Bruce Delamitri é um famoso e talentoso realizador de Hollywood, conhecido pelos seus filmes violentos, sádicos, crus e negros. Ele é muito confiante e seguro de si e vai ter de usar toda a sua sapiência e paciência nos constantes ataques de que é vítima, especialmente por parte da comunicação social, que frequentemente o acusa de inspirar a violência.
Quando um casal começa a matar indiscriminadamente pessoas em centros comerciais, logo começam as comparações com os filmes de Bruce e a discussão sobre a violência no cinema vem ao de cima, colocando-o debaixo de fogo. Defendendo que os filmes são um reflexo da sociedade violenta e não o contrário, ele vai gastar o seu latim a tentar explicar a sua visão.
Na noite de entrega dos Óscares, todos os holofotes apontam para Bruce. No entanto, uma noite de festa está prestes a transformar-se em tragédia quando os Assassinos dos Centros Comerciais entram em acção, preparando-se para a carnifina mais mediática das suas carreiras de matança. Entrando numa espiral caótica de uma confusão sem precedentes, a vida de Bruce e dos seus mais próximos está prestes a mudar para sempre.
Adorei este livro. Para além da narrativa fantástica, da história mirabolante e da acção constante, é bastante inovador no modo como é escrito. Por exemplo, a prosa por vezes é entrecortada por partes de um guião, como se a história que estamos a ler fizesse parte de um filme, com descrições sobre o set, os actores ou o ambiente, com pormenores das perspectivas das câmaras, exactamente como se estivessemos a assistir às filmagens. Isto é uma completa lufada de ar fresco no modo de ler.
Para além disso, a crítica à sociedade é uma constante, abrangendo o modo como a comunicação social manda nas nossas vidas e nos influencia e molda. O glamour de Hollywood também é posto à prova, mostrando uma comunidade de aparências e superficialidades. Acima de tudo, o livro explora uma sociedade em que a culpa nunca é de ninguém, em que as responsabilidades são sacudidas por egos cada vez maiores que se preocupam apenas com eles próprios.
Ben Elton é comediante e isso também está patente nas páginas do livro. É violento, sim, mas é muito engraçado. Com um humor negro requintado, irónico, este é um dos livros que mais me entreteve e fez rir, com situações a roçar o ridículo, sem no entanto se desviar assim tanto da realidade.
Popcorn
De: Ben Elton
Ano: 2003
Editora: Livros do Brasil
Páginas: 254
A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Paulo Coelho dá-nos um relato da vida de Mata Hari, na primeira pessoa. Dividido em três partes, o livro agarra-nos logo à partida começando com a sua execução, após ter sido condenada à morte por ser considerada uma espia.
A segunda parte é uma carta da própria para o seu advogado e é aqui que se encontra todo o sumo. Ficamos a saber de onde veio, por onde passou, até ter chegado a Paris sem absolutamente nada e como se tornou uma figura importante, uma das mulheres mais desejadas e invejadas da época. Dançarina exótica, amante de homens importantes, na vanguarda da moda, Mata Hari foi seguramente um espírito demasiado livre para a época em que viveu e pagou o preço por isso. Num ambiente tenso que precedeu a primeira guerra mundial, ela lucrou, enfrentou intempéries e, mais do que tudo, fez pela sua própria sobrevivência.
É uma história de vida incrível, de uma mulher incrível. Se ela tivesse vivido nos dias de hoje o seu fim teria sido outro, e a própria sabia isso. Vítima das circunstâncias, apanhada pela sua própria desenvoltura, o seu destino soa a injustiça - decidido por aqueles que não a conseguiam acompanhar e compreender.
A terceira parte é a resposta do advogado (também ele um antigo amante) quando já se sabia que ela ia ser executada. Não é um capítulo tão emotivo e emocionante, é quase burocrático. Pela parte que me toca, não era necessária esta visão. Dá-nos algumas respostas, mas podiam ter sido introduzidas de outra forma.
No geral, gostei bastante do livro. Tenho mixed feelings em relação ao Paulo Coelho, mas até costumo gostar dos seus livros menos fantasiosos e com os pés mais assentes no chão, como é o caso. Escrever sobre uma das mais conhecidas mulheres que marcou o início do século XX é difícil e fácil ao mesmo tempo - a vida dela é do mais interessante que pode haver e há muito material para nos deixar abismados; no entanto, a "arrumação" da informação, a pesquisa, a organização do trabalho, e a voz a usar não são nada fáceis de desencantar, e nisso acho que Paulo Coelho acertou. O livro é também acompanhado de algumas fotografias marcantes.
