No séc. XVI, o rei D. João III presenteou o seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, com nada mais nada menos do que um elefante. O pobre coitado vivia acomodado em Belém há dois anos e o rei achou que seria uma oferta de casamento singular. Ora isto aconteceu mesmo, e embora não existam muitos relatos devido à época distante, há alguns, e o resto aprimorou José Saramago com a sua imaginação.

Ora, o elefante Salomão, o seu conarca (tratador) Subhro, vários elementos da segurança do reino, ajudantes e carros de bois que transportavam água e alimento para o elefante compunham a comitiva. Está visto que naquela altura os meios de transportes eram parcos e não houve outro remédio senão irem a pé, de Lisboa a Viena, com paragem em Espanha onde se encontrava de momento o arquiduque, que se apoderou das operações a partir daí.

O livro trata disto mesmo - da viagem do elefante do ponto A, o nosso país, ao ponto B, Viena, mas é claro que nada é linear em Saramago. Deparamo-nos a todo o momento com as mais deliciosas e cómicas situações, vivemos momentos de camaradagem, aprendizagem, comovemo-nos, ao mesmo tempo em que são realizadas enormes críticas, como à religião ou às diferenças entre estratos sociais.

Salomão e Subhro são daquelas personagens inesquecíveis, que ficam guardadas cá dentro, para sempre. Um, porque é um paquiderme que veio da Índia para percorrer as estradas da Europa, enfrentando as intempéries e a estupidez dos humanos; o outro porque é a pessoa que mais compreende o primeiro, e que vai também compreendendo cada vez mais o modo de vida ocidental e como dar a volta aos elementos da comitiva real, gerando também situações muito engraçadas.

É um livro que até tem uma aura mais light que a maioria dos romances de Saramago, mas nem por isso deixa de ter uma moral bem triste, que, tal como assumiu o autor em entrevista, é uma metáfora da vida humana.

Foi a primeira vez que um livro de Saramago foi adaptado para Banda Desenhada em Portugal, por João Amaral, de onde faz parte a imagem em cima.

A Viagem do Elefante
De: José Saramago
Ano: 2008
Editora: Porto Editora
Páginas: 216

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.

Roubaud e Séverine são um casal normal, apesar da diferença de idades - ele é mais velho, e não sabe como é que a jovem de 25 anos que, apesar de não ser uma beldade, tem algo de magnético nos seus olhos azuis, se enamorou por ele. Até ao dia em que Roubaud descobre algo perverso sobre o passado da mulher e é tomado por um ciúme doentio. Sem se conseguir controlar, Roubaud mata um homem do passado de Séverine e obriga-a a participar.

O crime, perpetuado num comboio, foi testemunhado pelo jovem Jacques, por acaso colega de Roubaud na companhia dos caminhos de ferro. Com a velocidade a que seguia a locomotiva, Jacques não foi capaz de descortinar caras mas viu pormenores capazes de enterrar o colega. Roubaud quase que mete o jovem debaixo da sua asa e faz com que a simpatia de Jacques pela sua "inocente" e "terna" mulher cresça para que este se cale.

Jacques tem não só de se preocupar com uma investigação que o tem como principal testemunha, como também por um sentimento crescente por Séverine, que é mútuo e que os vai levar numa outra novela; e ainda com algo que cresce dentro dele há muito tempo e que nunca se atreveu a contar a ninguém - uma vontade incontrolável de matar mulheres, de lhes enfiar a lâmica nos seus pescoços macios e ver a vida escorrer-lhes devagar.

Muitas mais personagens entram em cena nesta trama complexa, cheia de pormenores, descrições exaustivas e que, como ainda por cima é um clássico com uma linguagem coloquial própria da época, torna a leitura num processo nada fácil.

Não deixa de ser uma leitura recomendada que, tal como o título indica, nos apresenta a besta humana, não uma só, mas um conjunto delas, uma vez que ela habita em cada um de nós. Pode estar escondida, mas ela vive, esperando a sua oportunidade. Pode nunca chegar, mas mais dia menos dia manifesta-se em alguém. E é bonito ver uma quantidade de bestas a acordar ao mesmo tempo.

