Rasgo de Sol em tempestades,
é o que tu és.
Raízes de árvore que não cede,
apenas tolda para dar os seus frutos,
é o que tu és.

Se te imaginas fraca,
como se de ti tivessem tirado à força
os filhos, o futuro,
não chores.
És a força dos rios e esses seguem sempre
em frente, no seu caminho,
tal como tu, até ao mar que te espera.

Nesse mar serás peixe, serás alga,
e a espuma das marés.
Serás o sal que seca na pele.
É isso que tu és. 
O sal, o sabor,
a textura de tudo o que é, foi e será.

De ti tudo nasce, em ti nada morre,
nada se esquece, tudo se vinca,
como as noites mal dormidas a tratar dos teus.

Em ti tudo floresce, tudo brota, de ti tudo vem,
és a Mãe, a Filha, a Servente e a Rainha.
És tudo Mulher, por isso nunca te faças nada,
por que sem ti nada será.

Vai.
Agora.
Sê muito,
sê tudo,
sê Mulher.

O Tyrion é um espirituoso no Game of Thrones, mas o actor que lhe dá vida não fica atrás ;)



Bruce Delamitri é um famoso e talentoso realizador de Hollywood, conhecido pelos seus filmes violentos, sádicos, crus e negros. Ele é muito confiante e seguro de si e vai ter de usar toda a sua sapiência e paciência nos constantes ataques de que é vítima, especialmente por parte da comunicação social, que frequentemente o acusa de inspirar a violência.

Quando um casal começa a matar indiscriminadamente pessoas em centros comerciais, logo começam as comparações com os filmes de Bruce e a discussão sobre a violência no cinema vem ao de cima, colocando-o debaixo de fogo. Defendendo que os filmes são um reflexo da sociedade violenta e não o contrário, ele vai gastar o seu latim a tentar explicar a sua visão.

Na noite de entrega dos Óscares, todos os holofotes apontam para Bruce. No entanto, uma noite de festa está prestes a transformar-se em tragédia quando os Assassinos dos Centros Comerciais entram em acção, preparando-se para a carnifina mais mediática das suas carreiras de matança. Entrando numa espiral caótica de uma confusão sem precedentes, a vida de Bruce e dos seus mais próximos está prestes a mudar para sempre.

Adorei este livro. Para além da narrativa fantástica, da história mirabolante e da acção constante, é bastante inovador no modo como é escrito. Por exemplo, a prosa por vezes é entrecortada por partes de um guião, como se a história que estamos a ler fizesse parte de um filme, com descrições sobre o set, os actores ou o ambiente, com pormenores das perspectivas das câmaras, exactamente como se estivessemos a assistir às filmagens. Isto é uma completa lufada de ar fresco no modo de ler.

Para além disso, a crítica à sociedade é uma constante, abrangendo o modo como a comunicação social manda nas nossas vidas e nos influencia e molda. O glamour de Hollywood também é posto à prova, mostrando uma comunidade de aparências e superficialidades. Acima de tudo, o livro explora uma sociedade em que a culpa nunca é de ninguém, em que as responsabilidades são sacudidas por egos cada vez maiores que se preocupam apenas com eles próprios.

Ben Elton é comediante e isso também está patente nas páginas do livro. É violento, sim, mas é muito engraçado. Com um humor negro requintado, irónico, este é um dos livros que mais me entreteve e fez rir, com situações a roçar o ridículo, sem no entanto se desviar assim tanto da realidade.

Popcorn
De: Ben Elton
Ano: 2003
Editora: Livros do Brasil
Páginas: 254

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Paulo Coelho dá-nos um relato da vida de Mata Hari, na primeira pessoa. Dividido em três partes, o livro agarra-nos logo à partida começando com a sua execução, após ter sido condenada à morte por ser considerada uma espia.

A segunda parte é uma carta da própria para o seu advogado e é aqui que se encontra todo o sumo. Ficamos a saber de onde veio, por onde passou, até ter chegado a Paris sem absolutamente nada e como se tornou uma figura importante, uma das mulheres mais desejadas e invejadas da época. Dançarina exótica, amante de homens importantes, na vanguarda da moda, Mata Hari foi seguramente um espírito demasiado livre para a época em que viveu e pagou o preço por isso. Num ambiente tenso que precedeu a primeira guerra mundial, ela lucrou, enfrentou intempéries e, mais do que tudo, fez pela sua própria sobrevivência.

