É imensamente difícil escrever sobre viagens, tornar a nossa experiência uma experiência para os outros, muitos que nunca lá estiveram. Que só conhecem aquilo de que estamos a falar das fotografias das revistas ou de reportagens esporádicas. Ou nem isso. É difícil interessar o leitor por ruas e por cheiros que ele nunca viu ou sentiu, mesmo que a curiosidade seja aguçada, e prendê-lo num livro inteiro.

Mas estamos a falar do José Luis Peixoto. Se há alguém que consegue, é ele. E conseguiu. Comecei a medo. Temia que a narrativa que aborda as suas viagens à Tailândia me deixasse distante, mais distante do que os quilómetros que nos separam daquele país. Foi devagarinho, mas fui mergulhando mais e mais, até não restar nada de mim à tona. Nunca pensei.

Não é uma viagem com princípio, meio e fim. Não é uma mera descrição das pessoas e das coisas. É a maneira como ele tudo vê, o modo como partilha - como se fosse nosso amigo íntimo - é um diário de pormenores impensáveis. E não é só Tailândia, absolutamente. É encontrar a cada esquina um laço que abre uma porta para algo que se passou na infância, no Alentejo, ou na adolescência, nas primeiras cervejas no Bairro Alto. É uma passagem por Las Vegas; ou algo que o faz lembrar os filhos, ou a mulher, ou a mãe, ou o pai.

Não esperava gostar tanto deste livro. Não esperava aprender tanto, emocionar-me tanto. Sim, é uma viagem, mas é uma vida inteira. E um caminho, que tal como nos é dito no início, que também faz parte da viagem. Que ainda não acabou.

O Caminho Imperfeito
De: José Luís Peixoto
Ano: 2017
Editora: Quetzal
Páginas: 192

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível no site Wook.


... fica a vontade de ficarmos aninhados no sofá a ouvir a chuva e a ler um bom livro enquanto o cheiro do café quente nos aquece a alma.

Ambientada nos anos 40, na América provinciana, a narrativa conta os 22 anos de vida de Lucy Nelson. Conhecêmo-la em pequena, no seio de uma família pouco funcional onde o pai é álcoolico e pouco presente e a mãe permissiva e fraca. Moram na casa dos avós de Lucy, e durante anos ela vê também o avô tudo perdoar ao seu pai, dando-lhe novas oportunidades vezes sem conta, prolongando o sofrimento de todos.

Lucy cresceu neste ambiente e a sua tendência é para achar que todos os homens necessitam de "intervenção", desconfiando sempre das suas acções e motivações. Quando conhece Roy, por quem tem uma paixoneta, esses sentimentos afloram e fazem-na acreditar que ele não é nem nunca será um homem a cem por cento.

No entanto, antes de conseguir dispensá-lo da sua vida, engravida. E aí a sua maldição começa, ao ver-se presa a um homem que não respeita, e à família dele, que passa a odiar, com todas as suas opiniões descabidas e as diferentes formas de se meterem na sua vida e dizer-lhe o que fazer.

O casal tenta levar uma vida normal, mas a raiva crescente de Lucy para com o mundo, que se materializa contra o marido, impede-os de ser felizes. Ela torna-se insuportável, impertinente, agressiva, como se todos os problemas do mundo lhe pesassem nos ombros e fossem culpa dos homens da sua vida.

Esta é uma das melhores construções de personagem que já li. Temos tudo, desde o seu background, passando por todos os pormenores que faziam antever a sua personalidade até ao descambar total de uma agressividade fora de série. Tudo isto feito de forma muito subtil, e só no fim nos questionamos como é que aquela pequena se tornou naquela mulher odiosa.

É uma história dramática, realista, sem artifícios, baseada nos sentimentos mais crus do ser humano. O nosso sentimento também muda - ao início sentimos a pena, a comiseração pela vida daquela miúda, mas quando acabamos o livro tudo isso ficou no passado. A escrita brilhante de Roth tem essa magia, e está a tornar-se rapidamente num dos meus autores favoritos.

Quando Ela Era Boa
De: Philip Roth
Ano: 1966
Editora: Dom Quixote
Páginas: 360

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Bom dia!😁



O narrador é Jeremiah Salinger, um autor de documentários, que se muda de Nova Iorque para as montanhas do Sul do Tirol, onde a esposa cresceu, com esta e a filha de 5 anos.

Depressa o ambiente das montanhas o afecta e inspira, e mete-se num projecto para documentar uma equipa de resgate e ajuda. Até ao dia em que um grave acidente acontece, e Salinger, vendo-se no meio da embrulhada e sentindo-se culpado, sofre de stress pós-traumático e nunca mais será o mesmo.