O livro foi adaptado para o cinema algumas vezes, sendo a mais célebre das adaptações a realizada por Jean Renoir em 1938. Resta-me fazer um reparo às edições portuguesas, que traduziram o nome do autor de Émile para Emílio... A sério?

A Besta Humana
De: Émile Zola
Ano: 1890
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 328

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Estamos com a Manta de Histórias. Isto não há coisa de ter demasiados livros. Isso não existe. O problema é que não há estantes suficientes. Ou salas, ou casas...



A acção tem lugar no Cairo. A trama gira em volta de um assassínino de uma bonita e jovem prostituta numa casa de passe. O chefe da polícia, Nour El Dine, tem três suspeitos em mente, frequentadores assíduos da casa.

São eles Gohar, um ex-professor que agora é mendigo por opção. Respeitado por todos devido aos seus sábios conselhos,e inteligência e sagacidade, é basicamente um filósofo de rua que apenas sofre quando não tem haxixe. Ieguene é quem lhe arranja a droga, e é tão feio que quase todos lhe têm medo. Gohar é a sua pessoa preferida à face da Terra, tem-lhe uma admiração que só vista. Vive numa pobreza extrema, não tendo onde cair morto. El Kordi é um funcionário baixo do Estado, constantemente atacado pela preguiça e que vive cortejando bonitas mulheres, prometendo-lhes mundos e fundos que não pode oferecer.

A narrativa gira em volta destes três homens, apresentando-nos muitas mais personagens bastante interessantes, como o mendigo homem-tronco, que é só um tronco com braços mas que, pelos vistos, atrai mulheres como um íman. Que mulher não ficaria encantada por ter o melhor dos mendigos ao lado, com trocos diários garantidos? Para além disso a sua performance sexual parece acima da média...

O autor, Albert Cossery, viveu ele próprio como um "mendigo altivo" e decerto muito se inspirou na sua realidade. Apesar de ter nascido no Egipto, viveu mais de 60 anos num quarto de hotel em Paris praticamente sem objectos, onde morreu. Publicou os livros suficientes apenas para sobreviver - um livro de 8 em 8 anos, uma linha por semana, como reza a história da sua biografia.

É de facto uma forma curiosa de se viver, dedicada à indolência e ao prazer da preguiça, que apregoava. E vemos muito disto em "Mendigos e Altivos". Gostei bastante da obra, talvez a linguagem culturalmente muito própria não permitiu que me embrenhasse totalmente mas é um livro cheio de humor negro e situações incrivelmente cómicas que vale a pena dar uma espreitadela.

Mendigos e Altivos
De: Albert Cossery
Ano: 1955
Editora: Antígona
Páginas: 264

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.

Na África do Sul pós-apartheid, David Lurie é um professor universitário de 52 anos que vive calmamente uma vida conturbada, se é que isto é possível. Explicando um pouco, ele vive em paz consigo próprio apesar de não levar uma vida propriamente normal - com dois casamentos falhados, afastado da filha, é doido por mulheres e encontra-se semanalmente com uma prostituta que lhe acalma os desvarios do corpo e da mente. No entanto, esta relação profissional e pacífica termina quando David leva as coisas para o lado pessoal.

Com as ânsias da carne por responder, a sua atenção centra-se numa aluna. A sua parca idade, o ar angelical e virginal, o seu corpo firme, apanham-no de supetão e faz a sua investida. Ela não diz que não, e começam uma relação de alguma familiaridade e intermitência, interrompida quando o ex-namorado da moça aparece, ameaçando-o. Este convence a rapariga a apresentar queixa contra o professor, e o escândalo da relação assombra a comunidade.

A carreira de David cai por terra, sem no entanto abalar a sua confiança - ele nunca dá parte de fraco, nunca se dá como culpado, não mostra qualquer remorso, porque afinal, numa relação consentida entre adultos, a única coisa que poderá fazê-lo sentir-se menos bem consigo próprio é a beatitude da relação professor-aluna...