É uma história de vida incrível, de uma mulher incrível. Se ela tivesse vivido nos dias de hoje o seu fim teria sido outro, e a própria sabia isso. Vítima das circunstâncias, apanhada pela sua própria desenvoltura, o seu destino soa a injustiça - decidido por aqueles que não a conseguiam acompanhar e compreender.

A terceira parte é a resposta do advogado (também ele um antigo amante) quando já se sabia que ela ia ser executada. Não é um capítulo tão emotivo e emocionante, é quase burocrático. Pela parte que me toca, não era necessária esta visão. Dá-nos algumas respostas, mas podiam ter sido introduzidas de outra forma.

No geral, gostei bastante do livro. Tenho mixed feelings em relação ao Paulo Coelho, mas até costumo gostar dos seus livros menos fantasiosos e com os pés mais assentes no chão, como é o caso. Escrever sobre uma das mais conhecidas mulheres que marcou o início do século XX é difícil e fácil ao mesmo tempo - a vida dela é do mais interessante que pode haver e há muito material para nos deixar abismados; no entanto, a "arrumação" da informação, a pesquisa, a organização do trabalho, e a voz a usar não são nada fáceis de desencantar, e nisso acho que Paulo Coelho acertou. O livro é também acompanhado de algumas fotografias marcantes.

A Espia
De: Paulo Coelho
Ano: 2016
Editora: Pergaminho
Páginas: 184

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Em Ancara, na Turquia, os homens responsáveis pela recolha do lixo começaram a guardar os livros que por lá encontravam. A ideia era que fossem para uso próprio e das suas famílias, mas a quantidade começou a aumentar e várias pessoas começaram a participar, e com o apoio da Câmara, os livros que estavam destinados a um triste fim têm uma nova vida numa antiga fábrica de tijolos.

À medida que o projecto foi ganhando notoriedade, várias pessoas foram entregando livros aos funcionários da câmara, e a biblioteca, que abriu em setembro, já tem uma colecção com mais de 6.000 livros.

O lugar dos livros não é no lixo - é longe dele. Não compreendo as pessoas que são capazes de os jogar fora. O lixo de uns é o tesouro de outros. Este caso teve um final feliz devido à lucidez e vontade destes funcionários que estão de parabéns. Se tiver livros que já não quer entregue-os na biblioteca municipal mais perto. Mesmo que estejam em mau estado, eles recuperam o melhor que podem e passam a estar disponíveis para outras pessoas, a quem possam inspirar e fazer companhia como já fizeram a si.

Outra hipótese é doar os livros a instituições juvenis, seniores, e outras; e ainda outra, é dá-los a projectos de caridade que façam rifas ou feirinhas para angariar dinheiro. Lembre-se: nada se perde, tudo se transforma!

Notícia aqui.



Ethan foi raptado quando tinha 7 anos. Brincava com o irmão mais novo à frente de casa quando um carro preto com dois homens parou e o levou. 9 anos depois, Ethan finalmente reaparece.

Ficamos a conhecer a sua história - foi criado por uma mulher como se esta fosse a sua mãe, que lhe deu tudo durante anos mas quando não conseguiu suportar financeiramente o "filho" o deixou numa instituição. Passado um ano, Ethan conseguiu fugir de lá e tornou-se um sem-abrigo. Tendo acesso a uma biblioteca devido à bondade do bibliotecário, descobriu-se a si próprio num site de crianças desaparecidas e voltou à sua família, para quem, compreensivelmente, foi tudo um grande choque.

O regresso à família foi tudo menos pacífico. Blake, o seu irmão que o viu entrar no carro, guarda graves ressentimentos por ele. Primeiro, porque não compreende porque é que entrou no carro de estranhos; e segundo, porque a partir do seu desaparecimento é como se ele próprio tivesse deixado de existir. A vida da família passou a girar em torno do desaparecimento de Ethan e Blake sentiu-se diminuído no meio da tragédia.