A Espia
De: Paulo Coelho
Ano: 2016
Editora: Pergaminho
Páginas: 184
A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
A segunda parte é uma carta da própria para o seu advogado e é aqui que se encontra todo o sumo. Ficamos a saber de onde veio, por onde passou, até ter chegado a Paris sem absolutamente nada e como se tornou uma figura importante, uma das mulheres mais desejadas e invejadas da época. Dançarina exótica, amante de homens importantes, na vanguarda da moda, Mata Hari foi seguramente um espírito demasiado livre para a época em que viveu e pagou o preço por isso. Num ambiente tenso que precedeu a primeira guerra mundial, ela lucrou, enfrentou intempéries e, mais do que tudo, fez pela sua própria sobrevivência.
É uma história de vida incrível, de uma mulher incrível. Se ela tivesse vivido nos dias de hoje o seu fim teria sido outro, e a própria sabia isso. Vítima das circunstâncias, apanhada pela sua própria desenvoltura, o seu destino soa a injustiça - decidido por aqueles que não a conseguiam acompanhar e compreender.
A terceira parte é a resposta do advogado (também ele um antigo amante) quando já se sabia que ela ia ser executada. Não é um capítulo tão emotivo e emocionante, é quase burocrático. Pela parte que me toca, não era necessária esta visão. Dá-nos algumas respostas, mas podiam ter sido introduzidas de outra forma.
No geral, gostei bastante do livro. Tenho mixed feelings em relação ao Paulo Coelho, mas até costumo gostar dos seus livros menos fantasiosos e com os pés mais assentes no chão, como é o caso. Escrever sobre uma das mais conhecidas mulheres que marcou o início do século XX é difícil e fácil ao mesmo tempo - a vida dela é do mais interessante que pode haver e há muito material para nos deixar abismados; no entanto, a "arrumação" da informação, a pesquisa, a organização do trabalho, e a voz a usar não são nada fáceis de desencantar, e nisso acho que Paulo Coelho acertou. O livro é também acompanhado de algumas fotografias marcantes.
A Espia
De: Paulo Coelho
Ano: 2016
Editora: Pergaminho
Páginas: 184
A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Em Ancara, na Turquia, os homens responsáveis pela recolha do lixo começaram a guardar os livros que por lá encontravam. A ideia era que fossem para uso próprio e das suas famílias, mas a quantidade começou a aumentar e várias pessoas começaram a participar, e com o apoio da Câmara, os livros que estavam destinados a um triste fim têm uma nova vida numa antiga fábrica de tijolos.
À medida que o projecto foi ganhando notoriedade, várias pessoas foram entregando livros aos funcionários da câmara, e a biblioteca, que abriu em setembro, já tem uma colecção com mais de 6.000 livros.
O lugar dos livros não é no lixo - é longe dele. Não compreendo as pessoas que são capazes de os jogar fora. O lixo de uns é o tesouro de outros. Este caso teve um final feliz devido à lucidez e vontade destes funcionários que estão de parabéns. Se tiver livros que já não quer entregue-os na biblioteca municipal mais perto. Mesmo que estejam em mau estado, eles recuperam o melhor que podem e passam a estar disponíveis para outras pessoas, a quem possam inspirar e fazer companhia como já fizeram a si.
Outra hipótese é doar os livros a instituições juvenis, seniores, e outras; e ainda outra, é dá-los a projectos de caridade que façam rifas ou feirinhas para angariar dinheiro. Lembre-se: nada se perde, tudo se transforma!
Notícia aqui.
À medida que o projecto foi ganhando notoriedade, várias pessoas foram entregando livros aos funcionários da câmara, e a biblioteca, que abriu em setembro, já tem uma colecção com mais de 6.000 livros.
O lugar dos livros não é no lixo - é longe dele. Não compreendo as pessoas que são capazes de os jogar fora. O lixo de uns é o tesouro de outros. Este caso teve um final feliz devido à lucidez e vontade destes funcionários que estão de parabéns. Se tiver livros que já não quer entregue-os na biblioteca municipal mais perto. Mesmo que estejam em mau estado, eles recuperam o melhor que podem e passam a estar disponíveis para outras pessoas, a quem possam inspirar e fazer companhia como já fizeram a si.
