A iniciativa chama-se Flybraries e chegou aos voos nacionais. A companhia aérea Easyjet "equipou" os seus aviões com 17.500 cópias de livros infantis, traduzidos para 7 idiomas, incluindo português. Uma verdadeira biblioteca voadora que tanto os miúdos como os pais vão decerto gostar.

Entre os livros disponíveis podemos encontrar Alice no País das Maravilhas, O Livro da Selva, Peter Pan, entre outros. Portanto, coisas que muitos adultos, como eu, não se importariam de ler ou reler também...

Uma iniciativa de louvar, visto todos sabermos a importância da leitura. Para além disso, sendo um espaço fechado e tendo as crianças de ocupar o tempo, pegarem num livro para se entreterem poderá fazer toda a diferença, e poderá nascer um novo hábito naquelas que são mais resistentes à leitura. De acordo com os mais recentes resultados do PIRLS, os alunos portugueses do 4º ano pioraram o seu rendimento na leitura desde 2011 e estão abaixo da média europeia.

Muitos parabéns à Easyjet! Podem conhecer mais dados e a iniciativa aqui.


Linnet Ridgeway é uma jovem que aparentemente tem tudo: é bonita, sofisticada, elegante, inteligente, tem olho para o negócio, é pretendida por inúmeros homens, e as mulheres normalmente rendem-se à sua simpatia, aura genuína e charme. Para além disso, é herdeira de uma das maiores fortunas do país e, prestes a atingir a maioridade, pensa em casar.

Quis o destino que se apaixonasse justamente pelo namorado da melhor amiga, e é assim que faz uma inimiga. Linnet e Simon acabam por casar, para desgosto da sua amiga, Jacqueline, que passa a persegui-los para todo o lado, de forma a conseguir estragar o tempo de qualidade do jovem casal.

A situação vai tomando proporções perigosas e, sem medo de cair no ridículo, Jacqueline consegue saber onde o casal vai passar a lua-de-mel e, sem vergonha, segue-os para o Egipto. Acontece que Hercule Poirot está de férias e segue nesse mesmo barco, tornando-se um pouco o confidente da perturbada jovem, que tenta acalmar o melhor que pode, mas a sua mágoa é enorme e o desejo de vingança maior ainda.

Numa noite em que os humores se exaltaram e em que Jacqueline tinha bebido demais, Linnet aparece morta. É o choque para os passageiros daquele cruzeiro. A resposta para o crime parece óbvia para alguns, mas é claro que nada é fácil nem o que parece à primeira vista.

Agatha Christie tem aqui uma das suas mais célebres histórias, que nos agarram não só pelo fabuloso mistério desenvolvido e pelas voltas e reviravoltas na narrativa, mas também pelas fantásticas personagens a que dá corpo. Todos os que se encontram naquele barco são suspeitos, e todas as personagens são peculiares, particulares, com características únicas tão bem delineadas que conseguimos imaginá-las perfeitamente.

O leitor é sabiamente levado a desconfiar das várias versões contadas, desenvolvendo o espírito crítico, integrando também um pouco o papel de investigador, tão bem endereçado ao nosso bem conhecido Poirot.

O livro foi adaptado ao cinema em 1978, num muito conhecido clássico que conta com os talentos de Bette Davis, Mia Farrow ou Maggie Smith, apenas nomeando alguns; e está a ser desenvolvida nova versão que estreará nos cinemas em 2019, continuando o trabalho de Um Crime no Expresso Oriente, saído o ano passado, pelo mesmo realizador, Kenneth Branagh.

Morte no Nilo
De: Agatha Christie
Ano: 1937
Editora: Edições Asa
Páginas: 270

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


É preciso ser-se um ser humano do mais humano que há para escrever um livro assim. A redundância é propositada para enfatizar a pessoa que o Rodrigo Guedes de Carvalho é - ele consegue engrandecer o quotidiano, a crueza das palavras, o negro e o vazio que habitam cá dentro, recorrendo a uma linguagem visceral, sem filtro, que obedece ao ritmo certo, a uma cadência natural, que transporta uma angústia adormecida.

As histórias das várias personagens alternam-se entre capítulos. Elas têm algo em comum mas não sabem. Acompanhamos de perto especialmente duas personagens: Maria Luísa, uma rapariga que é demasiado bonita para o mundo em que vive, que desperta olhares que não deseja onde quer que vá. Já teve tantos problemas por ser assim e não consegue esconder, mesmo com as piores e mais largas roupas, o seu corpo voluptuoso. É recatada, tem poucos amigos (só um, na verdade), o paradeiro do pai é desconhecido e a mãe morreu há muitos anos. Um dia, acorda para ver a falecida mãe na sua sala.