Gracie é a irmã mais nova que nunca chegou a conhecer e que veio preencher o vazio criado por si. Sendo um completo estranho para ela, a explicação sobre quem é e porque é que apareceu, porque é que vai morar naquela casa, ocupar um lugar à mesa, vai ser uma tremenda adaptação.

A relação com os pais também não vai ser fácil. Todos deixaram de se conhecer e é tudo uma novidade. Ethan passou por muito e os pais não sabem lidar com isso. A sua personalidade de quase adulto está formada e trata-se de acolher um estranho dentro de portas e lidar com os atritos entre irmãos, que se vão tornando cada vez maiores.

Ethan sofre - porque não consegue lidar com toda a atenção da comunicação social e da comunidade; porque, depois de ter vivido nas ruas vai ter de se habituar tanto às paredes que o afligem como às regras de viver em família; e principalmente porque não se consegue lembrar de nada da sua infância. Todos lhe perguntam se ele se lembra disto e daquilo, das idas à gelataria, das aventuras de trenó, das brincadeiras, mas a sua mente está completamente bloqueada. Numa fase inicial, pensa-se que tal se deve ao trauma por que passou, mas vai-se descortinando que é muito mais do que isso, culminando num final surpreendente.

Este livro, apesar de categorizado para um público juvenil, é adequado para todas as idades. Gostei bastante de o ler, tanto pela temática interessante como pela estrutura da narrativa, que tem muito de misteriosa e que nos prende até ao fim. Contado pela voz de Ethan, que é um adolescente, a sua linguagem é simples mas nunca simplista. As partidas da mente, as relações familiares, os traumas, a amizade, são aqui expostos, atingem-nos e não nos deixam indiferentes.

Morto Para Vocês
De: Lisa McMann
Ano: 2010
Editora: Everest
Páginas: 256

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.

Em São Paulo, em Vila Mariana, uma faculdade organizou uma biblioteca que está aberta todos os dias, a toda a hora. Não há paredes, vidros ou porteiros - todos são livres de passar por lá e escolher um livro.

A biblioteca comunitária está localizada à entrada da faculdade ESPM e foi inaugurada no passado dia 19 com um concerto tocado pelos alunos para chamar a atenção dos transeuntes. O projecto chama-se "Livro Livre" e não há prazos de devolução, papéis ou inscrições. Já são cerca de 2 mil livros disponíveis através de doações.

Uma óptima ideia organizada por alunos, e por cá apoiamos todos os projectos que espalhem o conhecimento e o amor pelos livros, especialmente os promovidos por aqueles que serão o nosso futuro.


As vidas de quatro homens são-nos narradas, neste livro ambientado nos anos 50 nos Estados Unidos, mais precisamente numa pequena terreola chamada Milan.

O livro começa com J. T. Malone, o farmacêutico da terra, homem simples de família, mas com algum ressentimento para com a mulher que se desenrasca melhor nos negócios do que ele. Sendo um homem da saúde, quando lhe é diagnosticada leucemia não quer acreditar. Pelo seu entendimento não passam de febres e outros males menores. Quando a realidade o atinge, a sua perspectiva da vida vai mudando, principalmente o modo como olha para o tempo.

O juíz Clane é um homem de idade avançada, que se julga a última bolacha do pacote em Milan - o promotor dos valores tradicionais que resiste ao avançar do tempo e das ideias. Fanfarrão, tendo-se em alta consideração, tem a tendência para só ouvir o que quer e ignorar o progresso. É-lhe impensável que, por exemplo, negros e brancos se misturem nas escolas e que criem qualquer outro laço que não seja o de patrão-criados.

Jester é o neto do juíz, criado por este depois do suicídio do pai. Apesar do juíz ser a sua única influência masculina, Jester, agora adolescente, pensa de forma completamente distinta. Não é só por dar por si a pensar nos homens de maneira diferente, de um modo proibido de acordo com tudo o que lhe foi ensinado; mas acredita na igualdade, que a maldade e a inteligência não surgem pré-definidas com a cor da pele. Isto provoca atritos com o avô, embora este finja não compreender ou minimize os seus devaneios liberais.

