Bem... eu ia ficar furiosa por terem rabiscado e furado um livro desta forma... mas pronto, vale a intenção. E é uma forma original de fazer o pedido que muitos anseiam. Parabéns aos noivos! (se ela não tiver ficado chateada, como eu ficaria. Com livros não se brinca!)


Maria Luísa é gorda. Isso é inegável. Ela sabe, toda a gente sabe. E desde cedo levou com as bocas que, infelizmente, são normais nas tenras idades. Chamaram-na todos os nomes, sofreu de bullying, mas curiosamente nada abalou a sua determinação. A sua inteligência e perseverança contribuíram para um crescimento que acabou por ser normal para as vezes que a tentaram inferiorizar.

Neste livro conhecemos as diversas fases da sua vida, em cada parágrafo apresentadas brilhantemente por uma divisão de uma casa. Com vários saltos temporais (que talvez sejam o aspecto menos positivo por se tornar confuso), acompanhamos Maria Luísa desde a infância à idade adulta. Filha de pais emigrados em África e que tiveram de regressar à metrópole após o 25 de abril, este é também um bom retrato dessa época.

Sozinha em Portugal para estudar, ela passa pelas fases complicadas, pelas amizades tóxicas, más influências, e também pelas paixões. Ser gorda fá-la passar algumas vergonhas e ver-se em situações incompreensíveis e inacreditáveis para quem nunca passou por isso. É também, por isso, um livro de coragem e que marca a diferença desde o momento em que olhamos para as actuais prateleiras das livrarias.

Numa escrita em tom leve mas determinado, ficamos rapidamente fãs desta rapariga-mulher que, acima de tudo, não desiste dos seus sonhos e não deixa que a sua aparência seja um estandarte da sua pessoa.

A Gorda
De: Isabela Figueiredo
Ano: 2016
Editora: Caminho
Páginas: 288

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Se viajar de comboio entre Lisboa e Braga até ao fim do mês, no Alfapendular, vai ter uma surpresa. Ao escolher o seu lugar, vai também estar a escolher um livro que o vai acompanhar durante a viagem. A maioria são contos, histórias curtas mais fáceis de ler. E entre eles encontram-se, por exemplo, Machado de Assis ou Edgar Allan Poe.

A iniciativa é da Cetelem em parceria com a CP. Chama-se "Viagens Com Livros" e vem do Programa de Apoio à Leitura "Tem Tudo a Ler". Uma ideia fantástica para promover a leitura que devia, sem dúvida, ser estendida tanto na data como nos trajectos. Se houver uma pessoa por dia que pegue num dos 301 livros (para os 301 lugares disponíveis) e sinta o prazer da leitura, já será uma vitória.

Via Visão.

Estou constantemente a ouvir isto... "mas tu só pedes livros? não te fartas?" Claro que não! Encham-me de livros! É a prenda útil que nunca desilude! (a não ser quando me deram um da Margarida Rebelo Pinto :/ )

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Antes de mais, este é um trabalho jornalístico formidável, realizado ao longo de bastante tempo e ouvindo o relato de muitas, muitas pessoas, todas elas ligadas de uma forma ou de outra ao desastre de Chernobyl.

Estes discursos foram colocados no livro tal como foram ditos, portanto estamos a "ouvir" as vozes puras, carregadas da tristeza, do medo, da estranheza que os protagonistas sentiram. Conhecemos todo o tipo de intervenientes no desastre, desde as mulheres que viram os seus maridos - bombeiros, polícias, militares... - serem chamados imediatamente para o centro da acção sem saberem onde e por quanto tempo iriam; passando pelos mais velhos que se recusaram a abandonar as casas e os bens e que acabaram por ver tudo à volta morrer; até às futuras mães que esperavam no ventre as consequências negras de Chernobyl.

É claro que é impressionante e que muitas palavras nos moem por dentro. A mim, dois aspectos em especial me fizeram impressão. Primeiro, ter percebido, só agora, do escrutínio que estas pessoas sofreram. Ninguém os queria por perto. A população tornou-se refugiada sem ter para onde ir. Chamavam-lhe "os radioactivos" e outras coisas muito piores, e toda a gente - toda - desde crianças na escola aos mais velhos, foram segregados, postos de parte, olhados de esguelha, numa situação que dura mesmo nos dias de hoje.