Escorraçado, decide passar uns tempos com a filha, na quinta onde ela vive isolada. Considera que é uma oportunidade de se aproximar dela enquanto limpa a cabeça, deixa que a sua reputação seja olvidada na cidade e para esquecer o peso da idade que começa a sentir. Lucy é uma mulher forte e independente, que vive do que ganha numa banca no mercado e no canil na quinta. Recentemente separada da mulher, vive sozinha em casa, apenas rodeada de alguns vizinhos e do sócio.

A presença de David na casa dela não é um mar de rosas. A relação de pai e filha nunca foi muito próxima e íntima, mas ambos fazem um esforço para mitigar as tristezas de que são vítimas e para terem a paciência de se aturarem. No entanto, as suas vidas vão ser como que atropeladas por um evento que os mudará para sempre. Algo tão terrível que vai mostrar que uma desgraça nunca vem só, que as coisas podem sempre piorar, e que mesmo quando já nos sentimos no fundo do poço é ainda possível descer mais. E, se o leitor pensasse que uma desgraça os uniria, desengane-se. Com visões distintas sobre o que se passou, as suas almas nunca estiveram tão distantes na compreensão mútua.

É um livro intenso nas temáticas mas escrito de forma tão genial que tudo flui e é natural. A aura vai ficando cada vez mais negra - o autor não nos deixa espaço para pousarmos o livro, fazer uma pausa, e fingir que nunca o lemos é impossível. É marcante, daquelas leituras que não esquecemos nem que vivamos 100 anos.

Num livro relativamente curto somos confrontados com muitas coisas que tememos e que quase nos sufocam, como a vergonha intensa, a humilhação ou a desonra, e até mesmo a forma como tratamos os animais. Não é por acaso que J.M. Coetzee ganhou o Nobel em 2003. Esta capacidade de nos chocar num curto espaço físico e com uma história de base simples é brutal. Como um choque frontal contra um muro a 120 km/hora. Completamente incisivo.

Desgraça
De: J. M. Coetzee
Ano: 1999
Editora: BIS
Páginas: 240

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Conhecimento é poder! E é importante saber, e ler muito, antes de se marcarem para sempre com uma gralha, e ainda por cima, feia como tudo :P


Sim, Lisboa não precisa de mais Tuk-tuk's... Mas quando se trata de uma biblioteca que percorre os bairros históricos de Lisboa para fazer chegar os livros a todos, a história é outra!

A ideia partiu de Elsa Serra, contadora de histórias profissional, formadora e autora. O projecto chama-se Na Rua Com Histórias - Uma Biblioteca Para Todos e pretende incluir todos os grupos na rota das leituras, sejam idosos, crianças, sem-abrigo, nos bairros de Alfama, Castelo, Graça e Mouraria.

E é assim, de forma sustentável e amiga do ambiente, que o Tuk-tuk transformado em biblioteca percorre os bairros, cumprindo rotas pré-definidas com paragens em vários locais, que serão anunciadas no site, onde brevemente se poderá fazer a reserva e requisição de livros. Uma óptima ideia, bravo!

Saibam mais e conheçam as rotas no site da Timeout.


Quem por aqui passa de vez em quando já se apercebeu de que Philip Roth é um dos meus autores favoritos, e até já havia "brincado", dizendo que poderia ser que, quando morresse, finalmente lhe atribuíssem o Nobel que merece.

Tinha 85 anos e deixou-nos obras marcantes como A Macha Humana, Quando Ela Era Boa, O Complexo de Portnoy ou A Conspiração Contra a América. Era um homem sem medo, que não temia o choque e que explorava qualquer tema com abertura e com perspectivas completamente fora da caixa. Era muito à frente do seu tempo, um visionário, um combatente, um pró-activo. Tenho mesmo muita pena, o mundo literário, e não só, empobreceu.

Entre outros prémios, venceu o Pulitzer, o National Book Award e o Man Booker International. Até sempre. Vemo-nos nas tuas letras, podes ter a certeza.


O Diana Bar, na Póvoa de Varzim, abriu portas em 1940. Tornou-se um marco na região e um ponto de encontro para várias figuras da cena nacional, como Agustina Bessa-Luís ou Manoel de Oliveira. O cliente mais assíduo era José Régio, que tinha ali assento reservado, e que, quem sabe inspirado na possibilidade de ver o mar pelas grandes janelas, ali escreveu muitas obras.

