Esta publicação nasce do amor que sinto por esta música e como uma homenagem ao autor Manuel Alegre que, finalmente, depois de décadas a cantar a liberdade nos seus versos foi honrado com o Prémio Camões. Parabéns ao poeta, aqui cantado na voz de Carlos do Carmo. Eterno.

Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.

Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.

Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarras nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.

Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

Eu cá não acredito em coincidências :P



Livros nunca são suficientes, pá!


É ou não é? :)

Ele pode ter feito cocó no sapato... mas quem é que consegue ficar zangado com esta carinha linda? Este livro reúne cartas do cão Doggie para os seus donos que o adoram, a desculparem-se pelas asneiras que fazem. Foi escrito pelo comediante Jeremy Greenberg e contém 50 cartas acompanhadas com fotos que, apesar da estranheza, aposto que são super amorosas!

Disponível na Amazon.



João Melo, escritor e jornalista angolano, oferece-nos neste livro uma série de pequenas histórias que têm como protagonistas homens comuns, que à partida não teriam nada de assinalável para serem os actores principais de história alguma.

Mas acontece que é na normalidade que se escondem segredos de várias ordens, e é-nos mostrado, por A mais B, que cada um deles, assim como cada um de nós, somos merecedores da atenção. São-nos revelados pormenores das suas vidas com muito humor negro, descrições super cómicas e situações inusitadas que revelam estes seres, à partida, envoltos em normalidade. O nome do livro advém da primeira história do livro, sobre o homem que não tira o palito da boca, esse protagonista que mais tarde ou mais cedo todos encontramos na nossa vida, que nos causa um misto de repugnância e curiosidade...

A escrita é muito assertiva mas cheia de estilos; bastante explicativa, perfeccionista e requintada, explorando vários temas pertinentes e eternamente actuais, em especial na realidade Angolana - a família, o dinheiro, o racismo, a prostituição ou a indecência. Nem Portugal escapa às críticas, sendo mencionado mais do que uma vez...

Um livro para descobrir de alma aberta, mascarado como uma brincadeira, mas que denuncia e incomoda na sua ironia permanente.

O Homem Que Não Tira o Palito da Boca
De: João Melo
Ano: 2009
Editora: Caminho
Páginas: 176

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Poderia ser mais uma das pessoas a parabenizar o Salvador (e sou). Poderia ser mais uma das pessoas a dizer que esta música da Luísa é uma bela homenagem à simplicidade harmoniosa da nossa língua (e sou). Poderia até ser mais umas das pessoas a agradecer a ambos o facto de terem sacudido o glitter plastificado e a maquilhagem esborratada do Festival da Canção e criado uma música que vale por si, sem artifícios (e sou). Mas prefiro apenas ser uma das pessoas que fica calada a ouvir, porque a música, quando é assim, vale por si e tem voz própria, sem necessitar de advogados outros que a sua natural e indiscutível qualidade.

Deixo um suspiro de alívio e um "Graças a Deus! Ainda há poetas e trovadores em Portugal." Cantemos:
Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender.

Se o teu coração não quiser ceder 
Não sentir paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois.


Eu avisei que sofria de esquizofrenia literária. Isto dito, em seguimento desta publicação, hoje venho falar de mais um livro que marcou a minha juventude : "A Metamorfose" de Franz Kafka

Como qualquer boa adolescente amante de literatura, sem borbulhas ou óculos, mas transtornada com as questões do Ser, tive a minha fase existencialista. Assoberbada de hormonas e nos meandros do auto-conhecimento dediquei meses à leitura dos mais variados títulos de Camus a Malraux e embrenhei-me nos fantasmas Kafkianos como que bêbada de vontade de sentir o Nada em pleno. 

Foi neste inebriamento que se destacou o "A Metamorfose". Caminhei lado a lado com Gregor Samsa, no absurdo da sua dor e solidão, página a página, sofregamente e ansiosamente à espera de respostas: como um insecto? Porquê uma maçã? De onde vem esta aceitação bolorenta do monstruoso?

Lembro distintamente, como se fosse hoje,  a náusea que me acompanhou durante esta leitura. Um insecto porque é insignificante, tão repugnante aos outros que repugna o próprio; uma maçã, talvez por representar o conhecimento, como quando nos vemos ao espelho e à nossa fealdade (a do Homem) de tal forma que esse conhecimento se impregna como erva daninha no espírito; aceitação, talvez porque nada mais resta do que estar conformado com a solidão, a exclusão... afinal, de que outra forma sobreviveríamos à crueldade humana e à alienação inevitável da sua natureza?

As obras de Kafka são como uma chapada, ou melhor, um murro no estômago. Nelas se vê o Humano nú, fragmentado, disperso em pensamentos e acontecimentos que parecem perder na lógica o que ganham em verdade. O absurdo é um recurso natural nos livros de Franz, as personagens e enredo afogam-nos desde as primeiras palavras num estado de estranheza que nunca mais nos larga:

"Metamorfose", Paula Rego
"Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto."

Assim começa o livro. Sem introdução colorida nem floreados descritivos, apenas assim. Uma obra marcante, inquietamente simples na escrita, mas uma leitura humanamente complexa nas questões que desperta. Para sempre na memória.

Mais sobre o livro na Wook.
Armando Silva Carvalho, falecido ontem aos 79 anos, foi um verdadeiro homem dos sete ofícios. Mais conhecido pela sua poesia, também foi advogado, jornalista, tradutor, professor e publicitário. Nascido em 1938, estreou-se na poesia em 1965 com "Lírica consumível", trabalho com que recebeu o Prémio Revelação da APE.

Foi uma carreira recheada de prémios, sendo o mais recente o prémio literário Casino da Póvoa, em 2016, pelo livro "A Sombra do Mar". Afirmando sempre que não era um autor culto, destacou-se pelo olhar irónico, comovente e lúcido sobre o tempo. 

E como homenagem, aqui fica um poema do autor, presente em "Sentimento de um Acidental", e que, como se pode ver, é intemporal. E, para bom entendedor... já se sabe.

"Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma"

Sim... ou sim! :)