Estou constantemente a ouvir isto... "mas tu só pedes livros? não te fartas?" Claro que não! Encham-me de livros! É a prenda útil que nunca desilude! (a não ser quando me deram um da Margarida Rebelo Pinto :/ )

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Antes de mais, este é um trabalho jornalístico formidável, realizado ao longo de bastante tempo e ouvindo o relato de muitas, muitas pessoas, todas elas ligadas de uma forma ou de outra ao desastre de Chernobyl.

Estes discursos foram colocados no livro tal como foram ditos, portanto estamos a "ouvir" as vozes puras, carregadas da tristeza, do medo, da estranheza que os protagonistas sentiram. Conhecemos todo o tipo de intervenientes no desastre, desde as mulheres que viram os seus maridos - bombeiros, polícias, militares... - serem chamados imediatamente para o centro da acção sem saberem onde e por quanto tempo iriam; passando pelos mais velhos que se recusaram a abandonar as casas e os bens e que acabaram por ver tudo à volta morrer; até às futuras mães que esperavam no ventre as consequências negras de Chernobyl.

É claro que é impressionante e que muitas palavras nos moem por dentro. A mim, dois aspectos em especial me fizeram impressão. Primeiro, ter percebido, só agora, do escrutínio que estas pessoas sofreram. Ninguém os queria por perto. A população tornou-se refugiada sem ter para onde ir. Chamavam-lhe "os radioactivos" e outras coisas muito piores, e toda a gente - toda - desde crianças na escola aos mais velhos, foram segregados, postos de parte, olhados de esguelha, numa situação que dura mesmo nos dias de hoje.

Em segundo, os animais. Com a fuga da população, estes ficaram para trás. Gatos, cães, tartarugas, porcos, vacas, cavalos. Todos. Ficaram sem comida, sem água, em solo radioactivo aguardando a morte. Até que foi decretado que deveriam ser mortos (a tiro, para manter a distância) e as terras tornaram-se um palco de morte, com animais mortos por todo o lado, que não podiam ser queimados (por causa da radioactividade espalhada através do fumo) e não houve outro remédio senão enterrá-los em valas (alguns deles ainda vivos, por já não existirem balas suficientes).

Um momento da nossa história que nunca devia ter acontecido. Uma leitura aconselhável aos que querem conhecer melhor os intervenientes directos.
A autora foi distinguida com o Prémio Nobel em 2015.

Vozes de Chernobyl
De: Svetlana Aleksievitch
Ano: 1997
Editora: Elsinore
Páginas: 336

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
É ou não é? 😊



Foi numa feira de antiguidades que comprei esta edição bem antiga do livro "Nascido a 4 de Julho". Neste, o autor conta a sua própria história, desde o tempo em que era um jovem cheio de força e energia que sonhava lutar pelo seu país, até se ter tornado num retornado da guerra do Vietname, paralisado do peito para baixo.

A acção vai saltando entre o passado e o presente, dando ênfase à impressionante vontade de viver do jovem Kovic, a quem não faltavam prémios por excelência no desporto. É-nos contada a sua infância e adolescência, e conhecemos as suas amizades, brincadeiras, namoros e interesses. Tudo para nos dar uma base da personalidade activa deste homem. Assim que teve idade para se alistar, quis representar a América ao mais alto nível, assim ele pensava, e lutar de arma na mão no Vietname.

Quis o destino que este homem sobrevivesse, mas completamente paralisado do peito para baixo. Reduzido a uma cadeira de rodas, percebemos como a sua masculinidade é afectada, como não se sente um ser humano inteiro e como lamenta a decisão que tomou, ainda para mais depois de verificar como é tratado. Testemunha que não há condições para os lesados da guerra, que acabaram por viver em hospitais degradantes e sem ajuda digna, vistos mais como os coitadinhos que se querem escondidos e calados do que como heróis.

Antes orgulhoso por ter defendido o seu país, Kovic torna-se num homem que vai lutar pelo fim de uma guerra sem sentido, não hesitando em dar a cara, e o seu pouco corpo, aos media, em todo o lado que tivesse oportunidade.

É uma história impressionante que, centrada num indivíduo, nos faz ver muito para além dele, que nos mostra outros verdadeiros destroços humanos da guerra, que são aqueles que viram coisas abomináveis e que sobreviveram para relembrá-lo, ainda por cima sofrendo no corpo as horríveis consequências de uma guerra muito questionada.

