Eu avisei que sofria de esquizofrenia literária. Isto dito, em seguimento desta publicação, hoje venho falar de mais um livro que marcou a minha juventude : "A Metamorfose" de Franz Kafka

Como qualquer boa adolescente amante de literatura, sem borbulhas ou óculos, mas transtornada com as questões do Ser, tive a minha fase existencialista. Assoberbada de hormonas e nos meandros do auto-conhecimento dediquei meses à leitura dos mais variados títulos de Camus a Malraux e embrenhei-me nos fantasmas Kafkianos como que bêbada de vontade de sentir o Nada em pleno. 

Foi neste inebriamento que se destacou o "A Metamorfose". Caminhei lado a lado com Gregor Samsa, no absurdo da sua dor e solidão, página a página, sofregamente e ansiosamente à espera de respostas: como um insecto? Porquê uma maçã? De onde vem esta aceitação bolorenta do monstruoso?

Lembro distintamente, como se fosse hoje,  a náusea que me acompanhou durante esta leitura. Um insecto porque é insignificante, tão repugnante aos outros que repugna o próprio; uma maçã, talvez por representar o conhecimento, como quando nos vemos ao espelho e à nossa fealdade (a do Homem) de tal forma que esse conhecimento se impregna como erva daninha no espírito; aceitação, talvez porque nada mais resta do que estar conformado com a solidão, a exclusão... afinal, de que outra forma sobreviveríamos à crueldade humana e à alienação inevitável da sua natureza?

As obras de Kafka são como uma chapada, ou melhor, um murro no estômago. Nelas se vê o Humano nú, fragmentado, disperso em pensamentos e acontecimentos que parecem perder na lógica o que ganham em verdade. O absurdo é um recurso natural nos livros de Franz, as personagens e enredo afogam-nos desde as primeiras palavras num estado de estranheza que nunca mais nos larga:

"Metamorfose", Paula Rego
"Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto."

Assim começa o livro. Sem introdução colorida nem floreados descritivos, apenas assim. Uma obra marcante, inquietamente simples na escrita, mas uma leitura humanamente complexa nas questões que desperta. Para sempre na memória.

Mais sobre o livro na Wook.
Armando Silva Carvalho, falecido ontem aos 79 anos, foi um verdadeiro homem dos sete ofícios. Mais conhecido pela sua poesia, também foi advogado, jornalista, tradutor, professor e publicitário. Nascido em 1938, estreou-se na poesia em 1965 com "Lírica consumível", trabalho com que recebeu o Prémio Revelação da APE.

Foi uma carreira recheada de prémios, sendo o mais recente o prémio literário Casino da Póvoa, em 2016, pelo livro "A Sombra do Mar". Afirmando sempre que não era um autor culto, destacou-se pelo olhar irónico, comovente e lúcido sobre o tempo. 

E como homenagem, aqui fica um poema do autor, presente em "Sentimento de um Acidental", e que, como se pode ver, é intemporal. E, para bom entendedor... já se sabe.

"Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma"

Sim... ou sim! :)


Quando peguei neste livro na biblioteca não sabia que estava a levar para casa um thriller fantástico. Tendo como personagem principal o médico David Hunter, é o primeiro de vários livros centrados no médico forense. Nesta primeira história, David deixa Londres e instala-se numa aldeia isolada para exercer medicina geral. No fundo, está a fugir de uma tragédia pessoal e de uma cidade que nesse momento é um espelho do caos que o consome.

Acontece que nessa aldeia pacata, e depois de já estar instalado há algum tempo, é cometido um assassínio macabro. É encontrado o corpo de uma mulher em condições horríficas e, quase por acaso, o polícia responsável pela investigação vem a saber que David é um dos médicos forenses mais respeitados do país. Quase exigindo a sua participação, o médico acaba por se envolver numa investigação que, infelizmente para si e para toda a comunidade, só ali começou.

É daquelas histórias extremamente bem construídas, com muitas reviravoltas inesperadas. O leitor é constantemente surpreendido num enredo nada óbvio e muito bem interligado, num livro que é o exemplo de como o suspense deve ser construído. Estou ansiosa por ler mais livros desta saga.

A Química da Morte
De: Simon Beckett
Ano: 2006
Editora: Presença
Páginas: 304

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


Bem... eu ia ficar furiosa por terem rabiscado e furado um livro desta forma... mas pronto, vale a intenção. E é uma forma original de fazer o pedido que muitos anseiam. Parabéns aos noivos! (se ela não tiver ficado chateada, como eu ficaria. Com livros não se brinca!)