Sherman é um órfão negro detentor de uns olhos azuis fora do normal. Contratado para ser secretário do juíz, o que começa por ser uma relação de admiração mútua vai-se degradando até se tornar em incompressão e atrito, à medida que Sherman percebe que o idoso nunca o encarará como um igual, apesar dos seus modos e inteligência que considera dignos e fora de série tendo em conta a sua origem e cor da pele. Jester, da mesma idade, cria também uma relação tempestuosa com Sherman, que começa por ser de encantamento e atracção mas que passa por muita frustração. Sherman quer ser mais do que é, preserva as aparências, dá-se ares, criando uma distância entre ele e Jester que até faz o leitor implorar pelo baixar da guarda para poderem, pelo menos, ser amigos.

As vidas destes quatro homens vão-se cruzando no dia-a-dia de Milan e vamos dando conta delas. Numa época em que as diferenças raciais ou o papel da mulher são o assunto do momento, e em que a homosexualidade é simplesmente reprimida, estas histórias, que são simples na sua composição, são um veículo destas e de outras temáticas-chave. Através do entrecruzar dos relatos de quatro homens, é-nos apresentada toda uma sociedade, que é parcial, racista, resistente ao progresso, masculina, de visões curtas. Felizmente também vemos a esperança, aqui e ali, vislumbres da mudança que viria a marcar a evolução.

Tristemente, muita coisa que é dita neste relato dos anos 50 continua a ser ouvida hoje, o que mostra não só a actualidade do livro, como também a inércia das almas que habitam este planeta povoado de Velhos do Restelo. Parece que o tempo não avança como convém, que os relógios deles não têm ponteiros, que o tempo parou num segundo maligno.

A escrita é simples, directa, com diálogos assertivos mas com pontas de surrealidade marcados pelas personalidades vincadas das personagens, muito bem construídas. Fiquei curiosa para ler mais livros da autora.

Relógio Sem Ponteiros 
De: Carson McCullers
Ano: 1961
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 328

A nossa pontuação:  ★★★★☆
Disponível no site Wook.
De dia 01 a dia 03 de março o espaço associativo Mob vai realizar uma Feira do Livro Nocturna com imensas promoções ideais para adquirir mais uns títulos para a biblioteca pessoal.

Das 16h00 às 24h00 nas instalações do espaço na zona do Intendente em Lisboa todos os livros vão ter desconto. É uma excelente maneira de poupar e conhecer um pouco melhor o movimento social e comunitário do Mob. 

Podem saber mais sobre este evento (e outros bem interessantes!) na página do Facebook Mob - espaço associativo.



Um país acorda para um milagre. De um momento para o outro, os habitantes começam a rejuvenescer, em vez de envelhecer. As rugas desaparecem, a saúde melhora, a jovialidade reaparece, os cabelos vão readquirindo a cor. O povo rejubila, fica contente com o presente inesperado e inexplicável, mas só até perceber que se trata de um presente envenenado.

Primeiro, os bebés e crianças começam a desaparecer. Assim, puf. Como se nunca tivessem existido. A regressão da idade não tem limite, nem cura. Depois, surgiram as complicações no trabalho... Por exemplo, como confiar num ministro que agora aparenta ter 15 anos? E claro, surgiu um rol de questões mais burocráticas, como o que fazer com a idade da reforma, ou melhor, definir o que é a reforma, já que os velhos são os novos jovens, pois passaram a estar mais longe da morte. As profissões tiveram de se redefinir, porque, exemplificando, deixaram de existir lares de terceira idade para dar lugar a mais infantários.

E depois há a cobiça dos outros países... Todos querem um pedaço desta juventude, dádiva que só existe neste milagroso país. Guerras por petróleo ou religiosas são coisas do passado - aqui, luta-se pela fonte da juventude, pelo tempo.

Adorei esta ideia à la Benjamin Button e foi isso que me fez trazer o livro da biblioteca para casa. A narrativa está muito bem organizada - a perspectiva de algumas personagens é intercalada com textos escritos para jornais, revistas, publicitários, etc. É assim, em modo "informativo", que vamos sabendo o desenrolar da coisa e é um modo bastante original de escrever. O evoluir dos sentimentos em relação à dádiva é abismal - começa-se com uma alegria pura, que passa por cepticismo até começarem a chegar as verdadeiras preocupações.

