E boa segunda-feira para todos os leitores :)



A história começa numa Feira de Emprego. Centenas de desempregados madrugaram e estão na fila do evento para serem os primeiros a entrar e a agarrar as oportunidades. Enquanto esperam, algumas pessoas socializam e conhecem-se, incluindo uma mulher que teve de levar o filho bebé e o homem que está atrás dela e a ajuda com a criança.

Nisto, um carro aproxima-se a alta velocidade. É um Mercedes, mas ainda na escuridão poucos dão por isso. Só ouvem e acabam por sentir o carro que não pára, que lhes passa por cima. Que mata algumas pessoas e deixa mazelas para sempre noutras. É um verdadeiro massacre, que muito faz lembrar alguns recentes ataques terroristas. Os desempregados, que ali estavam numa réstia de esperança, foram desprovidos de toda, alguns até de vida, numa cena icónicamente sádica e macabra mesmo ao estilo do meu querido Stephen King.

O carro foi encontrado vazio e sem pistas não muito longe dali. O autor não foi apanhado, nem havia a menor desconfiança. Agora, algum tempo depois, o detective encarregue da investigação está reformado e começa a receber mensagens de alguém que se identifica como o autor e que no fundo quer brincar com ele num jogo do gato e do rato que pode levar a sérias consequências.

Um livro que não desaponta, cheio de mistério e naquele estilo que nos leva a querer ler mais e mais. Stephen King é especialista nisso... Destaca-se ainda o perfil psicológico do assassino. O homem tem tantos pormenores de destaque naquela mente perturbada que vale a pena a leitura só por isso. Uma história de investigação policial com algo de doentio e de demente.

Sr. Mercedes
De: Stephen King
Ano: 2014
Editora: Bertrand
Páginas: 472

Disponível no site Wook.
A nossa pontuação: ★★★★☆
Recordando o jornalista e autor que nos deixou recentemente, deixamos uma citação de Baptista-Bastos presente no Jornal de Negócios em 2009, que muito diz sobre os nossos dias, as relações de hoje e os tempos frenéticos que vivemos em busca de não sei o quê, esquecendo-nos do que é importante.

Que descanse em paz e que as suas palavras inspirem os que por cá vão ficando.

"A nossa sociedade está a desmoronar-se e ninguém lhe acode. Os laços sociais estão a desaparecer, substituídos por um sistema de valores em que impera a vacuidade, o poder da «competitividade» como força motriz - e não é. Há tempo para tudo, diz o Eclesiastes. Mas a verdade é que os «tempos» foram pulverizados pela urgência de não se sabe bem o quê. A frase mais comum que ouvimos é: «Não tenho tempo para»; para quê? A correria mina as relações de civismo e de civilidade; está a roer os alicerces da família; a família deixou de ser o núcleo das nossas próprias defesas; e vamos perdendo o rasto dos nossos filhos, dos nossos amigos, dos nossos camaradas, dos nossos companheiros. A azáfama nos locais de trabalho é o sinal das nossas fragilidades e dos nossos medos. Estamos com medo de tudo, inclusive de confiar em quem, ainda não há muito, seríamos capazes de confidenciar o impensável."


Uma belíssima homenagem ao amor pelos livros! Uma tatuagem bem original, com uma composição excelente e imenso significado.


Hoje em dia a tecnologia está em todo o lado e na maioria das vezes não conseguimos evitá-la... mas podemos disfarçá-la! Esta capa para portátil é um mimo e mata um pouco as saudades dos nossos amigos livros. Giríssima!




Heinrich Böll, Prémio Nobel em 1972, é conhecido pela sua escrita dotada de uma clareza tão crua e dilacerante como a sua consciência política. Em "O Anjo Mudo" Böll fala-nos de um jovem militar alemão e do seu regresso em 1945 à sua cidade fragmentada e destruída, onde as ruínas do Terceiro Reich assombram mais o espírito dos homens do que as paredes das casas em pedaços.

Hans, um jovem recrutado, sem outra escolha do que seguir a sentença militar, chega-nos neste livro com fome, com traumas e fantasmas, mostrando o outro lado da Segunda Guerra Mundial. A educação (a História) é tão rápida nos seus julgamentos de valor, que é fácil deixar cair no esquecimento estes jovens, estas famílias, mulheres, crianças, pais, que sofreram com devastação causada nas suas vidas após os bombardeamentos, as mortes, e a ocupação do território no final da guerra.

No meio da desolação Hans encontra o amor e quem sabe até a fé, diria mesmo a esperança de um dia ser merecedor de alguma paz, consolação e perdão, no meio da austeridade da perda e da miséria. Regina é a mulher que o acolhe, saindo do luto de um filho morto para salvar um militar que, à força do contexto e do julgamento, nunca será um herói aos olhos de ninguém : para os seus é um pária ilegal, para os outros um criminoso.

Não é de estranhar que este livro não tenha sido publicado na data da sua conclusão em 1951, por despertar memórias que se queriam enterradas num passado demasiado recente e doloroso para uma nação que já perdera tanto de si mesma. Apenas em 1992, já depois da morte do autor, "O Anjo Mudo" ganhou voz e contou o outro lado humano de um dos períodos mais atrozes da história mundial.

