Hoje é dia 25 de abril, um dia que ontem, hoje e amanhã carregará um significado ímpar na nossa história. Estamos aqui, hoje, a fazer o que fazemos, a dizer o que queremos, a ler o que queremos, graças a um grupo de pessoas que nesse dia, e não só, deram o golpe para a liberdade.

E porque há heróis "indirectos" e menos óbvios, a sugestão de hoje vai para o livro "Capitãs de Abril", centrado nas mulheres dos militares da revolução. Elas foram lutadoras sem balas, com um papel importantíssimo nos bastidores que vale a pena conhecer.


Um alento, um amigo, um professor, um companheiro... os livros merecem ser celebrados e hoje é o dia deles e, portanto, também o nosso. Essa luz que nos ilumina na escuridão e nos torna mais ricos mesmo sem tostão. Feliz dia do livro!



A história passa-se entre 1930 e 1958, embarcando portanto uma fase horrível da história mundial. A personagem principal é um rapaz de 9 anos, judeu, e a trama começa por ser contada na sua perspectiva, na Alemanha. A sua família, composta pelos pais, irmã e avó, vivia bem, até começar a segregação dos judeus. Aí, começa uma aventura "desnecessária", uma luta pela sobrevivência e por encontrar um lugar onde fosse garantido que continuassem vivos, coisa cada vez mais difícil.

O rapaz encontrou consolo num pombo ferido que o acompanhou enquanto pôde. Com ele desabafava e encontrava um aconchego que lhe foi falhando em tudo o mais. Mas o avançar dos acontecimentos, os campos de concentração, a fome, a doença, a morte, pairaram sobre tudo e mudaram a vida de todos.

Outro aspecto explorado neste livro e que é mais raro observar é a exploração das mulheres para a prostituição. Mulheres que foram desprovidas da sua vontade e do seu corpo, que viram queimadas as suas entranhas para não terem filhos, e que foram postas como carne num talho para o alívio imediato dos actores de uma guerra sem sentido.

Outra parte importante da narrativa é o nosso país. A autora, que vive cá há muitos anos (e que se naturalizou portuguesa), concentrou-se também no facto de Portugal ter sido um país neutro onde muitos, mesmo muitos, encontraram refúgio e graças à caridade e à boa vontade dos portugueses e de comunidades judias conseguiram sobreviver para contar as suas tristes histórias. Fomos um país muito importante, pequeno em tamanho para tanta gente, mas mesmo assim chegou para tudo - para albergar, dar amor, responder a pedidos desesperados, ajudar com tudo o que foi possível. E eu questiono-me o que foi feito desse povo, que hoje é desconfiado e crítico até à ponta dos cabelos, mas que no passado foi responsável por dar esperança e vida a milhares de pessoas que pensavam que estava tudo acabado para elas. Enfim, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Gostei muito do livro e recomendo.

O Rapaz e o Pombo
De: Cristina Norton
Ano: 2016
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 272

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
"I Could Pee on This: And Other Poems by Cats" é um livro muito estranho, com poemas como se fossem saídos directamente da mente de um felino.

Com fotos dos gatos dos autores, outros poemas são, por exemplo, "This Is My Chair" ou "Some of My Best Friends Are Dogs", e todos os donos de gatos vão-se identificar, e rir, com estes pensamentos.

Disponível na Amazon.


Foi com imensa curiosidade que peguei neste livro do falecido músico e autor, que muito admiro nos talentos musicais mas desconhecia a sua escrita de ficção.

Escrito nos anos 60, é uma amostra significativa do experiencialismo na literatura e é uma autêntica trip. O protagonista é obcecado com a cultura nativo-americana Mohawk, especialmente com a santa Kateri Tekakwitha, de quem vai contando a mirabolante e chocante história, intercalada com a sua própria.

A sua mulher, também nativo-americana, havia cometido suicídio, e são as saudades da sua pele escura e da sua forma de estar diferente que vão sendo o mote para uma escrita que tem tanto de estranha como de sentimental. Ele e o seu melhor amigo, F., recordam esta mulher, Edith, e estas conversas vão revelando que F. e Edith eram afinal muito mais que amigos. À medida que as revelações vão tomando proporções gigantes, os dois amigos também se vão embrenhando cada vez mais numa relação homosexual e muito conspurcada, pode-se dizer que bastante doentia.

É um livro difícil. Porque não há uma linha temporal segura para seguir, porque as histórias e os tempos se vão misturando, porque há páginas lá pelo meio que são só devaneios imensos e longos, sem pontuação e sem linhas de raciocínio. Por um lado, é revelador saber o que a mente de Leonard Cohen criou antes de se tornar músico. Por outro, é simplesmente assustador. Leiam, se quiserem uma viagem estranha, mas estejam preparados.

Vencidos da Vida
De: Leonard Cohen
Ano: 1966
Editora: Alfaguara Portugal
Páginas: 296

A nossa pontuação: ★★☆☆☆
Disponivel no site Wook.


Como descrever este conto em apenas uma palavra? Não dá, mas duas bastam: nostalgia e solidão.