O problema maior do livro são, para mim, as partes que acompanham as personagens específicas. Ao contrário das "notícias", a linguagem é rebuscada - tanto, que tive muitas dificuldades em acompanhá-las e a dado momento desisti. Elas são bastante estranhas, com hábitos e diálogos esquisitos, mas eu estou habituada a esquisitices e não é por aí. É mesmo não terem ponta por onde se lhes pegue. Portanto, tenho mixed feelings em relação ao livro, mas no cômputo geral o sentimento é positivo.

Envelhenescer
De: Pedro Chagas Freitas
Ano: 2017
Editora: Marcador
Páginas: 200

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.



Karan Seth é fotógrafo em Bombaim e por causa de um dos seus trabalhos foi "obrigado" a conviver com a socialite. Entrando pé ante pé num mundo dominado pelas estrelas de Bollywood, vê-se inserido em cenários de glamour, de pouca privacidade, de máscaras para a alma, onde, apesar do embaraço inicial e falta de pertença, faz bons amigos. Entre eles, Samar, um excêntrico pianista retirado antes dos 30 anos e Zaira, uma das actrizes mais respeitadas e bonitas do país.

No decorrer desta sua nova e inesperada vida, Karan também conhece Rhea, uma mulher casada com quem mantém uma relação conturbada cheia de altos e baixos, mas que o leva a conhecer alguns dos mais míticos, belos e desconhecidos locais para ele fotografar. Assim, partilham momentos únicos e poéticos, como a visão de milhares de flamingos que deu o título ao livro.

Karan não sabe se pertence àquele mundo, àquelas pessoas. Quando uma inesperada desgraça acontece e muda a dinâmica entre ele e os outros, e entre ele a cidade, e o mundo, deixa de se reconhecer, começa a ter comportamentos completamente fora do seu controlo e para recuperar de novo o seu eu vai ser necessária uma viagem interior gigantesca.

A prosa não é fácil - é demasiado trágica, os diálogos são um pouco inacreditáveis e longos, e o autor debruça-se, na minha opinião, demasiado tempo sobre acontecimentos mais triviais. No entanto há bastantes pontos positivos, como a exposição da Índia moderna, da alta sociedade, dos esquemas de corrupção, a exploração da sexualidade, as imagens poéticas criadas através da fotografia de Karan. Mostra ainda a fragilidade das relações e como podemos acabar de uma maneira muito diferente daquela que imaginámos.

Os Flamingos Perdidos de Bombaim
De: Siddharth Dhanvant Shanghvi
Ano: 2010
Editora: Livraria Civilização Editora
Páginas: 412

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.

Miguel está na casa dos 40 e tem Síndrome de Down. Quando os pais morrem, é o seu irmão que se chega à frente para ficar com ele, para o alívio das quatro irmãs, todas casadas e com filhos, com as suas vidas feitas e com pouco tempo para tomar conta de um adulto com necessidades especiais.

Ora este irmão, o narrador, apesar de ter tempo, não tem a proximidade de outros tempos com Miguel. Quando foi estudar para Lisboa afastou-se da família e tornou-se quase um estranho para ele. No entanto, os tempos da infância e da adolescência em que os dois se compreendiam como ninguém, embora se provocassem e enervassem mutuamente, falaram mais alto.

É-nos relatada uma história no tempo presente, quando os dois irmãos vão passar uns tempos à casa da família no Tojal, aldeia isolada do mundo, na esperança de acordar velhas memórias em Miguel que lhe tragam fantasmas da proximidade uma vez aí vivida, que os traga de novo para os abraços um do outro. Ao mesmo tempo, são-nos também entregues, intercaladamente, histórias do passado, das teimosias, das desavenças, das conversas e retaliações dos dois, mas também de um elemento que veio trazer muita angústia - a Luciana, também ela com problemas mentais, rapariga que se tornou a sua obsessão.

