Aquela sensação que nos preenche quando começamos a ler o livro do vizinho no comboio, no metro, no autocarro... O pior é quando estamos a ler a contracapa do livro da pessoa sentada à nossa frente e não conseguimos acabar a leitura porque a pessoa, entretanto... pronto...sai.*









*e não vale a pena dizer que "parece mal" ler o livro alheio, ás vezes é algo inconsciente. Afinal de contas, o meu nome é Naturalmente Cusca, certo? Está bem, já sei que pior mesmo é sentir a respiração de alguém que está a ler o nosso livro, como que um suspiro constante no nosso pescoço nu e num qualquer meio de transporte de Lisboa, mas fica a dica: se não gostam arranjem um carro que assim já não vos ando a ler os livros no Metro. Tenho dito. Pimbas!

Coleman Silk é um homem inteligente, reitor da universidade e respeitado no seu meio, até que um mal entendido faz com que seja acusado de racismo. Aí, todo o respeito e admiração que tinha construído desvaneceram-se num ápice. Amargurado, Coleman fala com um escritor para que a sua história possa ser contada, e é através da voz deste que nos chega o relato da sua vida.

Saltamos entre vários tempos, conhecendo Coleman desde que era um adolescente que gostava de praticar boxe, a sua família, os seus gostos, mas mais importante do que tudo, aprendemos que este homem, que viveu como branco a maior parte da sua vida, é negro. Saiu-lhe na lotaria que tivesse a pele clara e declarou-se como branco para poder fazer tudo o que os negros não podiam - por exemplo, alistar-se na Marinha ou escolher a sua própria universidade. Foi um logro que o fez afastar-se da família, renegando as suas origens e escondeu-o de toda a gente, passando a vida com este segredo às costas.

Agora que é um ex-reitor na casa dos 70 e que conheceu uma mulher muito mais nova que carrega uma bagagem ainda maior do que a dele e que o fez renascer, sentimos a empatia por este homem que se escolheu a si próprio, sempre, em qualquer circunstância, num acto egoísta mas que, quando nos é apresentado ao longo do livro, nos comove.

Philip Roth tem um tipo de escrita único, que não é fácil, mas que se tivermos atenção tem algo de belo e mágico. É uma linguagem erudita mas com uma simplicidade surpreendente, características raras e que me fazem questionar como é que este homem ainda não foi agraciado com o Nobel (entre muitos outros prémios, tem um Pulitzer).

Este livro deu origem a um filme em 2003, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman nos principais papéis. Vi há muito tempo, lembro-me de gostar, mas tenho de o rever agora à luz do livro.

A Mancha Humana
De: Philip Roth
Ano: 2000
Editora: Dom Quixote
Páginas: 380

Disponível no site Wook.
A nossa pontuação: ★★★★☆

Já diz o ditado que de santo e louco todos temos um pouco e neste pequeno conto novelesco (chamemos assim na dificuldade de melhor definir) esse ditado ganha uma nova tonalidade e uma reforçada confirmação.

"O Alienista" tem como principal protagonista o Dr. Simão Bacamarte, psiquiatra para quem a ciência é uma religião. O Dr. Simão é um homem de honra e valores morais irrefutáveis que decide criar um asilo em Itaguaí para abrigar todos quantos revelassem sinais de loucura podendo assim estudar cada caso profundamente e procurar a cura adequada para cada insanidade. Pelo bem da sociedade e da pesquisa cientifica, claro!

Surge no entanto uma questão: se todos temos um tanto de loucura, seremos todos loucos ou fará esse pedaço de loucura parte da nossa sanidade mental? E é neste limiar que se desenvolve este livro. Machado de Assis faz uma análise com iguais doses de sátira, ironia e seriedade à sociedade da sua época e é impressionante como se pode transportar um texto do século XIX e o mesmo ser tão adequado aos dias de hoje tanto para os cidadãos como para as organizações politicas.