Em "A Balada do Café Triste", a escritora Carson McCullers conta-nos a história de uma mulher forte, em corpo e em espírito, Miss Amélia, do seu primo corcunda Lymon e de um rufia condenado de seu nome Marvin Macy.

Numa terra norte-americana solitária e esquecida, perdida no tempo e sem muito que fazer, vão se cruzando histórias de várias personagens com as três principais. Um sentimento de tédio peganhento pode descrever a cidade, até à inesperada chegada do primo anão de Miss Amélia, que com as suas maledicências tem tanto de caricato como de entusiasmante : uma novidade numa terra estagnada onde nada acontece.

Desta relação imprevista entre um corcunda anão, Lymon, e a gigante impetuosa que é Miss Amélia, nasce um café onde todos os habitantes do lugarejo vão para conviver. Este café vai ser o palco onde se desenrola o quotidiano na sua calma e tranquilidade, até à chegada de Marvin Macy, ex-marido de Amélia e um ex-presidiário perigoso.

Miss Amélia nutre um ódio profundo por Macy, mas apesar de ser uma mulher reservada e isolada, no seu coração começa a nascer um estranho amor pelo anão corcunda. Este amor vai ser ameaçado pela presença de Macy e o inesperado acontece... Como se irão relacionar estas personagens, donas de personalidades controversas e intensas?

Uma escrita simples e crua, uma história onde as personagens agem para fugir da solidão, procurando entretenimento nas discussões e brigas entre os seus habitantes.
Dá que pensar...Talvez hoje em dia não seja esta terra assim tão diferente de uma qualquer terra deste mundo, pois a verdade é que parece que se buscam muito mais a desgraça e a desventura, do que a paz e a felicidade.

Serão as nossas notícias, as nossas redes sociais, a nossa imprensa, como o café de Miss Amélia, um palco para a má-língua? Estaremos nós tão entediados que não procuramos mais que guerras e desavenças? Espero que não.


A Balada do Café Triste
De:
Carson McCullers
Ano: 2003 - Coleção Biblioteca Escritores Estrangeiros da Atualidade
Editora: Planeta DeAgostini
A nossa pontuação: ★★★★☆

Mais sobre este livro no site Wook.pt

Também não sei... ajudam a escolher? 😀


Um ex-polícia, Matthew Scudder, que de vez em quando faz umas investigações por conta própria é o protagonista deste policial. A acção passa-se 9 anos depois de uma série de crimes que aconteceram, cujas vítimas foram unicamente mulheres, todas atacadas com um picador de gelo. O assassino foi finalmente apanhado e confessou os crimes, mas diz que não foi o autor de um deles.

O pai dessa vítima quer paz e acima de tudo que o verdadeiro responsável, caso não seja o confessor dos outros crimes similares, seja apanhado, e perante a inactividade da polícia, contacta Matthew para investigar. Este acaba por aceitar, embora o rasto dos acontecimentos esteja bastante frio após quase uma década.

Mesmo assim, o faro de Matthew Scudder vai levá-lo a falar com pessoas que nunca foram escutadas e a fazer pressões, levantando véus sobre o passado que fará com que muita gente fique incomodada.

Esta personagem é recorrente nos livros do autor e este foi o primeiro livro que li dele. Adquiri-o no Jumbo por 3€ e valeu bem a pena. É um policial decente com muito mistério e bem estruturado. Matthew Scudder é também uma personagem que vale a pena conhecer e continuar a explorar. A linguagem é simples mas o autor consegue perpetuar o suspense, condição essencial neste tipo de livros.

Uma Punhalada no Escuro
De: Lawrence Block
Ano: 1981
Editora: Cotovia
Páginas: 184

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
... vocês não são assim, pois não? 😝


Comecei na dúvida - nunca tinha lido nada deste autor e o começo do livro aconteceu a toda a velocidade. A personagem principal é um detective privado, que se auto-intitula de "o melhor do mundo", e na parte inicial da trama Mário França de seu nome recebeu uma montanha de casos para resolver. Uma carga tão grande que se tornou algo inacreditável, mas, claro, dei a oportunidade ao autor de se desvencilhar da bicuda situação.

A visita do Papa a Portugal e a ameaça subjacente de um ataque terrorista; mortes misteriosas de padres; a ameaça de morte à rainha da música pop; resolver um conflito de ciganos; e encontrar um rasto perdido do tempo da Segunda Guerra Mundial parecem demais para um homem só, mas o que é certo é que com os conhecimentos de Mário França tudo se resolverá (pelo menos é o que toda a gente acredita, especialmente ele próprio).

Tudo se passa na cidade do Porto mas os casos vão levar o detective a largos passeios fora do território nacional. O que é certo é que sentimos o Porto, a sua gente, as casas, as portinholas, o mercado, as tascas, a ribeira, a luz, o rio, o que nos alegra o passeio por este livro e contribui ainda mais para melhorar a narrativa. Os "assistentes" de Mário França são personagens tão peculiares que só por elas vale a pena ler este livro.

Surpreendentemente, um bom policial "made in Portugal" que me fez ficar muito curiosa para ler mais livros do autor.

Dai-lhes, Senhor, O Eterno Repouso
De: Miguel Miranda
Ano: 2010
Editora: Marca D'água
Páginas: 264

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.