Em nenhum ponto da história o Miguel ou outro deficiente mental é caracterizado como sendo um coitadinho - pelo contrário, a igualidade com que o irmão o trata é bem capaz de chocar algumas pessoas e já vi leitores a criticar esse tratamento. Mas se por vezes dizemos o que tem de ser dito aos nossos amigos, irmãos, pais, colegas, mesmo que isso os magoe, não há razão para envergarmos uma máscara de filtos no tratamento para com os deficientes. Acho que eles o merecem - ser tratados com qualquer outra pessoa, mesmo que a paciência e a compressão tenham de ser a dobrar.

A relação entre os dois irmãos não é perfeita - longe disso - mas talvez por isso seja revestida de uma realidade que nos aumenta a crença. Juntos vão passar por muito, mesmo que isso signifique pouco para o Miguel em dadas circunstâncias e dada a sua obsessão por Luciana, numa viagem turbulenta, nada pacífica, mas cheia de amor.

Li o livro sem saber nada sobre o seu autor. Depois, descobri que foi vencedor do prémio Leya em 2014, por unanimidade. Afonso Reis Cabral tinha apenas 24 anos e foi o seu primeiro romance. É obra. Nunca adivinhei, pela maturidade da escrita e pela sua visão e modo de ver as coisas, a sua tenra idade. O rapaz é trineto de Eça de Queiroz, e talvez lhe corra algo nas veias. Adorei, foi a minha primeira grande descoberta do ano, e aconselho a todos.

O Meu Irmão
De: Afonso Reis Cabral
Ano: 2014
Editora: Leya
Páginas: 368

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível no site Wook.
Com a colaboração de escolas por toda a Europa, incluindo Portugal, foi construído este mapa literário com ilustrações dos melhores (ou mais representativos) livros infantis de cada país.

Em representação de Portugal, o escolhido foi Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

O resultado é fantástico, e fica a vénia pelo estímulo à leitura aos mais novos. O projecto incluiu também um mapa com a palavra "livro" traduzida nas várias línguas, e outras ilustrações que apelam à unidade e à magia de ler. Podem vê-las aqui.



Este livro fala sobre eventos que ocorreram na década de 80 na Coreia do Sul. Perante o fecho de universidades num regime que reduzia ao máximo a liberdade de expressão, os estudantes foram para as ruas manifestar-se. Em Gwangju as coisas saíram do controlo, e tanto os estudantes como a restante população que se lhes juntou foram gravemente reprimidos, mortos em plena via pública, onde os cadáveres depressa se amontoaram e as ruas se transformaram num cenário de guerra.

Os que escaparam da morte ou ficaram gravemente feridos, ou foram presos e posteriormente torturados, ou foram perseguidos, naquele que ficou conhecido como o Massacre de Gwangju. Mais manifestações se seguiram, mais repressão, mais indignação, mais medo, mais mortes, e ainda hoje o número de mortes não está contabilizado.

A autora centrou-se em Dong-ho, uma vítima real desses eventos. Ele vê o seu melhor amigo morrer na primeira manifestação. Ao procurar o seu cadáver num dos locais onde foram amontoados para identificação por parte das famílias, conhece pessoas motivadas a mudar o rumo das coisas e dispostas a morrer em prol da liberdade. Junto delas, vai explorar o seu íntimo e sentir coisas que nunca sentiu ao ver os corpos e a ajudar aquelas famílias e amigos que não compreendem as mortes e que sentem medo e têm dúvidas sem resposta.

Dong-ho morre (não é um spoiler, sabemo-lo logo), sendo mais uma vítima da brutalidade de Gwangju. Os capítulos estão muitíssimo bem estruturados, cada um centrado numa pessoa e numa época. No entanto, todos se cruzam com Dong-ho, e essa mestria no cruzamento das histórias contadas por várias pessoas é a melhor parte do livro. Os meus capítulos preferidos são dois: o que é contado na perspectiva do amigo morto de Dong-ho, em que a sua alma relata o horror dos corpos empilhados à sua volta, no seio da putrefacção e do caos das almas em dúvida; e o contado pela voz da mãe de Dong-ho, que dá voltas e voltas à cabeça mas que acaba sempre por se culpar pela sua morte, sem no entanto lhe encontrar qualquer justificação, ao mesmo tempo que vê a família desmoronar.