Em segundo, os animais. Com a fuga da população, estes ficaram para trás. Gatos, cães, tartarugas, porcos, vacas, cavalos. Todos. Ficaram sem comida, sem água, em solo radioactivo aguardando a morte. Até que foi decretado que deveriam ser mortos (a tiro, para manter a distância) e as terras tornaram-se um palco de morte, com animais mortos por todo o lado, que não podiam ser queimados (por causa da radioactividade espalhada através do fumo) e não houve outro remédio senão enterrá-los em valas (alguns deles ainda vivos, por já não existirem balas suficientes).

Um momento da nossa história que nunca devia ter acontecido. Uma leitura aconselhável aos que querem conhecer melhor os intervenientes directos.
A autora foi distinguida com o Prémio Nobel em 2015.

Vozes de Chernobyl
De: Svetlana Aleksievitch
Ano: 1997
Editora: Elsinore
Páginas: 336

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
É ou não é? 😊



Foi numa feira de antiguidades que comprei esta edição bem antiga do livro "Nascido a 4 de Julho". Neste, o autor conta a sua própria história, desde o tempo em que era um jovem cheio de força e energia que sonhava lutar pelo seu país, até se ter tornado num retornado da guerra do Vietname, paralisado do peito para baixo.

A acção vai saltando entre o passado e o presente, dando ênfase à impressionante vontade de viver do jovem Kovic, a quem não faltavam prémios por excelência no desporto. É-nos contada a sua infância e adolescência, e conhecemos as suas amizades, brincadeiras, namoros e interesses. Tudo para nos dar uma base da personalidade activa deste homem. Assim que teve idade para se alistar, quis representar a América ao mais alto nível, assim ele pensava, e lutar de arma na mão no Vietname.

Quis o destino que este homem sobrevivesse, mas completamente paralisado do peito para baixo. Reduzido a uma cadeira de rodas, percebemos como a sua masculinidade é afectada, como não se sente um ser humano inteiro e como lamenta a decisão que tomou, ainda para mais depois de verificar como é tratado. Testemunha que não há condições para os lesados da guerra, que acabaram por viver em hospitais degradantes e sem ajuda digna, vistos mais como os coitadinhos que se querem escondidos e calados do que como heróis.

Antes orgulhoso por ter defendido o seu país, Kovic torna-se num homem que vai lutar pelo fim de uma guerra sem sentido, não hesitando em dar a cara, e o seu pouco corpo, aos media, em todo o lado que tivesse oportunidade.

É uma história impressionante que, centrada num indivíduo, nos faz ver muito para além dele, que nos mostra outros verdadeiros destroços humanos da guerra, que são aqueles que viram coisas abomináveis e que sobreviveram para relembrá-lo, ainda por cima sofrendo no corpo as horríveis consequências de uma guerra muito questionada.

É uma edição antiga com letras pequenas e com algumas gralhas, o que dificulta um pouco a leitura, e existem alguns devaneios incompreensíveis de Kovic pelo meio do livro, mas tirando isso aconselha-se a leitura.

E que se complete com a visualização do filme, com Tom Cruise no principal papel. Um filme de 1990 que já é um clássico.

Nascido a 4 de Julho
De: Ron Kovic
Ano: 1976
Editora: Publicações Europa-América
Páginas: 140

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
É um quiz da Wook que pode encontrar aqui e que lhe vai dizer que tipo de leitor é... Não se esqueça de apontar as respostas! Eis o que me calhou:

MAIORIA E 
Tem a certeza que não é da famíia do Sherlock Holmes? E do Poirot? É um desvendador nato de mistérios e dilemas e não tem medo de livros assustadores! Não suporta finais sem sentido e leu de uma rajada só toda a coleção da Agatha Christie. Lembra-se quando se deliciou com O Cão de Baskervilles ou com A Rapariga no Comboio?

Bem, ainda não li as últimas duas referências, mas sim, adoro mistério e dilemas!! :)

Eu seria apanhada imediatamente!😄


E boa segunda-feira para todos os leitores :)