Outra hipótese é doar os livros a instituições juvenis, seniores, e outras; e ainda outra, é dá-los a projectos de caridade que façam rifas ou feirinhas para angariar dinheiro. Lembre-se: nada se perde, tudo se transforma!
Notícia aqui.
Ethan foi raptado quando tinha 7 anos. Brincava com o irmão mais novo à frente de casa quando um carro preto com dois homens parou e o levou. 9 anos depois, Ethan finalmente reaparece.
Ficamos a conhecer a sua história - foi criado por uma mulher como se esta fosse a sua mãe, que lhe deu tudo durante anos mas quando não conseguiu suportar financeiramente o "filho" o deixou numa instituição. Passado um ano, Ethan conseguiu fugir de lá e tornou-se um sem-abrigo. Tendo acesso a uma biblioteca devido à bondade do bibliotecário, descobriu-se a si próprio num site de crianças desaparecidas e voltou à sua família, para quem, compreensivelmente, foi tudo um grande choque.
O regresso à família foi tudo menos pacífico. Blake, o seu irmão que o viu entrar no carro, guarda graves ressentimentos por ele. Primeiro, porque não compreende porque é que entrou no carro de estranhos; e segundo, porque a partir do seu desaparecimento é como se ele próprio tivesse deixado de existir. A vida da família passou a girar em torno do desaparecimento de Ethan e Blake sentiu-se diminuído no meio da tragédia.
Gracie é a irmã mais nova que nunca chegou a conhecer e que veio preencher o vazio criado por si. Sendo um completo estranho para ela, a explicação sobre quem é e porque é que apareceu, porque é que vai morar naquela casa, ocupar um lugar à mesa, vai ser uma tremenda adaptação.
A relação com os pais também não vai ser fácil. Todos deixaram de se conhecer e é tudo uma novidade. Ethan passou por muito e os pais não sabem lidar com isso. A sua personalidade de quase adulto está formada e trata-se de acolher um estranho dentro de portas e lidar com os atritos entre irmãos, que se vão tornando cada vez maiores.
Ethan sofre - porque não consegue lidar com toda a atenção da comunicação social e da comunidade; porque, depois de ter vivido nas ruas vai ter de se habituar tanto às paredes que o afligem como às regras de viver em família; e principalmente porque não se consegue lembrar de nada da sua infância. Todos lhe perguntam se ele se lembra disto e daquilo, das idas à gelataria, das aventuras de trenó, das brincadeiras, mas a sua mente está completamente bloqueada. Numa fase inicial, pensa-se que tal se deve ao trauma por que passou, mas vai-se descortinando que é muito mais do que isso, culminando num final surpreendente.
Este livro, apesar de categorizado para um público juvenil, é adequado para todas as idades. Gostei bastante de o ler, tanto pela temática interessante como pela estrutura da narrativa, que tem muito de misteriosa e que nos prende até ao fim. Contado pela voz de Ethan, que é um adolescente, a sua linguagem é simples mas nunca simplista. As partidas da mente, as relações familiares, os traumas, a amizade, são aqui expostos, atingem-nos e não nos deixam indiferentes.
Morto Para Vocês
De: Lisa McMann
Ano: 2010
Editora: Everest
Páginas: 256
A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Em São Paulo, em Vila Mariana, uma faculdade organizou uma biblioteca que está aberta todos os dias, a toda a hora. Não há paredes, vidros ou porteiros - todos são livres de passar por lá e escolher um livro.
A biblioteca comunitária está localizada à entrada da faculdade ESPM e foi inaugurada no passado dia 19 com um concerto tocado pelos alunos para chamar a atenção dos transeuntes. O projecto chama-se "Livro Livre" e não há prazos de devolução, papéis ou inscrições. Já são cerca de 2 mil livros disponíveis através de doações.
Uma óptima ideia organizada por alunos, e por cá apoiamos todos os projectos que espalhem o conhecimento e o amor pelos livros, especialmente os promovidos por aqueles que serão o nosso futuro.
A biblioteca comunitária está localizada à entrada da faculdade ESPM e foi inaugurada no passado dia 19 com um concerto tocado pelos alunos para chamar a atenção dos transeuntes. O projecto chama-se "Livro Livre" e não há prazos de devolução, papéis ou inscrições. Já são cerca de 2 mil livros disponíveis através de doações.
