Miguel está na casa dos 40 e tem Síndrome de Down. Quando os pais morrem, é o seu irmão que se chega à frente para ficar com ele, para o alívio das quatro irmãs, todas casadas e com filhos, com as suas vidas feitas e com pouco tempo para tomar conta de um adulto com necessidades especiais.

Ora este irmão, o narrador, apesar de ter tempo, não tem a proximidade de outros tempos com Miguel. Quando foi estudar para Lisboa afastou-se da família e tornou-se quase um estranho para ele. No entanto, os tempos da infância e da adolescência em que os dois se compreendiam como ninguém, embora se provocassem e enervassem mutuamente, falaram mais alto.

É-nos relatada uma história no tempo presente, quando os dois irmãos vão passar uns tempos à casa da família no Tojal, aldeia isolada do mundo, na esperança de acordar velhas memórias em Miguel que lhe tragam fantasmas da proximidade uma vez aí vivida, que os traga de novo para os abraços um do outro. Ao mesmo tempo, são-nos também entregues, intercaladamente, histórias do passado, das teimosias, das desavenças, das conversas e retaliações dos dois, mas também de um elemento que veio trazer muita angústia - a Luciana, também ela com problemas mentais, rapariga que se tornou a sua obsessão.

Em nenhum ponto da história o Miguel ou outro deficiente mental é caracterizado como sendo um coitadinho - pelo contrário, a igualidade com que o irmão o trata é bem capaz de chocar algumas pessoas e já vi leitores a criticar esse tratamento. Mas se por vezes dizemos o que tem de ser dito aos nossos amigos, irmãos, pais, colegas, mesmo que isso os magoe, não há razão para envergarmos uma máscara de filtos no tratamento para com os deficientes. Acho que eles o merecem - ser tratados com qualquer outra pessoa, mesmo que a paciência e a compressão tenham de ser a dobrar.

A relação entre os dois irmãos não é perfeita - longe disso - mas talvez por isso seja revestida de uma realidade que nos aumenta a crença. Juntos vão passar por muito, mesmo que isso signifique pouco para o Miguel em dadas circunstâncias e dada a sua obsessão por Luciana, numa viagem turbulenta, nada pacífica, mas cheia de amor.

Li o livro sem saber nada sobre o seu autor. Depois, descobri que foi vencedor do prémio Leya em 2014, por unanimidade. Afonso Reis Cabral tinha apenas 24 anos e foi o seu primeiro romance. É obra. Nunca adivinhei, pela maturidade da escrita e pela sua visão e modo de ver as coisas, a sua tenra idade. O rapaz é trineto de Eça de Queiroz, e talvez lhe corra algo nas veias. Adorei, foi a minha primeira grande descoberta do ano, e aconselho a todos.

O Meu Irmão
De: Afonso Reis Cabral
Ano: 2014
Editora: Leya
Páginas: 368

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível no site Wook.
Com a colaboração de escolas por toda a Europa, incluindo Portugal, foi construído este mapa literário com ilustrações dos melhores (ou mais representativos) livros infantis de cada país.

Em representação de Portugal, o escolhido foi Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

O resultado é fantástico, e fica a vénia pelo estímulo à leitura aos mais novos. O projecto incluiu também um mapa com a palavra "livro" traduzida nas várias línguas, e outras ilustrações que apelam à unidade e à magia de ler. Podem vê-las aqui.



Este livro fala sobre eventos que ocorreram na década de 80 na Coreia do Sul. Perante o fecho de universidades num regime que reduzia ao máximo a liberdade de expressão, os estudantes foram para as ruas manifestar-se. Em Gwangju as coisas saíram do controlo, e tanto os estudantes como a restante população que se lhes juntou foram gravemente reprimidos, mortos em plena via pública, onde os cadáveres depressa se amontoaram e as ruas se transformaram num cenário de guerra.

