Adolf Hitler acorda em 2011, nas ruas de Berlim. Não sabe o que se passa - não está no seu bunker, não reconhece ninguém. Vê pessoas vestidas de modo estranho nas ruas com um aparelho encostado ao ouvido. Vê carros, mas mais pequenos e feios do que aquilo que está habituado. Os céus estão livres, não há ruínas, as ruas estão limpas. E, pior do que tudo, os turcos em todo o lado.

O que é feito dos soldados? Dos seus companheiros? Das trincheiras? De Eva Braun? Adolf sente-se completamente perdido, mas acaba por conhecer pessoas que o vão ajudar... Não é todos os dias que um homem igualzinho ao Hitler deambula pelas ruas no uniforme oficial do seu tempo. Tomam-no por um actor, e aí começa uma nova etapa da sua vida.

Com um discurso assertivo, com conhecimentos históricos inigualáveis, com um modo de ser autoritário e com os seus extremos ideais que todos conhecemos, o Sr. Hitler surpreendeu todos por ser igual... ao Hitler. E por mais que ele insistisse que era o próprio, só fez com que o levassem mais a sério como actor.

Este é um livro que gerou muita polémica, porque já se sabe que "há coisas com que não se brinca". Mas a sátira existe há demasiado tempo para estarmos agora com mariquices. E esta é uma sátira excelente, com um humor negro fantástico, extremamente divertida. Da minha parte só peca por algumas descrições políticas mais longas do que o desejado - de resto, é uma história fabulosa que me arrancou algumas gargalhadas.

É ao mesmo tempo uma forte crítica - ao jornalismo, aos alemães que permitiram que o nazismo proliferasse, à sociedade de consumo, à vida moderna - é uma ode ao entretenimento para ler com a mente aberta. Ah, e faz parte do Plano Nacional de Leitura (muito bem!).

Ele Está de Volta
De: Timur Vermes
Ano: 2012
Editora: Lua de Papel
Páginas: 304

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


Há muito, muito tempo atrás, no Japão, por altura da guerra, um grupo de crianças que apanhava cogumelos na montanha perdeu os sentidos. Todas as crianças caíram prostradas perante o pânico da professora. Todas acabaram por vir a si passado algum tempo, menos um rapaz, Tanaka. Depois de um grande período em coma, Tanaka acabou por acordar do transe sem qualquer memória. Tinha desaprendido até de ler. Não sabia quem era. E nunca mais foi o mesmo, ficando com dificuldades de aprendizagem para o resto da vida, mas passou a conseguir falar com gatos...

Nos dias de hoje, um jovem de 15 anos foge de casa e de uma vida familiar confusa e exasperante. Sem rumo definido, quis o destino que Kafka encontrasse um local mágico que teve o condão de conseguir fazer com que se sentisse em casa. No entanto, não foi uma jornada curta nem pacífica, mas permitiu dar-lhe um rumo e conhecer as pessoas mais importantes da sua vida.

Estas histórias são-nos contadas em paralelo com muitas mais, todas confluindo para vários pontos em comum que formam uma história principal de uma beleza extraordinária, repleta de significados em todo o lado. Com uma espiritualidade palpável tornada completamente credível pela mão de Murakami, este livro desperta um outro lado de nós com as profundas ligações à alma, à natureza, aos animais e à musica que caracterizam o autor.

É um livro cheio de coincidências que nos fazem pensar, metáforas que nos fazem questionar, factos que aprendemos, diálogos fantásticos, situações surreais, num grande e viciante volume que acaba por parecer curto. Murakami está na linha da frente dos meus autores favoritos.

"Que viva como se estivesse já morto: não terá mais nada a temer"

Kafka à Beira-Mar
De: Haruki Murakami
Ano: 2002
Editora: BIS
Páginas: 592

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Li pela primeira vez este livro há cerca de 7 anos. Na altura revolucionou a minha maneira de pensar e compreender as escolhas que fazemos enquanto consumidores e como essas escolhas afetam a nossa qualidade de vida e o meio ambiente.

Duane Elgin é um autor e orador americano conhecido pelos seus estudos e intervenções ativistas onde aborda o tema da simplicidade como modelo para um estilo de vida mais equilibrado, sustentável e consciente. Em "Voluntary Simplicity", cujo titulo acrescenta "Toward a Way of Life That Is Outwardly Simple, Inwardly Rich",  Elgin clarifica e desmistifica o conceito de vida simples, comprovando através de estudos e uma vasta lista de referências que escolher uma vida menos complexa não é sinónimo de pobreza ou restrição, mas sim de conexão com o que é realmente importante : as relações humanas e a natureza.