Quanto mais lemos, mais vemos, mais sabemos, sobre as guerras que assolam e assolaram o nosso mundo, mais simples é perceber que não há vencedores. Todos os que perdem - sejam vidas, alma, valores morais, em contextos de total desumanidade e desumanização, são vítimas; e a qualificação de "os bons" e "os maus" é injusta por pecar no erro de esquecer que a natureza humana tem um pouco de ambos e que não nos compete julgar com uma simplicidade embrutecida, mas sim tentar compreender e melhorar para que as atrocidades que julgamos não se repitam por novas radicalizações da verdade.

Este é um livro honesto. Tão honesto como a verdade deve ser, com o seu respeito pelos factos, sim, mas acima de tudo com o seu respeito pelo Homem, qualquer Homem, sempre.

Uma lição sobre a Humanidade.

O Anjo Mudo
De: Heinrich Böll
Ano: 1992
Editora: Bibliotex Editor S.L. (trad. cedida por Edições Asa)
Páginas: 174

A nossa pontuação: ★★★★★

Num bairro de respeito (Arlington Park) vivem algumas mulheres que dedicam a sua vida à família, aos filhos e maridos, algumas às suas carreiras. Todas são diferentes, mas têm em comum algumas frustrações, desejos que nunca se irão cumprir e um modo de vida que escolheram e que umas acataram como o certo, e outras sonham com o que a vida poderia ter sido e não foi.

O enredo passa-se ao longo de um dia na vida destas mulheres, entre saídas umas com as outras, jantares e convívios que correm menos bem, momentos com os filhos e outros de algum desespero e confusão, mas também de agradecimento. A acção salta entre umas e outras, mostrando-nos pormenores na vida destas mulheres que por vezes se cruzam.

É um livro leve e fácil de ler, mas ao mesmo tempo é um desafio porque na verdade a trama não nos leva a lado nenhum. A autora mostra-nos a vida como ela é, e a acção não caminha para nenhum ponto crucial e impactante, para nenhuma reviravolta mirabolante. Isto é a descrição simples, mas sincera, e por isso, interessante, da alma feminina e da resignação, ou não, a um estilo de vida.

Livro finalista do Orange Prize 2007.

Arlington Park
De: Rachel Cusk
Ano: 2007
Editora: Edições Asa
Páginas: 240

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.

Hoje é dia 25 de abril, um dia que ontem, hoje e amanhã carregará um significado ímpar na nossa história. Estamos aqui, hoje, a fazer o que fazemos, a dizer o que queremos, a ler o que queremos, graças a um grupo de pessoas que nesse dia, e não só, deram o golpe para a liberdade.

E porque há heróis "indirectos" e menos óbvios, a sugestão de hoje vai para o livro "Capitãs de Abril", centrado nas mulheres dos militares da revolução. Elas foram lutadoras sem balas, com um papel importantíssimo nos bastidores que vale a pena conhecer.


Um alento, um amigo, um professor, um companheiro... os livros merecem ser celebrados e hoje é o dia deles e, portanto, também o nosso. Essa luz que nos ilumina na escuridão e nos torna mais ricos mesmo sem tostão. Feliz dia do livro!



A história passa-se entre 1930 e 1958, embarcando portanto uma fase horrível da história mundial. A personagem principal é um rapaz de 9 anos, judeu, e a trama começa por ser contada na sua perspectiva, na Alemanha. A sua família, composta pelos pais, irmã e avó, vivia bem, até começar a segregação dos judeus. Aí, começa uma aventura "desnecessária", uma luta pela sobrevivência e por encontrar um lugar onde fosse garantido que continuassem vivos, coisa cada vez mais difícil.

O rapaz encontrou consolo num pombo ferido que o acompanhou enquanto pôde. Com ele desabafava e encontrava um aconchego que lhe foi falhando em tudo o mais. Mas o avançar dos acontecimentos, os campos de concentração, a fome, a doença, a morte, pairaram sobre tudo e mudaram a vida de todos.

Outro aspecto explorado neste livro e que é mais raro observar é a exploração das mulheres para a prostituição. Mulheres que foram desprovidas da sua vontade e do seu corpo, que viram queimadas as suas entranhas para não terem filhos, e que foram postas como carne num talho para o alívio imediato dos actores de uma guerra sem sentido.

Outra parte importante da narrativa é o nosso país. A autora, que vive cá há muitos anos (e que se naturalizou portuguesa), concentrou-se também no facto de Portugal ter sido um país neutro onde muitos, mesmo muitos, encontraram refúgio e graças à caridade e à boa vontade dos portugueses e de comunidades judias conseguiram sobreviver para contar as suas tristes histórias. Fomos um país muito importante, pequeno em tamanho para tanta gente, mas mesmo assim chegou para tudo - para albergar, dar amor, responder a pedidos desesperados, ajudar com tudo o que foi possível. E eu questiono-me o que foi feito desse povo, que hoje é desconfiado e crítico até à ponta dos cabelos, mas que no passado foi responsável por dar esperança e vida a milhares de pessoas que pensavam que estava tudo acabado para elas. Enfim, tudo isto é triste, tudo isto é fado. Gostei muito do livro e recomendo.

O Rapaz e o Pombo
De: Cristina Norton
Ano: 2016
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 272

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.