Representará o Dr. Simão Bacamarte o modelo perfeito de sanidade mental, com o seu olho clínico, como que um anjo da guarda da razão e da ciência? Ou será ele mais louco que todos no extremismo da sua ciência empírica? É isso que vamos descobrir neste livro "O Alienista" ao mesmo tempo que revemos nas suas personagens tantos dos nossos comportamentos e julgamentos.

Leitura recomendada pelo plano Ler+ e um clássico imperdível que faz parte da coleção Ler Faz Bem da revista Visão da qual já falámos aqui.


O Alienista
De: Machado de Assis
Ano: 1882
Edição: Visão Ler Faz Bem

A nossa pontuação: ★★★★★
Disponível também no site Wook.




Destas festas, claro ;)


Este livro junta algumas crónicas curtas de Miguel Esteves Cardoso, ao jeito de outras que já aqui falámos anteriormente. Estão "arrumadas" de acordo com temáticas muito claras e, para mim, mais humanas do que nunca.

Vê-se que foram escritas numa fase muito emocional, onde o ponto alto é a relação com a mulher, sobrevivente de um cancro. Este homem tem a capacidade de pôr em palavras as coisas simples que normalmente se complicam na nossa cabeça. São como sentimentos descodificados e dá gosto "ler a vida" assim.

Não é um livro aconselhado a quem procura um fio condutor - não é uma história com princípio, meio e fim - há que estar preparado para histórias muito curtas, que às vezes não passam de um relato de um episódio fugidio da vida do autor, ou da explicação pormenorizada de algo concreto que o incomoda. O que é comum a todas, é que parece que as conseguimos "vestir" que nem uma luva. Todos já demos aqueles passeios que sabem por uma vida, ou ficámos presos num momento em que embasbacamos a olhar para a pessoa amada, ou que ficamos pasmados com a inteligência de um gato, ou simplesmente temos uma refeição que vai ficar para a história. E tudo isto mora no livro.

São como fotografias fogazes e poéticas de uma vida como a nossa, escritas por um dos autores que mais conhecimento tem da nossa língua e que melhor uso lhe dá.

Amores e Saudades de Um Português Arreliado
De: Miguel Esteves Cardoso
Ano: 2014
Editora: Porto Editora
Páginas: 328

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Porque os livros expandem o melhor de nós, dão-nos ferramentas para crescer, abrem-nos as portas de novos mundos e conhecimento sem fim, que não ocupa (mesmo) lugar.

Ilustração de Medi Belortaja.

Chama-se "Back to Hogwarts" e não é por acaso, já que no mês que vem é o "Back to School" e os alunos precisam de roupa nova...

É uma linha de roupa e acessórios inspirada na saga do Harry Potter e tem tshirts, casacos, camisas, e acessórios como malas e carteiras. E, não sendo fã do feiticeiro, até acho piada a algumas destas peças.

Por casa 10 dólares em compras é oferecida uma refeição à Feeding America, por isso há ainda mais razões para se encher de estilo.

Via Hypeness







Um jovem vestido de negro e esfomeado bate à porta de uma família turca em Hamburgo - mãe e filho acabam por acolher em sua casa este indivíduo misterioso, pouco falador e cheio de segredos. Apesar das suas tentativas de lhe arrancar de onde e como veio, só muito aos poucos foram conseguindo saber os horrores pelos quais passou.

Diz chamar-se Issa e cedo Annabel, uma advogada idealista especializada em direitos humanos, se ocupa do seu caso, que se afigura muito complicado. Ter chegado a Hamburgo por meios ilegais, ter origem chechena e ser filho de um opressor general russo não ajuda a amenizar a ideia que os espiões de três nações que estão de olho nele elaboraram.