É um livro cru que relata eventos macabros e que são uma mancha negra na História. Para mim, peca por, em algumas partes, ser um bocado frio. Também me perdi um pouco em alguns dos capítulos. Demorei um tempo a perceber qual era o envolvimento com Dong-ho, e por isso a minha leitura não foi fluída, mas antes um pouco preocupada em apanhar o fio à meada. Também achei falta de um capítulo dedicado àqueles que estavam do outro lado, mas que não tinham qualquer alternativa. São mencionados brevemente no fim do livro, mas senti a necessidade de também saber mais sobre eles - os homens obrigados a matar, a bater, os que se recusaram e sofreram das mesmas consequências.

Não deixa de ser um óptimo livro que, embora com alguma ficção à mistura, é um relato histórico fantástico e chocante.

Atos Humanos
De: Han Kang
Ano: 2014
Editora: Dom Quixote
Páginas: 232

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Lisboa respira cultura e foi poiso de alguns dos mais importantes escritores lusitanos. Em fevereiro vão existir passeios literários pela cidade que são uma celebração da herança que eles nos deixaram e uma lembrança dos seus caminhos.

Dia 9 será celebrado José Saramago com um passeio que começa no Largo São Domingos e que termina na Casa dos Bicos. Nos dias 10 e 27 a atenção vai para Fernando Pessoa num percurso que vai desde o Largo de São Carlos até ao Martinho da Arcada. A figura central do dia 23 é Camões, num passeio que vai desde o Largo de Camões ao Pátio do Tijolo.

Prometem-se muitas curiosidades e aprendizagem, nesta ideia que é uma viagem fantástica pela nossa cultura. Aproveite e inscreva-se através do email lisboa.cultural@cm-lisboa.pt.
Mais no site da Timeout.




Susan Fletcher está à frente do departamento de criptologia da NSA (National Security Agency) e num sábado recebe uma chamada devido a uma emergência no trabalho. Uma vez na NSA, o seu director, Strathmore, conta-lhe algo que sempre pensou ser impossível: o descodificador mais poderoso do mundo, que interpreta todas as comunicações digitais codificadas, mesmo as mais difíceis, em questão de segundos ou poucos minutos, encontrou um código que não consegue descodificar.

Strathmore conta-lhe ainda que sabe a origem deste código impossível: um brilhante ex-criptógrafo da NSA, que se interpôs contra a empresa defendendo o direito de todos à privacidade online, e portanto atacando aquele descodificador universal, arranjou aquela forma de se "vingar". Assim, criou aquele código impossível com o objectivo de vendê-lo à melhor oferta, ameaçando a capacidade da NSA de continuar a decifrar e a manter segredos sobre tudo e todos.

Para complicar tudo, esse ex-criptógrafo apareceu morto em Espanha nessa mesma manhã - antes de poder dar a chave para libertar o ficheiro e fazer desaparecer a ameaça. Strathmore conta com a ajuda de Susan para entrar na mente do falecido e dar a volta àquele código.

Isto é apenas o início dos inícios, e vou abster-me de contar mais desta história porque não iria conseguir parar - cada pequeno evento dá origem a centenas deles e não iria parar de enunciá-los para fazerem sentido.

Costuma dizer-se que ler Dan Brown é sempre a mesma coisa, e em nenhuma das vezes conseguimos pôr o livro de lado. Foi mais ou menos isso o que se passou comigo neste livro. Não lia Dan Brown desde a adolescência e é exactamente assim que me lembro da sua escrita - decorrendo a um ritmo vertiginoso, sem tempo para respirar, com reviravoltas atrás de cada página e com suspense até ao fim. Só que os voltefaces são tantos que uma pessoa já consegue imaginar o pior cenário possível logo à partida, e que, no meu caso, acabou por se verificar e eliminar o elemento surpresa.

A meu ver, há demasiados pormenores que tornam este livro inverosímil e outros tantos desnecessários que tornam os diálogos e as situações absurdas. A minha pontuação é positiva pelo talento do autor em manter o suspense - nisso poucos o batem. Dei por mim já desinteressada do assunto mas a querer saber na mesma o que se passa a seguir. É talvez o livro mais fraco que li do autor.