Luís Gustavo é um enfermeiro, também ele recatado e de poucas conversas. É observador, atento e facilmente cria laços com os pacientes do hospital. A namorada deixou-o, a mãe abandonou-o à nascença, o pai era alcoólico e acabou por falecer, e a pessoa mais importante para si, e que o criou, foi o seu avô, falecido há uns anos. Um dia, Luís Gustavo vê o falecido avô na rua.

Estas e as outras personagens, maravilhosamente construídas, vão vivendo as suas vidas paralelamente enquanto nós vamos torcendo para que esbarrem uns nos outros, para que partilhem a sua solidão. Apetece gritar-lhes que não estão sozinhas, que há outros a passar pelo mesmo, para virarem naquela esquina, subirem as escadas à direita, que está ali uma pessoa que o vai compreender e que nunca o vai desiludir...

Mas este desejo de leitor pode não corresponder àquilo que realmente acontece. Têm de ler. Têm de ler porque é um dos livros mais belos que já li, porque é corajoso e explora temas complicados como a violação, a depressão, a violência ou a homosexualidade. Ou como nos vendemos por tão pouco, ou como a inveja surge de maneiras que nem se podem dizer em voz alta, ou como nos chegamos a desprezar antes de todos os outros o fazerem. E no entanto, apesar disto tudo, a aura do livro é positiva e mágica. Uma aptidão rara por parte do autor. Uma leitura não só recomendada, mas que se impõe.

O Pianista de Hotel
De: Rodrigo Guedes de Carvalho
Ano: 2017
Editora: Dom Quixote
Páginas: 480

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível no site Wook.

A ação do livro decorre toda no espaço de um dia. Assistimos a vários eventos que se vão passando ao longo desse dia, aparentemente sem relação alguma entre si.

Num quarto de hotel, um homem de família trai a esposa com uma mulher mais jovem, sem saber como é que aquela rapariga encantadora se interessou tanto pela sua vida e se sentiu tentada com o seu físico que já não é o de outrora. Ao mesmo tempo, vemos que um criminoso anda a preparar alguma, com esquemas para desviar a atenção da polícia, que o tem debaixo de olho, e realizando contactos com os membros da sua equipa. Um bem sucedido homem de negócios anda pelo beicinho por uma mulher casada e tem uma reunião misteriosa.

Cada capítulo vai saltando entre estas e outras histórias, que se vão desenvolvendo e aprofundando, suscitando a nossa curiosidade. Como é de imaginar, o ritmo é elevado, já que o livro é curto e o leitor vê-se deserto para saber o que é que uma coisa tem a ver com a outra. Na minha opinião, as ligações surgem tarde demais. Anda-se um pouco perdido, e com tanta coisa a acontecer, vemo-nos obrigados a ler o mais possível de seguida ou somos obrigados a passar os olhos na diagonal para relembrar o que ficou para trás, não vá algum pormenor destas ligações ter sido esquecido.

Ken Follett é mestre nisto de nos manter atentos até ao fim e as suas narrativas têm sido sempre interessantes para mim, mas temo que este seja o livro do autor de que menos gostei. Tantos saltos na narrativa fizeram com que as personagens, que são imensas, não fossem exploradas por aí além, e pelo menos eu não consegui criar conexão com elas, que normalmente é condição essencial para criar uma ligação emocional.

Não deixa de ser um bom livro, com muito mistério, e que nos expõe o mundo financeiro, a corrupção, os esquemas que se realizam por trás do pano, a importância dos contactos certos nos negócios; mas também que mesmo quando pensamos que um plano pode ser perfeito, e que vai tudo correr bem, tudo pode dar para o torto...

O Preço do Dinheiro
De: Ken Follett
Ano: 1977
Editora: 11 x 17
Páginas: 320

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.

No séc. XVI, o rei D. João III presenteou o seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, com nada mais nada menos do que um elefante. O pobre coitado vivia acomodado em Belém há dois anos e o rei achou que seria uma oferta de casamento singular. Ora isto aconteceu mesmo, e embora não existam muitos relatos devido à época distante, há alguns, e o resto aprimorou José Saramago com a sua imaginação.

Ora, o elefante Salomão, o seu conarca (tratador) Subhro, vários elementos da segurança do reino, ajudantes e carros de bois que transportavam água e alimento para o elefante compunham a comitiva. Está visto que naquela altura os meios de transportes eram parcos e não houve outro remédio senão irem a pé, de Lisboa a Viena, com paragem em Espanha onde se encontrava de momento o arquiduque, que se apoderou das operações a partir daí.

