Na África do Sul pós-apartheid, David Lurie é um professor universitário de 52 anos que vive calmamente uma vida conturbada, se é que isto é possível. Explicando um pouco, ele vive em paz consigo próprio apesar de não levar uma vida propriamente normal - com dois casamentos falhados, afastado da filha, é doido por mulheres e encontra-se semanalmente com uma prostituta que lhe acalma os desvarios do corpo e da mente. No entanto, esta relação profissional e pacífica termina quando David leva as coisas para o lado pessoal.

Com as ânsias da carne por responder, a sua atenção centra-se numa aluna. A sua parca idade, o ar angelical e virginal, o seu corpo firme, apanham-no de supetão e faz a sua investida. Ela não diz que não, e começam uma relação de alguma familiaridade e intermitência, interrompida quando o ex-namorado da moça aparece, ameaçando-o. Este convence a rapariga a apresentar queixa contra o professor, e o escândalo da relação assombra a comunidade.

A carreira de David cai por terra, sem no entanto abalar a sua confiança - ele nunca dá parte de fraco, nunca se dá como culpado, não mostra qualquer remorso, porque afinal, numa relação consentida entre adultos, a única coisa que poderá fazê-lo sentir-se menos bem consigo próprio é a beatitude da relação professor-aluna...

Escorraçado, decide passar uns tempos com a filha, na quinta onde ela vive isolada. Considera que é uma oportunidade de se aproximar dela enquanto limpa a cabeça, deixa que a sua reputação seja olvidada na cidade e para esquecer o peso da idade que começa a sentir. Lucy é uma mulher forte e independente, que vive do que ganha numa banca no mercado e no canil na quinta. Recentemente separada da mulher, vive sozinha em casa, apenas rodeada de alguns vizinhos e do sócio.

A presença de David na casa dela não é um mar de rosas. A relação de pai e filha nunca foi muito próxima e íntima, mas ambos fazem um esforço para mitigar as tristezas de que são vítimas e para terem a paciência de se aturarem. No entanto, as suas vidas vão ser como que atropeladas por um evento que os mudará para sempre. Algo tão terrível que vai mostrar que uma desgraça nunca vem só, que as coisas podem sempre piorar, e que mesmo quando já nos sentimos no fundo do poço é ainda possível descer mais. E, se o leitor pensasse que uma desgraça os uniria, desengane-se. Com visões distintas sobre o que se passou, as suas almas nunca estiveram tão distantes na compreensão mútua.

É um livro intenso nas temáticas mas escrito de forma tão genial que tudo flui e é natural. A aura vai ficando cada vez mais negra - o autor não nos deixa espaço para pousarmos o livro, fazer uma pausa, e fingir que nunca o lemos é impossível. É marcante, daquelas leituras que não esquecemos nem que vivamos 100 anos.

Num livro relativamente curto somos confrontados com muitas coisas que tememos e que quase nos sufocam, como a vergonha intensa, a humilhação ou a desonra, e até mesmo a forma como tratamos os animais. Não é por acaso que J.M. Coetzee ganhou o Nobel em 2003. Esta capacidade de nos chocar num curto espaço físico e com uma história de base simples é brutal. Como um choque frontal contra um muro a 120 km/hora. Completamente incisivo.

Desgraça
De: J. M. Coetzee
Ano: 1999
Editora: BIS
Páginas: 240

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Conhecimento é poder! E é importante saber, e ler muito, antes de se marcarem para sempre com uma gralha, e ainda por cima, feia como tudo :P


Sim, Lisboa não precisa de mais Tuk-tuk's... Mas quando se trata de uma biblioteca que percorre os bairros históricos de Lisboa para fazer chegar os livros a todos, a história é outra!

A ideia partiu de Elsa Serra, contadora de histórias profissional, formadora e autora. O projecto chama-se Na Rua Com Histórias - Uma Biblioteca Para Todos e pretende incluir todos os grupos na rota das leituras, sejam idosos, crianças, sem-abrigo, nos bairros de Alfama, Castelo, Graça e Mouraria.