Através da exposição dos mais vários testemunhos de pessoas das mais diversas profissões, graus académicos e motivações, Elgin fala de simplicidade com a simplicidade que ela exige, optando por educar por exemplo os leitores que pretendem mudar de vida e escapar às teias do consumismo, optando por uma alimentação e um comportamento mais adaptado às reais necessidades do Ser Humano. Precisaremos de tanta coisa para ser felizes ou estaremos apenas a tentar preencher as nossas vidas de barulho e coisas para esconder os buracos que uma sociedade fragmentada causa?

Numa altura em que as notícias parecem atoladas de desastres ambientais e em que o Irma está a devastar cidades, já para não falar de todos os incêndios, vagas de calor mortíferas e secas históricas, este livro não poderia ser uma leitura mais obrigatória.

Há que ter em conta que esta obra foi escrita em 1981, altura em que a incredulidade em relação às consequências ambientais das nossas escolhas era mais forte do que a previsão fatalista de um mundo onde o clima passaria a ser o nosso maior inimigo. Li em 2010 a edição que fora revista em 1993, ainda longe deste mega boom da internet que faz com que estejamos em Portugal a ler sobre um tsunami a milhares de quilómetros de distância. É, por isso, impressionante (e triste) perceber que ignorámos alertas durante mais de 30 anos...

Nunca é tarde demais para mudar. Ler este livro pode ser o primeiro passo.

Voluntary Simplicity
De: Duane Elgin
Ano: 1981 ( revisto em 1993)
Editora: Harper ( edição 2010)
Páginas: 380

A nossa pontuação: ★★★★☆

Disponível no site Wook na versão portuguesa e na Amazon na versão original .








Aquela sensação que nos preenche quando começamos a ler o livro do vizinho no comboio, no metro, no autocarro... O pior é quando estamos a ler a contracapa do livro da pessoa sentada à nossa frente e não conseguimos acabar a leitura porque a pessoa, entretanto... pronto...sai.*









*e não vale a pena dizer que "parece mal" ler o livro alheio, ás vezes é algo inconsciente. Afinal de contas, o meu nome é Naturalmente Cusca, certo? Está bem, já sei que pior mesmo é sentir a respiração de alguém que está a ler o nosso livro, como que um suspiro constante no nosso pescoço nu e num qualquer meio de transporte de Lisboa, mas fica a dica: se não gostam arranjem um carro que assim já não vos ando a ler os livros no Metro. Tenho dito. Pimbas!

Coleman Silk é um homem inteligente, reitor da universidade e respeitado no seu meio, até que um mal entendido faz com que seja acusado de racismo. Aí, todo o respeito e admiração que tinha construído desvaneceram-se num ápice. Amargurado, Coleman fala com um escritor para que a sua história possa ser contada, e é através da voz deste que nos chega o relato da sua vida.

Saltamos entre vários tempos, conhecendo Coleman desde que era um adolescente que gostava de praticar boxe, a sua família, os seus gostos, mas mais importante do que tudo, aprendemos que este homem, que viveu como branco a maior parte da sua vida, é negro. Saiu-lhe na lotaria que tivesse a pele clara e declarou-se como branco para poder fazer tudo o que os negros não podiam - por exemplo, alistar-se na Marinha ou escolher a sua própria universidade. Foi um logro que o fez afastar-se da família, renegando as suas origens e escondeu-o de toda a gente, passando a vida com este segredo às costas.

Agora que é um ex-reitor na casa dos 70 e que conheceu uma mulher muito mais nova que carrega uma bagagem ainda maior do que a dele e que o fez renascer, sentimos a empatia por este homem que se escolheu a si próprio, sempre, em qualquer circunstância, num acto egoísta mas que, quando nos é apresentado ao longo do livro, nos comove.

Philip Roth tem um tipo de escrita único, que não é fácil, mas que se tivermos atenção tem algo de belo e mágico. É uma linguagem erudita mas com uma simplicidade surpreendente, características raras e que me fazem questionar como é que este homem ainda não foi agraciado com o Nobel (entre muitos outros prémios, tem um Pulitzer).