Os que escaparam da morte ou ficaram gravemente feridos, ou foram presos e posteriormente torturados, ou foram perseguidos, naquele que ficou conhecido como o Massacre de Gwangju. Mais manifestações se seguiram, mais repressão, mais indignação, mais medo, mais mortes, e ainda hoje o número de mortes não está contabilizado.

A autora centrou-se em Dong-ho, uma vítima real desses eventos. Ele vê o seu melhor amigo morrer na primeira manifestação. Ao procurar o seu cadáver num dos locais onde foram amontoados para identificação por parte das famílias, conhece pessoas motivadas a mudar o rumo das coisas e dispostas a morrer em prol da liberdade. Junto delas, vai explorar o seu íntimo e sentir coisas que nunca sentiu ao ver os corpos e a ajudar aquelas famílias e amigos que não compreendem as mortes e que sentem medo e têm dúvidas sem resposta.

Dong-ho morre (não é um spoiler, sabemo-lo logo), sendo mais uma vítima da brutalidade de Gwangju. Os capítulos estão muitíssimo bem estruturados, cada um centrado numa pessoa e numa época. No entanto, todos se cruzam com Dong-ho, e essa mestria no cruzamento das histórias contadas por várias pessoas é a melhor parte do livro. Os meus capítulos preferidos são dois: o que é contado na perspectiva do amigo morto de Dong-ho, em que a sua alma relata o horror dos corpos empilhados à sua volta, no seio da putrefacção e do caos das almas em dúvida; e o contado pela voz da mãe de Dong-ho, que dá voltas e voltas à cabeça mas que acaba sempre por se culpar pela sua morte, sem no entanto lhe encontrar qualquer justificação, ao mesmo tempo que vê a família desmoronar.

É um livro cru que relata eventos macabros e que são uma mancha negra na História. Para mim, peca por, em algumas partes, ser um bocado frio. Também me perdi um pouco em alguns dos capítulos. Demorei um tempo a perceber qual era o envolvimento com Dong-ho, e por isso a minha leitura não foi fluída, mas antes um pouco preocupada em apanhar o fio à meada. Também achei falta de um capítulo dedicado àqueles que estavam do outro lado, mas que não tinham qualquer alternativa. São mencionados brevemente no fim do livro, mas senti a necessidade de também saber mais sobre eles - os homens obrigados a matar, a bater, os que se recusaram e sofreram das mesmas consequências.

Não deixa de ser um óptimo livro que, embora com alguma ficção à mistura, é um relato histórico fantástico e chocante.

Atos Humanos
De: Han Kang
Ano: 2014
Editora: Dom Quixote
Páginas: 232

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Lisboa respira cultura e foi poiso de alguns dos mais importantes escritores lusitanos. Em fevereiro vão existir passeios literários pela cidade que são uma celebração da herança que eles nos deixaram e uma lembrança dos seus caminhos.

Dia 9 será celebrado José Saramago com um passeio que começa no Largo São Domingos e que termina na Casa dos Bicos. Nos dias 10 e 27 a atenção vai para Fernando Pessoa num percurso que vai desde o Largo de São Carlos até ao Martinho da Arcada. A figura central do dia 23 é Camões, num passeio que vai desde o Largo de Camões ao Pátio do Tijolo.

Prometem-se muitas curiosidades e aprendizagem, nesta ideia que é uma viagem fantástica pela nossa cultura. Aproveite e inscreva-se através do email lisboa.cultural@cm-lisboa.pt.
Mais no site da Timeout.




Susan Fletcher está à frente do departamento de criptologia da NSA (National Security Agency) e num sábado recebe uma chamada devido a uma emergência no trabalho. Uma vez na NSA, o seu director, Strathmore, conta-lhe algo que sempre pensou ser impossível: o descodificador mais poderoso do mundo, que interpreta todas as comunicações digitais codificadas, mesmo as mais difíceis, em questão de segundos ou poucos minutos, encontrou um código que não consegue descodificar.