No entanto, e como o seu espírito curioso nunca adormece, depara-se com a informação de que um crime muito violento aconteceu naquelas montanhas há 30 anos, e que nunca foi resolvido. Salinger agarra-se a este mistério como se fosse uma tábua de salvação para o seu estado quase catatónico e começa a investigar por conta própria. Não é que ele tivesse esperanças de resolver um crime que ninguém conseguiu resolver em 30 anos - mas viu naquela história mal contada e em aberto um óptimo tema para um documentário e essa esperança foi tomando forma.

À medida que vai fazendo perguntas e visitando locais-chave, Salinger vê crescer uma animosidade à sua volta, como se estivesse a violar a vida de toda a gente. Como se fosse apenas um estranho, e não o marido de uma filha da terra e genro de uma figura importante por aquelas paragens. Conforme vai avançando, são mais e mais os obstáculos que enfrenta, o que o apavora, por si e pela família, mas que também lhe dá vontade de entrar no cerne da questão. E, como veio a verificar, naquele tema, uma vez que se entra, não há porta de saída.

Neste livro aconteceu-me algo que não me lembro de ter acontecido antes - o meio foi a minha parte preferida. O início custou mesmo a arrancar e estava prestes a abandonar o livro quando de repente se tornou interessante. A apresentação das personagens, a sua juventude, o que fazem na vida, o que as fez mudar para as montanhas, ocupou uma parte substancial da narrativa, um pouco exagerada na minha opinião. Não era preciso tanto.

Chegada ao sumo, adorei o modo como aquele homem atormentado se agarrou a uma ideia, a um enigma por resolver, para esquecer o negrume que se passava na sua mente, e como isso passou a ser a sua obsessão. Apesar de a família nunca lhe sair do pensamento, esqueceu as suas prioridades, arriscou a vida, em nome de um mistério que não era o seu. E esta foi a minha parte preferida.

Quanto ao desfecho, bem, há algumas voltas e reviravoltas interessantes mas também, na minha opinião, um tanto ou quanto exageradas. De qualquer forma é um thriller muito interessante que me conseguiu prender apesar do soluço inicial e que me despertou a curiosidade sobre o autor italiano.

A Substância do Mal
De: Luca D´Andrea
Ano: 2016
Editora: Suma de Letras
Páginas: 456

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Ao regressar ao trabalho neste novo ano, o sentimento é este... Posso?


Poe, perdoa, mas está engraçado :)


Confesso que peguei neste livro na biblioteca apenas por causa do título... Foi  uma visita relâmpago sem tempo para grandes análises e pensei que se se tratasse de um policial, um suspense, ou algo do género, que envolvesse putas com vontade de matar... Mas não.

Trata-se de um conjunto de histórias com vários temas e Putas Assassinas é uma delas. Tive reacções muito variadas a estas histórias. Algumas marcaram-me pela sua unicidade e choque que me provocaram. Essas, sei que as recordarei para sempre. É o caso, por exemplo, logo da primeira história, sobre um jornalista que visita a Índia e se depara com a triste realidade da castração infantil e posterior prostituição dos meninos.

No entanto, não consegui ler três das histórias e simplesmente passei à frente - ou não me cativaram, ou a linguagem não foi clara para mim (e a história que dá nome ao livro foi uma delas). Basicamente, foi uma montanha russa de emoções, uma relação de amor-ódio.

Fiquei intrigada para ler obras mais longas do autor chileno Roberto Bolaño, em especial o 2666, que faz parte do Plano Nacional de Leitura.

Putas Assassinas
De: Roberto Bolaño
Ano: 2008
Editora: Quetzal
Páginas: 248

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Sandra Duarte Tavares, mestre em Linguística Portuguesa, compilou alguns dos erros mais comuns que vemos e ouvimos no nosso dia a dia. Podem consultá-los neste artigo da revista Visão.

Seria útil para inúmeras pessoas pôr os olhos nisto. De todas, a que me irrita mais é o "tu fostes", "tu fizestes", "tu pedistes"... Não passa um único dia em que não oiça uma variante destas no meu local de trabalho. Supostamente, são pessoas formadas, mas parece que falar como deve ser não é uma prioridade. E irrita-me tanto, que se tornou uma das razões pelas quais estou sempre com os auscultadores enfiados. Até se me arrepia a espinha. E quando os corrijo sou a polícia da língua impertinente...

Vocês há-dem aprender, senão, devião! A gente vamos-se zangar! :P




Certo? 😛