Fortaleza Digital
De: Dan Brown
Ano: 1998
Editora: 11x17
Páginas: 576

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Olhem que ténis mais lindos para os leitores. Já que ando sempre de livro na mão, era lindo andar também com eles nos pés. Não são baratos, mas fica registado que o meu número é o 36. Não se acanhem!


Se mora em Coimbra ou se vai passear por lá este sábado dia 27 de janeiro, aproveite para fazer parte da iniciativa Feira do Livro Dado, pela Casa da Esquina.

A ideia é levar os livros que já não quer e trocar por outros. Para além de proporcionar novas leituras a todos, sem custos, é uma excelente forma de aumentar o tempo de vida dos livros.

Serão livros de todos os géneros - ficção, livros técnicos, banda desenhada, livros infantis... - e para todas as idades, que poderá trocar na Casa da Esquina, no dia 27 de janeiro, entre as 10h00 e as 19h00.

Consulte o evento no Facebook.



Os movimentos #TimesUp  e #MeToo têm dado muito que falar nos últimos tempos. A defesa dos Direitos das Mulheres (palavras capitalizadas pelas vozes que se erguem ), exposta e publicitada nas redes sociais e restantes meios de comunicação, está a abalar os pilares de Hollywood. Igualdade, respeito, honra, valorização, reconhecimento... palavras que já deviam andar lado a lado com a palavra Mulher começam agora a ser bastiões da mudança em direcção a uma sociedade mais completa e equilibrada.

Por isto, não haverá melhor momento do que este para ler (ou reler) "A Letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne. Um dos maiores clássicos da literatura e que nos conta a história de Hester Prynne, uma mulher que é condenada a usar a letra "A" escarlate no peito como pena por ter cometido adultério. Hester está grávida mas recusa-se a dizer quem é o pai e por isso carrega sozinha nos seus ombros o peso da vergonha e no seu peito a marca do pecado.

Nathaniel Hawthorne leva-nos a Salem no século XVII e a uma sociedade puritana e colonial onde qualquer desvio social era um pecado merecedor da maior humilhação. Hester foi ostracizada, juntamente com a criança que nasceu do adultério, Pearl. Ao longo da narrativa assistimos à luta de Hester em defesa da réstia de honra que a humilhação social não lhe roubou, enquanto a sua filha cresce no seio do estigma social de ser o fruto do pecado. Haverá esperança de redenção? Será que algum dia vão parar de apontar dedos cheios de ódio alimentado pelo extremismo religioso? Já alguém sábio contava que "o inferno são os outros"...

Pode dizer-se que Hester nasceu na pior das épocas no que diz respeito à desigualdade de género e preconceitos sociais, mas a verdade é que, apesar das conquistas feitas ao longo da história, ainda  e tristemente conseguimos ver tanto de actual na sua vida que parece que o tanto que mudou ainda está longe de ser o bastante. 

As mulheres continuam a temer represálias sociais se disserem que foram assediadas por homens poderosos e eloquentes, tal como Hester temeu acrescidas represálias quando lhe foi pedido para confessar quem era o pai da criança. No entanto, tal como Hester, chegou o momento das mulheres recusarem as imposições sociais e os julgamentos. Chegou o momento de fincar o pé e subir o tom de voz para que se saiba que acabou o tempo das humilhações e do medo.

Juntem-se as vozes, o silêncio acabou.

Letra Escarlate (eBook The Scarlet Letter)
De: Nathaniel Hawthorne
Ano: 1850 (edição 2015)
Editora: Wisehouse Classics
Páginas: 161
A nossa pontuação: ★★★★★

Disponível em eBook gratuito no site da Amazon




Eu. Praia. Sol. Areia... E vento... Uma pessoa já tem os bracinhos dormentes de segurar o livro, pouso-o e eis que uma rabanada de vento vem e lá avançam as páginas sem pedir licença.

Mas agora que vi esta coisa portátil que mantém o livro aberto, a minha vida mudou! Que jeitaço! Uma coisa tão simples! Porque é que só o descobri agora?