Strathmore conta-lhe ainda que sabe a origem deste código impossível: um brilhante ex-criptógrafo da NSA, que se interpôs contra a empresa defendendo o direito de todos à privacidade online, e portanto atacando aquele descodificador universal, arranjou aquela forma de se "vingar". Assim, criou aquele código impossível com o objectivo de vendê-lo à melhor oferta, ameaçando a capacidade da NSA de continuar a decifrar e a manter segredos sobre tudo e todos.

Para complicar tudo, esse ex-criptógrafo apareceu morto em Espanha nessa mesma manhã - antes de poder dar a chave para libertar o ficheiro e fazer desaparecer a ameaça. Strathmore conta com a ajuda de Susan para entrar na mente do falecido e dar a volta àquele código.

Isto é apenas o início dos inícios, e vou abster-me de contar mais desta história porque não iria conseguir parar - cada pequeno evento dá origem a centenas deles e não iria parar de enunciá-los para fazerem sentido.

Costuma dizer-se que ler Dan Brown é sempre a mesma coisa, e em nenhuma das vezes conseguimos pôr o livro de lado. Foi mais ou menos isso o que se passou comigo neste livro. Não lia Dan Brown desde a adolescência e é exactamente assim que me lembro da sua escrita - decorrendo a um ritmo vertiginoso, sem tempo para respirar, com reviravoltas atrás de cada página e com suspense até ao fim. Só que os voltefaces são tantos que uma pessoa já consegue imaginar o pior cenário possível logo à partida, e que, no meu caso, acabou por se verificar e eliminar o elemento surpresa.

A meu ver, há demasiados pormenores que tornam este livro inverosímil e outros tantos desnecessários que tornam os diálogos e as situações absurdas. A minha pontuação é positiva pelo talento do autor em manter o suspense - nisso poucos o batem. Dei por mim já desinteressada do assunto mas a querer saber na mesma o que se passa a seguir. É talvez o livro mais fraco que li do autor.

Fortaleza Digital
De: Dan Brown
Ano: 1998
Editora: 11x17
Páginas: 576

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Olhem que ténis mais lindos para os leitores. Já que ando sempre de livro na mão, era lindo andar também com eles nos pés. Não são baratos, mas fica registado que o meu número é o 36. Não se acanhem!


Se mora em Coimbra ou se vai passear por lá este sábado dia 27 de janeiro, aproveite para fazer parte da iniciativa Feira do Livro Dado, pela Casa da Esquina.

A ideia é levar os livros que já não quer e trocar por outros. Para além de proporcionar novas leituras a todos, sem custos, é uma excelente forma de aumentar o tempo de vida dos livros.

Serão livros de todos os géneros - ficção, livros técnicos, banda desenhada, livros infantis... - e para todas as idades, que poderá trocar na Casa da Esquina, no dia 27 de janeiro, entre as 10h00 e as 19h00.

Consulte o evento no Facebook.



Os movimentos #TimesUp  e #MeToo têm dado muito que falar nos últimos tempos. A defesa dos Direitos das Mulheres (palavras capitalizadas pelas vozes que se erguem ), exposta e publicitada nas redes sociais e restantes meios de comunicação, está a abalar os pilares de Hollywood. Igualdade, respeito, honra, valorização, reconhecimento... palavras que já deviam andar lado a lado com a palavra Mulher começam agora a ser bastiões da mudança em direcção a uma sociedade mais completa e equilibrada.

Por isto, não haverá melhor momento do que este para ler (ou reler) "A Letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne. Um dos maiores clássicos da literatura e que nos conta a história de Hester Prynne, uma mulher que é condenada a usar a letra "A" escarlate no peito como pena por ter cometido adultério. Hester está grávida mas recusa-se a dizer quem é o pai e por isso carrega sozinha nos seus ombros o peso da vergonha e no seu peito a marca do pecado.