Uma óptima ideia organizada por alunos, e por cá apoiamos todos os projectos que espalhem o conhecimento e o amor pelos livros, especialmente os promovidos por aqueles que serão o nosso futuro.
As vidas de quatro homens são-nos narradas, neste livro ambientado nos anos 50 nos Estados Unidos, mais precisamente numa pequena terreola chamada Milan.O livro começa com J. T. Malone, o farmacêutico da terra, homem simples de família, mas com algum ressentimento para com a mulher que se desenrasca melhor nos negócios do que ele. Sendo um homem da saúde, quando lhe é diagnosticada leucemia não quer acreditar. Pelo seu entendimento não passam de febres e outros males menores. Quando a realidade o atinge, a sua perspectiva da vida vai mudando, principalmente o modo como olha para o tempo.
O juíz Clane é um homem de idade avançada, que se julga a última bolacha do pacote em Milan - o promotor dos valores tradicionais que resiste ao avançar do tempo e das ideias. Fanfarrão, tendo-se em alta consideração, tem a tendência para só ouvir o que quer e ignorar o progresso. É-lhe impensável que, por exemplo, negros e brancos se misturem nas escolas e que criem qualquer outro laço que não seja o de patrão-criados.
Jester é o neto do juíz, criado por este depois do suicídio do pai. Apesar do juíz ser a sua única influência masculina, Jester, agora adolescente, pensa de forma completamente distinta. Não é só por dar por si a pensar nos homens de maneira diferente, de um modo proibido de acordo com tudo o que lhe foi ensinado; mas acredita na igualdade, que a maldade e a inteligência não surgem pré-definidas com a cor da pele. Isto provoca atritos com o avô, embora este finja não compreender ou minimize os seus devaneios liberais.
Sherman é um órfão negro detentor de uns olhos azuis fora do normal. Contratado para ser secretário do juíz, o que começa por ser uma relação de admiração mútua vai-se degradando até se tornar em incompressão e atrito, à medida que Sherman percebe que o idoso nunca o encarará como um igual, apesar dos seus modos e inteligência que considera dignos e fora de série tendo em conta a sua origem e cor da pele. Jester, da mesma idade, cria também uma relação tempestuosa com Sherman, que começa por ser de encantamento e atracção mas que passa por muita frustração. Sherman quer ser mais do que é, preserva as aparências, dá-se ares, criando uma distância entre ele e Jester que até faz o leitor implorar pelo baixar da guarda para poderem, pelo menos, ser amigos.
As vidas destes quatro homens vão-se cruzando no dia-a-dia de Milan e vamos dando conta delas. Numa época em que as diferenças raciais ou o papel da mulher são o assunto do momento, e em que a homosexualidade é simplesmente reprimida, estas histórias, que são simples na sua composição, são um veículo destas e de outras temáticas-chave. Através do entrecruzar dos relatos de quatro homens, é-nos apresentada toda uma sociedade, que é parcial, racista, resistente ao progresso, masculina, de visões curtas. Felizmente também vemos a esperança, aqui e ali, vislumbres da mudança que viria a marcar a evolução.
Tristemente, muita coisa que é dita neste relato dos anos 50 continua a ser ouvida hoje, o que mostra não só a actualidade do livro, como também a inércia das almas que habitam este planeta povoado de Velhos do Restelo. Parece que o tempo não avança como convém, que os relógios deles não têm ponteiros, que o tempo parou num segundo maligno.
A escrita é simples, directa, com diálogos assertivos mas com pontas de surrealidade marcados pelas personalidades vincadas das personagens, muito bem construídas. Fiquei curiosa para ler mais livros da autora.
Relógio Sem Ponteiros
De: Carson McCullers
Ano: 1961
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 328
A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
De dia 01 a dia 03 de março o espaço associativo Mob vai realizar uma Feira do Livro Nocturna com imensas promoções ideais para adquirir mais uns títulos para a biblioteca pessoal.
Das 16h00 às 24h00 nas instalações do espaço na zona do Intendente em Lisboa todos os livros vão ter desconto. É uma excelente maneira de poupar e conhecer um pouco melhor o movimento social e comunitário do Mob.
Podem saber mais sobre este evento (e outros bem interessantes!) na página do Facebook Mob - espaço associativo.