O livro trata disto mesmo - da viagem do elefante do ponto A, o nosso país, ao ponto B, Viena, mas é claro que nada é linear em Saramago. Deparamo-nos a todo o momento com as mais deliciosas e cómicas situações, vivemos momentos de camaradagem, aprendizagem, comovemo-nos, ao mesmo tempo em que são realizadas enormes críticas, como à religião ou às diferenças entre estratos sociais.

Salomão e Subhro são daquelas personagens inesquecíveis, que ficam guardadas cá dentro, para sempre. Um, porque é um paquiderme que veio da Índia para percorrer as estradas da Europa, enfrentando as intempéries e a estupidez dos humanos; o outro porque é a pessoa que mais compreende o primeiro, e que vai também compreendendo cada vez mais o modo de vida ocidental e como dar a volta aos elementos da comitiva real, gerando também situações muito engraçadas.

É um livro que até tem uma aura mais light que a maioria dos romances de Saramago, mas nem por isso deixa de ter uma moral bem triste, que, tal como assumiu o autor em entrevista, é uma metáfora da vida humana.

Foi a primeira vez que um livro de Saramago foi adaptado para Banda Desenhada em Portugal, por João Amaral, de onde faz parte a imagem em cima.

A Viagem do Elefante
De: José Saramago
Ano: 2008
Editora: Porto Editora
Páginas: 216

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.

Roubaud e Séverine são um casal normal, apesar da diferença de idades - ele é mais velho, e não sabe como é que a jovem de 25 anos que, apesar de não ser uma beldade, tem algo de magnético nos seus olhos azuis, se enamorou por ele. Até ao dia em que Roubaud descobre algo perverso sobre o passado da mulher e é tomado por um ciúme doentio. Sem se conseguir controlar, Roubaud mata um homem do passado de Séverine e obriga-a a participar.

O crime, perpetuado num comboio, foi testemunhado pelo jovem Jacques, por acaso colega de Roubaud na companhia dos caminhos de ferro. Com a velocidade a que seguia a locomotiva, Jacques não foi capaz de descortinar caras mas viu pormenores capazes de enterrar o colega. Roubaud quase que mete o jovem debaixo da sua asa e faz com que a simpatia de Jacques pela sua "inocente" e "terna" mulher cresça para que este se cale.

Jacques tem não só de se preocupar com uma investigação que o tem como principal testemunha, como também por um sentimento crescente por Séverine, que é mútuo e que os vai levar numa outra novela; e ainda com algo que cresce dentro dele há muito tempo e que nunca se atreveu a contar a ninguém - uma vontade incontrolável de matar mulheres, de lhes enfiar a lâmica nos seus pescoços macios e ver a vida escorrer-lhes devagar.

Muitas mais personagens entram em cena nesta trama complexa, cheia de pormenores, descrições exaustivas e que, como ainda por cima é um clássico com uma linguagem coloquial própria da época, torna a leitura num processo nada fácil.

Não deixa de ser uma leitura recomendada que, tal como o título indica, nos apresenta a besta humana, não uma só, mas um conjunto delas, uma vez que ela habita em cada um de nós. Pode estar escondida, mas ela vive, esperando a sua oportunidade. Pode nunca chegar, mas mais dia menos dia manifesta-se em alguém. E é bonito ver uma quantidade de bestas a acordar ao mesmo tempo.

O livro foi adaptado para o cinema algumas vezes, sendo a mais célebre das adaptações a realizada por Jean Renoir em 1938. Resta-me fazer um reparo às edições portuguesas, que traduziram o nome do autor de Émile para Emílio... A sério?

A Besta Humana
De: Émile Zola
Ano: 1890
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 328

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Estamos com a Manta de Histórias. Isto não há coisa de ter demasiados livros. Isso não existe. O problema é que não há estantes suficientes. Ou salas, ou casas...



A acção tem lugar no Cairo. A trama gira em volta de um assassínino de uma bonita e jovem prostituta numa casa de passe. O chefe da polícia, Nour El Dine, tem três suspeitos em mente, frequentadores assíduos da casa.

São eles Gohar, um ex-professor que agora é mendigo por opção. Respeitado por todos devido aos seus sábios conselhos,e inteligência e sagacidade, é basicamente um filósofo de rua que apenas sofre quando não tem haxixe. Ieguene é quem lhe arranja a droga, e é tão feio que quase todos lhe têm medo. Gohar é a sua pessoa preferida à face da Terra, tem-lhe uma admiração que só vista. Vive numa pobreza extrema, não tendo onde cair morto. El Kordi é um funcionário baixo do Estado, constantemente atacado pela preguiça e que vive cortejando bonitas mulheres, prometendo-lhes mundos e fundos que não pode oferecer.