Nathaniel Hawthorne leva-nos a Salem no século XVII e a uma sociedade puritana e colonial onde qualquer desvio social era um pecado merecedor da maior humilhação. Hester foi ostracizada, juntamente com a criança que nasceu do adultério, Pearl. Ao longo da narrativa assistimos à luta de Hester em defesa da réstia de honra que a humilhação social não lhe roubou, enquanto a sua filha cresce no seio do estigma social de ser o fruto do pecado. Haverá esperança de redenção? Será que algum dia vão parar de apontar dedos cheios de ódio alimentado pelo extremismo religioso? Já alguém sábio contava que "o inferno são os outros"...

Pode dizer-se que Hester nasceu na pior das épocas no que diz respeito à desigualdade de género e preconceitos sociais, mas a verdade é que, apesar das conquistas feitas ao longo da história, ainda  e tristemente conseguimos ver tanto de actual na sua vida que parece que o tanto que mudou ainda está longe de ser o bastante. 

As mulheres continuam a temer represálias sociais se disserem que foram assediadas por homens poderosos e eloquentes, tal como Hester temeu acrescidas represálias quando lhe foi pedido para confessar quem era o pai da criança. No entanto, tal como Hester, chegou o momento das mulheres recusarem as imposições sociais e os julgamentos. Chegou o momento de fincar o pé e subir o tom de voz para que se saiba que acabou o tempo das humilhações e do medo.

Juntem-se as vozes, o silêncio acabou.

Letra Escarlate (eBook The Scarlet Letter)
De: Nathaniel Hawthorne
Ano: 1850 (edição 2015)
Editora: Wisehouse Classics
Páginas: 161
A nossa pontuação: ★★★★★

Disponível em eBook gratuito no site da Amazon




Eu. Praia. Sol. Areia... E vento... Uma pessoa já tem os bracinhos dormentes de segurar o livro, pouso-o e eis que uma rabanada de vento vem e lá avançam as páginas sem pedir licença.

Mas agora que vi esta coisa portátil que mantém o livro aberto, a minha vida mudou! Que jeitaço! Uma coisa tão simples! Porque é que só o descobri agora?



É imensamente difícil escrever sobre viagens, tornar a nossa experiência uma experiência para os outros, muitos que nunca lá estiveram. Que só conhecem aquilo de que estamos a falar das fotografias das revistas ou de reportagens esporádicas. Ou nem isso. É difícil interessar o leitor por ruas e por cheiros que ele nunca viu ou sentiu, mesmo que a curiosidade seja aguçada, e prendê-lo num livro inteiro.

Mas estamos a falar do José Luis Peixoto. Se há alguém que consegue, é ele. E conseguiu. Comecei a medo. Temia que a narrativa que aborda as suas viagens à Tailândia me deixasse distante, mais distante do que os quilómetros que nos separam daquele país. Foi devagarinho, mas fui mergulhando mais e mais, até não restar nada de mim à tona. Nunca pensei.

Não é uma viagem com princípio, meio e fim. Não é uma mera descrição das pessoas e das coisas. É a maneira como ele tudo vê, o modo como partilha - como se fosse nosso amigo íntimo - é um diário de pormenores impensáveis. E não é só Tailândia, absolutamente. É encontrar a cada esquina um laço que abre uma porta para algo que se passou na infância, no Alentejo, ou na adolescência, nas primeiras cervejas no Bairro Alto. É uma passagem por Las Vegas; ou algo que o faz lembrar os filhos, ou a mulher, ou a mãe, ou o pai.

Não esperava gostar tanto deste livro. Não esperava aprender tanto, emocionar-me tanto. Sim, é uma viagem, mas é uma vida inteira. E um caminho, que tal como nos é dito no início, que também faz parte da viagem. Que ainda não acabou.

O Caminho Imperfeito
De: José Luís Peixoto
Ano: 2017
Editora: Quetzal
Páginas: 192

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível no site Wook.