Tendo-se tornado num homem procurado, acaba por pôr em perigo todos os que se mostraram disponíveis para o ajudar. No entanto, este homem tem um objectivo, que passa por dar um uso nobre ao dinheiro do seu falecido pai, obtido por meios muito negros. Uma tentativa de redenção, na qual entra em cena o banqueiro Tommy Brue. Juntas, estas pessoas vão tentar encontrar uma solução para deixar este foragido a salvo.

A história demorou a entranhar - as diferentes perspectivas, contadas à vez, deixaram-me um pouco perdida na leitura, mas conforme o desenrolar dos acontecimentos fui ficando colada. John Le Carré é afinal mestre na espionagem, e também em deixar-nos o bichinho e em fazê-lo crescer. É uma mistura de política, suspense, espionagem com uma grande dose de humanidade. O que faz deste livro uma leitura recomendada.

O livro deu origem a um filme com o mesmo nome, em 2014. Ainda não vi, mas fiquei com muita vontade de ver. Com o falecido Philip Seymour Hoffman, Willem Dafoe e Rachel McAdams.

Um Homem Muito Procurado
De: John Le Carré
Ano: 2008
Editora: Dom Quixote
Páginas: 368

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Um táxi percorre as ruas de Lisboa, como tantos outros. Mas este é especial. Este conta-nos as vidas de por quem lá passa, em especial a vida do seu condutor, Manuel. Pela voz do veículo com curiosidade aguçada, ficamos a par das amarguras de Manuel, da sua família, e dos dramas e pressas de quem repousa o corpo por momentos no banco traseiro, entre um ponto A e um ponto B na cidade de Lisboa.

Ter um táxi como narrador pode parecer estranho, mas garanto que a autora, repleta de mestria, nem por um momento nos provoca essa estranheza. É um relato natural, como se fosse uma conversa entre amigos. O carro observa os bairros, os transeuntes, os moradores à janela, os frequentadores das esplanadas e se ele sabe, nós sabemos também. É um relatar que aceitamos rapidamente e que nos dá sede de saber mais.

E é assim que conhecemos Manuel e que nos sentimos imediatamente ligados a ele, e isso não é por acaso. Todos conhecemos um Manuel, nem que seja de ouvir falar. O taxista bonacheirão, adepto do Benfica e muito tradicional nas suas opiniões. Seguimo-lo enquanto faz os seus trabalhos habituais que incluem levar Daisy, a stripper, ao bar onde dança (a melhor parte do dia), e que deixa, preocupada, o seu filho sozinho no apartamento; ou transportar Olinda, a empregada de uma família rica encarregue de ir buscar à escola os fedelhos mimados dos patrões enquanto os seus próprios filhos a esperam noutro continente.

Manuel tem opiniões muito vincadas, uma maneira de ver as coisas bastante nacionalista e tradicional. Mas tudo muda num dia em que um evento inesperado acontece e toma conta de si. Sem conseguir pensar noutra coisa, dá-se a oportunidade de mudar os seus padrões e, inesperadamente, Manuel vai aceitá-la. Assistimos à sua mudança, e aprendemos que, afinal, burro velho aprende línguas.

Não estava à espera de gostar tanto deste livro. Numa linguagem simples mas surpreendente e original, chega-nos o âmago de uma alma que podia estar perdida, mas na qual a humanidade acaba por vencer. É uma visão muito positiva das coisas, mas nem por isso irreal. E a esperança acaba por tomar também conta de nós que, principalmente depois de ler, acreditamos um pouco mais nas pessoas. E estas pessoas são-nos tão próximas, tão reconhecíveis, tão reais, que a esperança é mais palpável que nunca. Foi o primeiro livro que li da Filipa Fonseca Silva, mas não será concerteza o último.

Amanhece na Cidade
De: Filipa Fonseca Silva
Ano: 2017
Editora: Bertrand
Páginas: 176

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Os livros e o conhecimento não nos trazem popularidade e pessoas à nossa volta, mas trazem-nos coisas muito mais preciosas, incluindo o auto-conhecimento. E, mais uma vez, mais vale sós que mal acompanhados ;)