É uma edição antiga com letras pequenas e com algumas gralhas, o que dificulta um pouco a leitura, e existem alguns devaneios incompreensíveis de Kovic pelo meio do livro, mas tirando isso aconselha-se a leitura.

E que se complete com a visualização do filme, com Tom Cruise no principal papel. Um filme de 1990 que já é um clássico.

Nascido a 4 de Julho
De: Ron Kovic
Ano: 1976
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 140

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
É um quiz da Wook que pode encontrar aqui e que lhe vai dizer que tipo de leitor é... Não se esqueça de apontar as respostas! Eis o que me calhou:

MAIORIA E 
Tem a certeza que não é da famíia do Sherlock Holmes? E do Poirot? É um desvendador nato de mistérios e dilemas e não tem medo de livros assustadores! Não suporta finais sem sentido e leu de uma rajada só toda a coleção da Agatha Christie. Lembra-se quando se deliciou com O Cão de Baskervilles ou com A Rapariga no Comboio?

Bem, ainda não li as últimas duas referências, mas sim, adoro mistério e dilemas!! :)

Eu seria apanhada imediatamente!😄


E boa segunda-feira para todos os leitores :)



A história começa numa Feira de Emprego. Centenas de desempregados madrugaram e estão na fila do evento para serem os primeiros a entrar e a agarrar as oportunidades. Enquanto esperam, algumas pessoas socializam e conhecem-se, incluindo uma mulher que teve de levar o filho bebé e o homem que está atrás dela e a ajuda com a criança.

Nisto, um carro aproxima-se a alta velocidade. É um Mercedes, mas ainda na escuridão poucos dão por isso. Só ouvem e acabam por sentir o carro que não pára, que lhes passa por cima. Que mata algumas pessoas e deixa mazelas para sempre noutras. É um verdadeiro massacre, que muito faz lembrar alguns recentes ataques terroristas. Os desempregados, que ali estavam numa réstia de esperança, foram desprovidos de toda, alguns até de vida, numa cena icónicamente sádica e macabra mesmo ao estilo do meu querido Stephen King.

O carro foi encontrado vazio e sem pistas não muito longe dali. O autor não foi apanhado, nem havia a menor desconfiança. Agora, algum tempo depois, o detective encarregue da investigação está reformado e começa a receber mensagens de alguém que se identifica como o autor e que no fundo quer brincar com ele num jogo do gato e do rato que pode levar a sérias consequências.

Um livro que não desaponta, cheio de mistério e naquele estilo que nos leva a querer ler mais e mais. Stephen King é especialista nisso... Destaca-se ainda o perfil psicológico do assassino. O homem tem tantos pormenores de destaque naquela mente perturbada que vale a pena a leitura só por isso. Uma história de investigação policial com algo de doentio e de demente.

Sr. Mercedes
De: Stephen King
Ano: 2014
Editora: Bertrand
Páginas: 472

Disponível no site Wook.
A nossa pontuação: ★★★★☆
Recordando o jornalista e autor que nos deixou recentemente, deixamos uma citação de Baptista-Bastos presente no Jornal de Negócios em 2009, que muito diz sobre os nossos dias, as relações de hoje e os tempos frenéticos que vivemos em busca de não sei o quê, esquecendo-nos do que é importante.

Que descanse em paz e que as suas palavras inspirem os que por cá vão ficando.

"A nossa sociedade está a desmoronar-se e ninguém lhe acode. Os laços sociais estão a desaparecer, substituídos por um sistema de valores em que impera a vacuidade, o poder da «competitividade» como força motriz - e não é. Há tempo para tudo, diz o Eclesiastes. Mas a verdade é que os «tempos» foram pulverizados pela urgência de não se sabe bem o quê. A frase mais comum que ouvimos é: «Não tenho tempo para»; para quê? A correria mina as relações de civismo e de civilidade; está a roer os alicerces da família; a família deixou de ser o núcleo das nossas próprias defesas; e vamos perdendo o rasto dos nossos filhos, dos nossos amigos, dos nossos camaradas, dos nossos companheiros. A azáfama nos locais de trabalho é o sinal das nossas fragilidades e dos nossos medos. Estamos com medo de tudo, inclusive de confiar em quem, ainda não há muito, seríamos capazes de confidenciar o impensável."


Uma belíssima homenagem ao amor pelos livros! Uma tatuagem bem original, com uma composição excelente e imenso significado.