E é assim, de forma sustentável e amiga do ambiente, que o Tuk-tuk transformado em biblioteca percorre os bairros, cumprindo rotas pré-definidas com paragens em vários locais, que serão anunciadas no site, onde brevemente se poderá fazer a reserva e requisição de livros. Uma óptima ideia, bravo!

Saibam mais e conheçam as rotas no site da Timeout.


Quem por aqui passa de vez em quando já se apercebeu de que Philip Roth é um dos meus autores favoritos, e até já havia "brincado", dizendo que poderia ser que, quando morresse, finalmente lhe atribuíssem o Nobel que merece.

Tinha 85 anos e deixou-nos obras marcantes como A Macha Humana, Quando Ela Era Boa, O Complexo de Portnoy ou A Conspiração Contra a América. Era um homem sem medo, que não temia o choque e que explorava qualquer tema com abertura e com perspectivas completamente fora da caixa. Era muito à frente do seu tempo, um visionário, um combatente, um pró-activo. Tenho mesmo muita pena, o mundo literário, e não só, empobreceu.

Entre outros prémios, venceu o Pulitzer, o National Book Award e o Man Booker International. Até sempre. Vemo-nos nas tuas letras, podes ter a certeza.


O Diana Bar, na Póvoa de Varzim, abriu portas em 1940. Tornou-se um marco na região e um ponto de encontro para várias figuras da cena nacional, como Agustina Bessa-Luís ou Manoel de Oliveira. O cliente mais assíduo era José Régio, que tinha ali assento reservado, e que, quem sabe inspirado na possibilidade de ver o mar pelas grandes janelas, ali escreveu muitas obras.

Infelizmente, nos anos 90, quando o fundador do espaço morreu, o Diana Bar também foi morrendo. A Câmara Municipal restaurou o espaço e ele é hoje uma biblioteca que manteve grande parte da sua estrutura. Quem visita não pode deixar de reparar que a mesa e a cadeira de José Régio se mantêm por lá, em homenagem sentida.

Mais do que feliz pela existência de um novo espaço de leitura, agrada-me tanto este perservar das nossas raízes e da nossa cultura, tão, mas tão raro, que merece a nossa menção e os parabéns.

Saiba mais no site do JN.



O narrador é um escritor frustrado e hipocondríaco, que usa uma muleta para apoiar uma perna que diz doente mas na qual nenhum médico consegue descortinar problemas. O seu insucesso, dores e isolamento fazem de si uma pessoa amarga e que pouco se aventura fora das portas do seu apartamento. Quando surge o convite para participar num evento literário em Budapeste, acaba por aceitar devido à precariedade das suas economias, embora fazer uma viagem seja a última coisa que lhe apeteça.

Lá, acaba por conhecer um escritor italiano mais jovem, Vincenzo, enérgico, cheio de ideias, que o arrasta pela noite da cidade e que o apresenta às suas amigas Olivia e Nina. Vincenzo tem uma ideia fixa que é visitar a casa de Don Metzger, um imponente produtor de cinema que se inspira em livros. Através da influência do pai, Vincenzo conseguiu fazer-se convidado para a casa de campo do produtor no meio de um isolado bosque italiano, enigmaticamente denonimada de Bom Inverno.

Sem saber muito bem como, mas sobretudo devido à insistência sem fim de Vincenzo e à curiosidade que se foi aguçando, o narrador é convencido a acompanhar o grupo até Itália. Os quatro começam então uma aventura rumo ao quase totalmente desconhecido. Chegados à casa do produtor, que se encontra ausente, conhecem várias pessoas ligadas à indústria e que aproveitam as regalias oferecidas pela casa de Don Metzger - o vinho e o champanhe, a comida, a casa moderna, o fabuloso lago, os sons do frondoso bosque.

A relativa paz termina quando, no fim de uma primeira noite de muitos excessos, Don Metzger finalmente aparece, mas morto. O seu empregado e amigo Bosco, presença imponente e ameaçadora, faz de si próprio justiceiro e quer ver morto quem cometeu o crime. Ele espera respostas, e se não as tiver, vai eliminando os presentes, um por um. Ensombrados pela ameaça, petrificados pela sombra da morte e surpreendidos pelo fatídico destino que os esperava no meio de um bosque italiano, os protagonistas veem-se numa inesperada luta pela sobrevivência e pela constante dúvida de quem será o assassino.