A narrativa gira em volta destes três homens, apresentando-nos muitas mais personagens bastante interessantes, como o mendigo homem-tronco, que é só um tronco com braços mas que, pelos vistos, atrai mulheres como um íman. Que mulher não ficaria encantada por ter o melhor dos mendigos ao lado, com trocos diários garantidos? Para além disso a sua performance sexual parece acima da média...

O autor, Albert Cossery, viveu ele próprio como um "mendigo altivo" e decerto muito se inspirou na sua realidade. Apesar de ter nascido no Egipto, viveu mais de 60 anos num quarto de hotel em Paris praticamente sem objectos, onde morreu. Publicou os livros suficientes apenas para sobreviver - um livro de 8 em 8 anos, uma linha por semana, como reza a história da sua biografia.

É de facto uma forma curiosa de se viver, dedicada à indolência e ao prazer da preguiça, que apregoava. E vemos muito disto em "Mendigos e Altivos". Gostei bastante da obra, talvez a linguagem culturalmente muito própria não permitiu que me embrenhasse totalmente mas é um livro cheio de humor negro e situações incrivelmente cómicas que vale a pena dar uma espreitadela.

Mendigos e Altivos
De: Albert Cossery
Ano: 1955
Editora: Antígona
Páginas: 264

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.

Na África do Sul pós-apartheid, David Lurie é um professor universitário de 52 anos que vive calmamente uma vida conturbada, se é que isto é possível. Explicando um pouco, ele vive em paz consigo próprio apesar de não levar uma vida propriamente normal - com dois casamentos falhados, afastado da filha, é doido por mulheres e encontra-se semanalmente com uma prostituta que lhe acalma os desvarios do corpo e da mente. No entanto, esta relação profissional e pacífica termina quando David leva as coisas para o lado pessoal.

Com as ânsias da carne por responder, a sua atenção centra-se numa aluna. A sua parca idade, o ar angelical e virginal, o seu corpo firme, apanham-no de supetão e faz a sua investida. Ela não diz que não, e começam uma relação de alguma familiaridade e intermitência, interrompida quando o ex-namorado da moça aparece, ameaçando-o. Este convence a rapariga a apresentar queixa contra o professor, e o escândalo da relação assombra a comunidade.

A carreira de David cai por terra, sem no entanto abalar a sua confiança - ele nunca dá parte de fraco, nunca se dá como culpado, não mostra qualquer remorso, porque afinal, numa relação consentida entre adultos, a única coisa que poderá fazê-lo sentir-se menos bem consigo próprio é a beatitude da relação professor-aluna...

Escorraçado, decide passar uns tempos com a filha, na quinta onde ela vive isolada. Considera que é uma oportunidade de se aproximar dela enquanto limpa a cabeça, deixa que a sua reputação seja olvidada na cidade e para esquecer o peso da idade que começa a sentir. Lucy é uma mulher forte e independente, que vive do que ganha numa banca no mercado e no canil na quinta. Recentemente separada da mulher, vive sozinha em casa, apenas rodeada de alguns vizinhos e do sócio.

A presença de David na casa dela não é um mar de rosas. A relação de pai e filha nunca foi muito próxima e íntima, mas ambos fazem um esforço para mitigar as tristezas de que são vítimas e para terem a paciência de se aturarem. No entanto, as suas vidas vão ser como que atropeladas por um evento que os mudará para sempre. Algo tão terrível que vai mostrar que uma desgraça nunca vem só, que as coisas podem sempre piorar, e que mesmo quando já nos sentimos no fundo do poço é ainda possível descer mais. E, se o leitor pensasse que uma desgraça os uniria, desengane-se. Com visões distintas sobre o que se passou, as suas almas nunca estiveram tão distantes na compreensão mútua.

É um livro intenso nas temáticas mas escrito de forma tão genial que tudo flui e é natural. A aura vai ficando cada vez mais negra - o autor não nos deixa espaço para pousarmos o livro, fazer uma pausa, e fingir que nunca o lemos é impossível. É marcante, daquelas leituras que não esquecemos nem que vivamos 100 anos.

Num livro relativamente curto somos confrontados com muitas coisas que tememos e que quase nos sufocam, como a vergonha intensa, a humilhação ou a desonra, e até mesmo a forma como tratamos os animais. Não é por acaso que J.M. Coetzee ganhou o Nobel em 2003. Esta capacidade de nos chocar num curto espaço físico e com uma história de base simples é brutal. Como um choque frontal contra um muro a 120 km/hora. Completamente incisivo.

Desgraça
De: J. M. Coetzee
Ano: 1999
Editora: BIS
Páginas: 240

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.