Maria Luísa é gorda. Isso é inegável. Ela sabe, toda a gente sabe. E desde cedo levou com as bocas que, infelizmente, são normais nas tenras idades. Chamaram-na todos os nomes, sofreu de bullying, mas curiosamente nada abalou a sua determinação. A sua inteligência e perseverança contribuíram para um crescimento que acabou por ser normal para as vezes que a tentaram inferiorizar.

Neste livro conhecemos as diversas fases da sua vida, em cada parágrafo apresentadas brilhantemente por uma divisão de uma casa. Com vários saltos temporais (que talvez sejam o aspecto menos positivo por se tornar confuso), acompanhamos Maria Luísa desde a infância à idade adulta. Filha de pais emigrados em África e que tiveram de regressar à metrópole após o 25 de abril, este é também um bom retrato dessa época.

Sozinha em Portugal para estudar, ela passa pelas fases complicadas, pelas amizades tóxicas, más influências, e também pelas paixões. Ser gorda fá-la passar algumas vergonhas e ver-se em situações incompreensíveis e inacreditáveis para quem nunca passou por isso. É também, por isso, um livro de coragem e que marca a diferença desde o momento em que olhamos para as actuais prateleiras das livrarias.

Numa escrita em tom leve mas determinado, ficamos rapidamente fãs desta rapariga-mulher que, acima de tudo, não desiste dos seus sonhos e não deixa que a sua aparência seja um estandarte da sua pessoa.

A Gorda
De: Isabela Figueiredo
Ano: 2016
Editora: Caminho
Páginas: 288

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Se viajar de comboio entre Lisboa e Braga até ao fim do mês, no Alfapendular, vai ter uma surpresa. Ao escolher o seu lugar, vai também estar a escolher um livro que o vai acompanhar durante a viagem. A maioria são contos, histórias curtas mais fáceis de ler. E entre eles encontram-se, por exemplo, Machado de Assis ou Edgar Allan Poe.

A iniciativa é da Cetelem em parceria com a CP. Chama-se "Viagens Com Livros" e vem do Programa de Apoio à Leitura "Tem Tudo a Ler". Uma ideia fantástica para promover a leitura que devia, sem dúvida, ser estendida tanto na data como nos trajectos. Se houver uma pessoa por dia que pegue num dos 301 livros (para os 301 lugares disponíveis) e sinta o prazer da leitura, já será uma vitória.

Via Visão.

Estou constantemente a ouvir isto... "mas tu só pedes livros? não te fartas?" Claro que não! Encham-me de livros! É a prenda útil que nunca desilude! (a não ser quando me deram um da Margarida Rebelo Pinto :/ )

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Antes de mais, este é um trabalho jornalístico formidável, realizado ao longo de bastante tempo e ouvindo o relato de muitas, muitas pessoas, todas elas ligadas de uma forma ou de outra ao desastre de Chernobyl.

Estes discursos foram colocados no livro tal como foram ditos, portanto estamos a "ouvir" as vozes puras, carregadas da tristeza, do medo, da estranheza que os protagonistas sentiram. Conhecemos todo o tipo de intervenientes no desastre, desde as mulheres que viram os seus maridos - bombeiros, polícias, militares... - serem chamados imediatamente para o centro da acção sem saberem onde e por quanto tempo iriam; passando pelos mais velhos que se recusaram a abandonar as casas e os bens e que acabaram por ver tudo à volta morrer; até às futuras mães que esperavam no ventre as consequências negras de Chernobyl.

É claro que é impressionante e que muitas palavras nos moem por dentro. A mim, dois aspectos em especial me fizeram impressão. Primeiro, ter percebido, só agora, do escrutínio que estas pessoas sofreram. Ninguém os queria por perto. A população tornou-se refugiada sem ter para onde ir. Chamavam-lhe "os radioactivos" e outras coisas muito piores, e toda a gente - toda - desde crianças na escola aos mais velhos, foram segregados, postos de parte, olhados de esguelha, numa situação que dura mesmo nos dias de hoje.

Em segundo, os animais. Com a fuga da população, estes ficaram para trás. Gatos, cães, tartarugas, porcos, vacas, cavalos. Todos. Ficaram sem comida, sem água, em solo radioactivo aguardando a morte. Até que foi decretado que deveriam ser mortos (a tiro, para manter a distância) e as terras tornaram-se um palco de morte, com animais mortos por todo o lado, que não podiam ser queimados (por causa da radioactividade espalhada através do fumo) e não houve outro remédio senão enterrá-los em valas (alguns deles ainda vivos, por já não existirem balas suficientes).

Um momento da nossa história que nunca devia ter acontecido. Uma leitura aconselhável aos que querem conhecer melhor os intervenientes directos.
A autora foi distinguida com o Prémio Nobel em 2015.

Vozes de Chernobyl
De: Svetlana Aleksievitch
Ano: 1997
Editora: Elsinore
Páginas: 336

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
É ou não é? 😊