É um livro cujo início não fazia prever um tamanho suspense. São dispendidas muitas páginas a dar-nos a conhecer o narrador, cujas maleitas, imaginadas ou não, e cujo feitio reservado, para dizer o mínimo, não faziam antever que se fosse meter numa aventura deste tipo. Essa parte é um pouco inacreditável até para o imenso talento de João Tordo. Ficamos (fiquei) um pouco de pé atrás com a incongruência, mesmo que tenhamos em consideração toda uma moral ligada ao ultrapassar dos nossos medos.

Mas adiante, que o que se veio a passar de seguida fez-me esquecer a anterior torcidela de nariz. Quando o livro se transforma num thriller, quando deixa para trás o contexto e o como, torna-se num suspense irrepreensível, com um ambiente de cortar à faca, com muitas perguntas requerendo respostas, que nos deixam agarrados e curiosos até à última página. As situações surpreendentes, os diálogos, os mistérios, até mesmo os sonhos que o narrador nos vai contando, contribuem para que este seja um dos melhores livros do género que já li escritos na língua de Camões.

É uma leitura fluída e arrepiante, que nos oferece um puro prazer de leitura que só um livro originalmente em português pode fazer.

O Bom Inverno
De: João Tordo
Ano: 2010
Editora: Dom Quixote
Páginas: 292

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.

Cipriano Algor é oleiro, certamente um dos últimos. Naquela olaria na periferia do Centro, quatro gerações transformaram o barro com as suas próprias mãos, com os métodos mais arcaicos e que já não se usam. Marta é a sua filha e Marçal, o genro. Vivem os três na casa junto à olaria, onde não há luxos mas há lufadas de ar livre, uma amoreira-preta e uma vida calma e honesta.

O já referido Centro é difícil de definir. O leitor vai tendo cada vez mais lamirés sobre o mesmo e vai construindo a sua ideia. É como se fosse uma cidade dentro de uma cidade, onde o betão cresce para os lados, para cima e para baixo de chão. É um local que oferece tudo o que existe no mundo e que tem toda a tecnologia do universo. O Centro vai crescendo e absorvendo as pessoas, o comércio e os serviços, até que fora dos seus muros nada floresça. Muitas pessoas anseiam pela modernidade do Centro e pela possibilidade de lá viver. Mas não Cipriano. Cipriano quer continuar a viver do que as suas mãos produzem na lama vermelha. Só de pensar naquelas gaiolas a que chamam casa, onde é proibido abrir janelas para se manter a temperatura e a humidade, fica doente. No entanto, o seu genro, segurança no Centro, está na eminência de ser promovido e terão de se mudar para lá quando isso acontecer.

Antes disso, o oleiro vê a sua vida a andar para trás quando o departamento de compras do Centro lhe comunica que os clientes já não estão interessados nas suas peças. As encomendas são canceladas e o homem que só sabe viver do barro vê-se a bater com a cabeça nas paredes e sem propósito. No entanto, a vida ainda lhe trará muitos altos e baixos apesar dos seus já 60 e tal anos de idade. Entre elas, o aparecimento de um cão errante na sua propriedade, que baptizou de Achado; e a viúva Isaura Estudiosa. O primeiro vai dar-lhe companhia e alegrias; e vai desejar muito que a segunda lhe dê companhia e alegrias. Embora, como um homem do antigamente, não verbalize nada do que lhe vai passeando no interior.

A sua filha Marta tem uma ideia que pretende tanto elevar a moral do pai como a sua própria, e um novo projecto vai ocupar-lhes as mãos e o espírito, ambos carentes. E assim vamos acompanhando os Algores, o Achado, Marçal e Isaura, algumas das melhores personagens que já tive o prazer de conhecer.

Adoro Saramago, simplesmente adoro. Ainda não tinha lido A Caverna, mas enquadra-se perfeitamente no seu estilo. Mas parece que, dada a simplicidade destas gentes, dos seus actos, das suas palavras parcas mas sempre cheias de segundos, terceiros e quartos significados, a sua escrita ganha asas ainda maiores, atinge-nos o coração, fala-nos directamente cá para dentro, imprime-nos uma marca que não passará.