Este livro deu origem a um filme em 2003, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman nos principais papéis. Vi há muito tempo, lembro-me de gostar, mas tenho de o rever agora à luz do livro.

A Mancha Humana
De: Philip Roth
Ano: 2000
Editora: Dom Quixote
Páginas: 380

Disponível no site Wook.
A nossa pontuação: ★★★★☆

Já diz o ditado que de santo e louco todos temos um pouco e neste pequeno conto novelesco (chamemos assim na dificuldade de melhor definir) esse ditado ganha uma nova tonalidade e uma reforçada confirmação.

"O Alienista" tem como principal protagonista o Dr. Simão Bacamarte, psiquiatra para quem a ciência é uma religião. O Dr. Simão é um homem de honra e valores morais irrefutáveis que decide criar um asilo em Itaguaí para abrigar todos quantos revelassem sinais de loucura podendo assim estudar cada caso profundamente e procurar a cura adequada para cada insanidade. Pelo bem da sociedade e da pesquisa cientifica, claro!

Surge no entanto uma questão: se todos temos um tanto de loucura, seremos todos loucos ou fará esse pedaço de loucura parte da nossa sanidade mental? E é neste limiar que se desenvolve este livro. Machado de Assis faz uma análise com iguais doses de sátira, ironia e seriedade à sociedade da sua época e é impressionante como se pode transportar um texto do século XIX e o mesmo ser tão adequado aos dias de hoje tanto para os cidadãos como para as organizações politicas.

Representará o Dr. Simão Bacamarte o modelo perfeito de sanidade mental, com o seu olho clínico, como que um anjo da guarda da razão e da ciência? Ou será ele mais louco que todos no extremismo da sua ciência empírica? É isso que vamos descobrir neste livro "O Alienista" ao mesmo tempo que revemos nas suas personagens tantos dos nossos comportamentos e julgamentos.

Leitura recomendada pelo plano Ler+ e um clássico imperdível que faz parte da coleção Ler Faz Bem da revista Visão da qual já falámos aqui.


O Alienista
De: Machado de Assis
Ano: 1882
Edição: Visão Ler Faz Bem

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível também no site Wook.




Destas festas, claro ;)


Este livro junta algumas crónicas curtas de Miguel Esteves Cardoso, ao jeito de outras que já aqui falámos anteriormente. Estão "arrumadas" de acordo com temáticas muito claras e, para mim, mais humanas do que nunca.

Vê-se que foram escritas numa fase muito emocional, onde o ponto alto é a relação com a mulher, sobrevivente de um cancro. Este homem tem a capacidade de pôr em palavras as coisas simples que normalmente se complicam na nossa cabeça. São como sentimentos descodificados e dá gosto "ler a vida" assim.

Não é um livro aconselhado a quem procura um fio condutor - não é uma história com princípio, meio e fim - há que estar preparado para histórias muito curtas, que às vezes não passam de um relato de um episódio fugidio da vida do autor, ou da explicação pormenorizada de algo concreto que o incomoda. O que é comum a todas, é que parece que as conseguimos "vestir" que nem uma luva. Todos já demos aqueles passeios que sabem por uma vida, ou ficámos presos num momento em que embasbacamos a olhar para a pessoa amada, ou que ficamos pasmados com a inteligência de um gato, ou simplesmente temos uma refeição que vai ficar para a história. E tudo isto mora no livro.

São como fotografias fogazes e poéticas de uma vida como a nossa, escritas por um dos autores que mais conhecimento tem da nossa língua e que melhor uso lhe dá.

Amores e Saudades de Um Português Arreliado
De: Miguel Esteves Cardoso
Ano: 2014
Editora: Porto Editora
Páginas: 328

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Porque os livros expandem o melhor de nós, dão-nos ferramentas para crescer, abrem-nos as portas de novos mundos e conhecimento sem fim, que não ocupa (mesmo) lugar.

Ilustração de Medi Belortaja.

Chama-se "Back to Hogwarts" e não é por acaso, já que no mês que vem é o "Back to School" e os alunos precisam de roupa nova...

É uma linha de roupa e acessórios inspirada na saga do Harry Potter e tem tshirts, casacos, camisas, e acessórios como malas e carteiras. E, não sendo fã do feiticeiro, até acho piada a algumas destas peças.

Por casa 10 dólares em compras é oferecida uma refeição à Feeding America, por isso há ainda mais razões para se encher de estilo.

Via Hypeness