Infelizmente, nos anos 90, quando o fundador do espaço morreu, o Diana Bar também foi morrendo. A Câmara Municipal restaurou o espaço e ele é hoje uma biblioteca que manteve grande parte da sua estrutura. Quem visita não pode deixar de reparar que a mesa e a cadeira de José Régio se mantêm por lá, em homenagem sentida.

Mais do que feliz pela existência de um novo espaço de leitura, agrada-me tanto este perservar das nossas raízes e da nossa cultura, tão, mas tão raro, que merece a nossa menção e os parabéns.

Saiba mais no site do JN.



O narrador é um escritor frustrado e hipocondríaco, que usa uma muleta para apoiar uma perna que diz doente mas na qual nenhum médico consegue descortinar problemas. O seu insucesso, dores e isolamento fazem de si uma pessoa amarga e que pouco se aventura fora das portas do seu apartamento. Quando surge o convite para participar num evento literário em Budapeste, acaba por aceitar devido à precariedade das suas economias, embora fazer uma viagem seja a última coisa que lhe apeteça.

Lá, acaba por conhecer um escritor italiano mais jovem, Vincenzo, enérgico, cheio de ideias, que o arrasta pela noite da cidade e que o apresenta às suas amigas Olivia e Nina. Vincenzo tem uma ideia fixa que é visitar a casa de Don Metzger, um imponente produtor de cinema que se inspira em livros. Através da influência do pai, Vincenzo conseguiu fazer-se convidado para a casa de campo do produtor no meio de um isolado bosque italiano, enigmaticamente denonimada de Bom Inverno.

Sem saber muito bem como, mas sobretudo devido à insistência sem fim de Vincenzo e à curiosidade que se foi aguçando, o narrador é convencido a acompanhar o grupo até Itália. Os quatro começam então uma aventura rumo ao quase totalmente desconhecido. Chegados à casa do produtor, que se encontra ausente, conhecem várias pessoas ligadas à indústria e que aproveitam as regalias oferecidas pela casa de Don Metzger - o vinho e o champanhe, a comida, a casa moderna, o fabuloso lago, os sons do frondoso bosque.

A relativa paz termina quando, no fim de uma primeira noite de muitos excessos, Don Metzger finalmente aparece, mas morto. O seu empregado e amigo Bosco, presença imponente e ameaçadora, faz de si próprio justiceiro e quer ver morto quem cometeu o crime. Ele espera respostas, e se não as tiver, vai eliminando os presentes, um por um. Ensombrados pela ameaça, petrificados pela sombra da morte e surpreendidos pelo fatídico destino que os esperava no meio de um bosque italiano, os protagonistas veem-se numa inesperada luta pela sobrevivência e pela constante dúvida de quem será o assassino.

É um livro cujo início não fazia prever um tamanho suspense. São dispendidas muitas páginas a dar-nos a conhecer o narrador, cujas maleitas, imaginadas ou não, e cujo feitio reservado, para dizer o mínimo, não faziam antever que se fosse meter numa aventura deste tipo. Essa parte é um pouco inacreditável até para o imenso talento de João Tordo. Ficamos (fiquei) um pouco de pé atrás com a incongruência, mesmo que tenhamos em consideração toda uma moral ligada ao ultrapassar dos nossos medos.

Mas adiante, que o que se veio a passar de seguida fez-me esquecer a anterior torcidela de nariz. Quando o livro se transforma num thriller, quando deixa para trás o contexto e o como, torna-se num suspense irrepreensível, com um ambiente de cortar à faca, com muitas perguntas requerendo respostas, que nos deixam agarrados e curiosos até à última página. As situações surpreendentes, os diálogos, os mistérios, até mesmo os sonhos que o narrador nos vai contando, contribuem para que este seja um dos melhores livros do género que já li escritos na língua de Camões.

É uma leitura fluída e arrepiante, que nos oferece um puro prazer de leitura que só um livro originalmente em português pode fazer.

O Bom Inverno
De: João Tordo
Ano: 2010
Editora: Dom Quixote
Páginas: 292

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.