A história é simples e apesar de falar de um futuro (ou de um presente, ou passado) distópico, é óbvio de que se trata de cada um de nós, da maneira como a humanidade mudou e para onde vai; da complicação que nós próprios provocamos e do nosso afastamento das raízes; do querer ser mais e ter mais quando precisamos de muito pouco para ser felizes. Juntando tudo isto à mestria do autor, temos um tocante romance que, inevitavelmente, oferece um tipo de melancolia rara, que nos atinge de forma irrevogável.

A mim, atingiu-me como um trovão. Sendo proveniente da terrinha, onde os meus avós viviam do que faziam com as mãos (e onde muita gente o faz ainda), consegui sentir na pele e na alma todas as palavras. Senti a tristeza destes tempos onde todos compram tudo feito, onde tudo é facilitado e realizado para ser de consumo rápido, onde o ponto A e o ponto B são os objectivos sem que se desfrute do caminho, onde o progresso mata devagarinho a identidade do povo. Sei que não há volta a dar, e essa irreversabilidade, o perder para sempre do talento individual para a sociedade massificada, a perda de importância do que é natural em detrimento do lucro, das regras e de um lugar ao sol artificial, fizeram-me chorar.

Se fosse outro autor a contar esta história, não teria sido tão bom. Não tenho mais adjectivos, do que dizer que é um livro brilhante.

A Caverna
De: José Saramago
Ano: 2000
Editora: Porto Editora
Páginas: 368

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível no site Wook.

Este é talvez o livro mais conhecido de Philip Roth e é talvez aquele que menos consenso reúne. A verdade é que não é um livro fácil. Todo o livro é um monólogo, extenso, embora hilariante, de Portnoy enquanto paciente num divã de psicanálise.

Pese embora o longo discurso sobre si próprio, a narrativa é tudo menos linear. O modo como está escrito faz com que consigamos imaginar totalmente este homem a desabafar e o ênfase que dá a cada verbalização, como se estivesse a falar connosco. Sabemos perfeitamente quando está calmo e nostálgico, depressivo ou entusiasta simplesmente pela cadência das frases, pela pontuação ou linguagem, e isto só um escritor brilhante sabe fazer.

O arrojo do autor não se prende somente com esta forma arriscada de escrever, mas também pelo tema. Alexander Portnoy é um judeu cuja sexualidade está virada do avesso, e ele culpa a mãe. Culpa o seu zelo excessivo, a sua exigência para que ele fosse perfeito, os ensinamentos descabidos, a pressão sem limites. Culpa-a por ter feito com que o seu único escape, enquanto adolescente, fosse uma masturbação tão desenfreada que o próprio tinha medo de provocar cancro com tanta fricção. E sim, usava a roupa interior da mãe e da irmã para o efeito.

E se Alexander é agora um trintão solteiro que só pensa em rodar mulheres, que fica louco com a visão de todas as mamas disponíveis no mundo e que não tem nenhuma vontade de escolher apenas um par delas e assentar, é porque a mãe o pressiona nesse sentido, porque a sua família deturpou a imagem familiar, porque lhe impuseram restrições, porque quiseram escolher a sua vida por ele.

A linguagem é completamente sem filtro - com direito a bolinha vermelha ao canto. Não deixa de ser um texto sério, o relato de uma mente deturpada e com todo o contexto político e social na América judaica que ainda sente a sombra das atrocidades da guerra. Como tal, é um livro muito à frente do tempo, com uma sinceridade e liberdade que quase comovem. E, claro, é muito cómico, não podia ser de outra forma com uma premissa destas.

O Complexo de Portnoy
De: Philip Roth
Ano: 1969
Editora: Dom Quixote
Páginas: 272

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.

Amadeu passou 10 anos na prisão, acusado de ter tirado a vida à filha do presidente da Junta. Agora que está novamente em liberdade, conhecemos o seu passado e o percurso que está a fazer de regresso à origem, à terrinha que o definhou e que o esvaziou por dentro, acompanhado de um cão esquelético que encontrou no caminho.