Um país acorda para um milagre. De um momento para o outro, os habitantes começam a rejuvenescer, em vez de envelhecer. As rugas desaparecem, a saúde melhora, a jovialidade reaparece, os cabelos vão readquirindo a cor. O povo rejubila, fica contente com o presente inesperado e inexplicável, mas só até perceber que se trata de um presente envenenado.
Primeiro, os bebés e crianças começam a desaparecer. Assim, puf. Como se nunca tivessem existido. A regressão da idade não tem limite, nem cura. Depois, surgiram as complicações no trabalho... Por exemplo, como confiar num ministro que agora aparenta ter 15 anos? E claro, surgiu um rol de questões mais burocráticas, como o que fazer com a idade da reforma, ou melhor, definir o que é a reforma, já que os velhos são os novos jovens, pois passaram a estar mais longe da morte. As profissões tiveram de se redefinir, porque, exemplificando, deixaram de existir lares de terceira idade para dar lugar a mais infantários.
E depois há a cobiça dos outros países... Todos querem um pedaço desta juventude, dádiva que só existe neste milagroso país. Guerras por petróleo ou religiosas são coisas do passado - aqui, luta-se pela fonte da juventude, pelo tempo.
Adorei esta ideia à la Benjamin Button e foi isso que me fez trazer o livro da biblioteca para casa. A narrativa está muito bem organizada - a perspectiva de algumas personagens é intercalada com textos escritos para jornais, revistas, publicitários, etc. É assim, em modo "informativo", que vamos sabendo o desenrolar da coisa e é um modo bastante original de escrever. O evoluir dos sentimentos em relação à dádiva é abismal - começa-se com uma alegria pura, que passa por cepticismo até começarem a chegar as verdadeiras preocupações.
O problema maior do livro são, para mim, as partes que acompanham as personagens específicas. Ao contrário das "notícias", a linguagem é rebuscada - tanto, que tive muitas dificuldades em acompanhá-las e a dado momento desisti. Elas são bastante estranhas, com hábitos e diálogos esquisitos, mas eu estou habituada a esquisitices e não é por aí. É mesmo não terem ponta por onde se lhes pegue. Portanto, tenho mixed feelings em relação ao livro, mas no cômputo geral o sentimento é positivo.
Envelhenescer
De: Pedro Chagas Freitas
Ano: 2017
Editora: Marcador
Páginas: 200
A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Karan Seth é fotógrafo em Bombaim e por causa de um dos seus trabalhos foi "obrigado" a conviver com a socialite. Entrando pé ante pé num mundo dominado pelas estrelas de Bollywood, vê-se inserido em cenários de glamour, de pouca privacidade, de máscaras para a alma, onde, apesar do embaraço inicial e falta de pertença, faz bons amigos. Entre eles, Samar, um excêntrico pianista retirado antes dos 30 anos e Zaira, uma das actrizes mais respeitadas e bonitas do país.
No decorrer desta sua nova e inesperada vida, Karan também conhece Rhea, uma mulher casada com quem mantém uma relação conturbada cheia de altos e baixos, mas que o leva a conhecer alguns dos mais míticos, belos e desconhecidos locais para ele fotografar. Assim, partilham momentos únicos e poéticos, como a visão de milhares de flamingos que deu o título ao livro.
Karan não sabe se pertence àquele mundo, àquelas pessoas. Quando uma inesperada desgraça acontece e muda a dinâmica entre ele e os outros, e entre ele a cidade, e o mundo, deixa de se reconhecer, começa a ter comportamentos completamente fora do seu controlo e para recuperar de novo o seu eu vai ser necessária uma viagem interior gigantesca.
A prosa não é fácil - é demasiado trágica, os diálogos são um pouco inacreditáveis e longos, e o autor debruça-se, na minha opinião, demasiado tempo sobre acontecimentos mais triviais. No entanto há bastantes pontos positivos, como a exposição da Índia moderna, da alta sociedade, dos esquemas de corrupção, a exploração da sexualidade, as imagens poéticas criadas através da fotografia de Karan. Mostra ainda a fragilidade das relações e como podemos acabar de uma maneira muito diferente daquela que imaginámos.
Os Flamingos Perdidos de Bombaim
De: Siddharth Dhanvant Shanghvi
Ano: 2010
Editora: Livraria Civilização Editora
Páginas: 412
A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.














