fácil.

Despertar
De: Stephen King
Ano: 2014
Páginas: 368
Editora: Bertrand

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


Wisting é um detective de homicídios que se vê envolvido numa estranha história que, ao que tudo indica, foi um assalto que correu mal e que se tornou num homicídio. Numa casa de férias no meio da neve, foi encontrado um corpo com a cara tapada, posteriormente encaminhado para autópsia e que acabou por desaparecer no caminho. Ao mesmo tempo, cada vez mais pássaros aparecem mortos na zona. Enquanto Wisting persegue a verdade, vê-se envolvido numa teia de acontecimentos cada vez mais complexa.

Considero os policiais nórdicos muito competentes - conseguem criar ambientes frios (literais ou não) e cenários completamente fora da caixa decorrentes de investigações complexas mas que decorrem de forma natural. Este é um dos mais fracos que li.

Foi o primeiro livro do autor publicado em Portugal mas a saga do detective Wisting já era longa. No entanto, percebe-se perfeitamente o seu passado e todos os contextos - é capaz de ser a parte mais positiva. Outro ponto positivo é o facto de o autor ter sido ele próprio polícia, o que confere uma autenticidade natural à narrativa. No entanto, deixa pouca margem à imaginação - os processos, as buscas, a recolha de informações são mais metódicas e descritivas do que surpreendentes.

Senti falta dos elementos surpresa que considero fundamentais em investigações policiais, e de haver poucos acontecimentos dignos de registo em todo o livro. Só dou nota positiva porque cheguei até ao fim. A custo.

Fechada Para o Inverno
De: Jørn Lier Horst
Ano: 2013
Editora: Dom Quixote
Páginas: 352

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Sou produto da geração Vitinho. Nascida nos anos 80, cresci com ele e ficou-me marcado na memória. Numa altura em que só havia dois canais de televisão, é normal que a minha geração se lembre do boneco com carinho.

José Maria Pimentel, o designer que o criou, nunca imaginou a repercussão que o Vitinho viria a ter, quando foi inicialmente pensado apenas para viver numa publicidade. Aproveitando agora que a geração Vitinho está na fase de criar família, o designer, que já lançou uma colecção de livros para crianças, vai lançar também um volume maior para os pais. No fundo, serão estes os maiores promotores do boneco que marcou a televisão nos anos 80. Será uma antologia de 30 anos de Vitinho.

Agora, os graúdos também podem dormir mais descansados :) Saiba mais aqui.


Neste quiz vai poder associar um nome às caras de alguns dos escritores mais famosos do mundo. O meu resultado não é motivo de orgulho mas também não está mal: 65% de respostas correctas.

Divirta-se!