Cândida é a mãe de Amadeu e é puta. Do seu trabalho nasceram favores, inquietações, augúrios, mas acima de tudo o estigma para o seu filho. Toda a gente sabe que filho de puta é preguiçoso. Cândida não sabe muito mais do que usar as fartas mamas como argumento mesmo que agora não passem de sacos vazios ao vento.

Briosa, a mãe e o irmão vivem afastados e alheados. A mãe passa o dia a beber, tentando esquecer que o próprio pai lhe fez um filho, que ela mantém agrilhoado onde o sol não bate. É Briosa quem dele cuida, o alimenta, lhe corta o cabelo e lhe vai tirando o sarro da pele, quando não está a tocar-se no telhado ou a ser o depósito do fervor do pastor.

Este livro tinha tudo para eu gostar dele. Gosto destas personagens rústicas, da bagagem que trazem, dos modos de vida que nos parecem tão peculiares mas que são norma em muitos locais. Gosto da falta de segredos que nos é exposta, o mundo tal como ele é à nossa disposição sem segredos, por muito vergonhosos que para alguns de nós possam parecer. Gosto de tragédias pessoais e de mundos do avesso. E por ter uma expectativa tão alta, desiludi-me.

Com personagens e contextos tão desenvolvidos e característicos, o meu problema não se encontrou aí, obviamente, mas sim na escrita. Não houve página, pensamento ou parágrafo em que tudo passasse à primeira. O leitor perde-se na complexidade das frases, do tempo, do discurso, no exagero da descrição. A leitura não foi, para mim, natural e fluída. Vi-me a parar demasiadas vezes para reler páginas inteiras que numa primeira passagem nada retive.

Foi muito cansativo. E foi uma pena. Acredito que será uma óptima descoberta para muitos leitores mas para mim foi um suplício, uma pista de obstáculos em vez de uma maratona limpa.

Mea Culpa
De: Carla Pais
Ano: 2017
Editora: Porto Editora
Páginas: 208

A nossa pontuação: ★★☆☆☆
Disponível no site Wook.


Guylain tem uma profissão que qualquer amante da literatura iria odiar - ele manobra uma máquina gigante que tem como objectivo esmagar, quebrar, e tornar uma massa os livros velhos e fora de uso, destruindo as palavras, o conhecimento e a beleza efémera daquelas letras.

Tendo pena de ver os livros morrer, ele vai surripiando algumas páginas e lê-as em voz alta, todos os dias, no comboio que o traz e leva a casa. Como se senta sempre no mesmo lugar, os outros passageiros já o conhecem e sabem que vão poder ouvir a declamação, que tanto pode ser de um livro de História, de receitas ou um romance tórrido. O conteúdo não importa a Guylain - apenas fazer viver os livros mais um pouco, partilhando-os com a sua audiência no transporte público.

Apesar da intervenção em público que efectua diariamente, Guylain não é dado a actividades sociais e até é tímido, tem poucos amigos, e a sua única companhia efectiva é um peixe vermelho. Um dia, quando puxa o banco rebatível onde se costuma sentar no comboio, uma pen drive cai ao chão e ele guarda-a. Quando, mais tarde, consulta o conteúdo em casa, descobre um conjunto de textos escritos por uma mulher. Ele bebe as suas palavras e mergulha nelas como nunca havia feito com nada. Então, o homem tímido e solitário encontra um propósito - a busca por esta mulher, de quem pouco sabe, mas por quem se apaixona através dos seus escritos cómicos e sinceros.

É um livro que, apesar de ter algumas tragédias à mistura, é leve e divertido na sua essência. As personagens são interessantes e a premissa agarra logo à partida. Todos nos conseguiríamos colocar na pele de Guylain, e sentir a sua dor ao destruir os livros; e todos aplaudiríamos a sua iniciativa de ler os seus restos em voz alta no comboio num acto extremamente poético. O livro peca exactamente na sua simplicidade - é tão positivo e leve (apesar da sombra da destruição literária) que sabemos que vai correr tudo bem.

Lê-se muito rapidamente e para quem adora livros sobre livros, livros dentro de livros, e se procura uma história divertida, ternurenta e deliciosa, este é para si.

O Leitor do Comboio
De: Jean-Paul Didierlaurent
Ano: 2015
Editora: Clube do Autor
Páginas: 196

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.