Foi com imensa curiosidade que peguei neste livro do falecido músico e autor, que muito admiro nos talentos musicais mas desconhecia a sua escrita de ficção.

Escrito nos anos 60, é uma amostra significativa do experiencialismo na literatura e é uma autêntica trip. O protagonista é obcecado com a cultura nativo-americana Mohawk, especialmente com a santa Kateri Tekakwitha, de quem vai contando a mirabolante e chocante história, intercalada com a sua própria.

A sua mulher, também nativo-americana, havia cometido suicídio, e são as saudades da sua pele escura e da sua forma de estar diferente que vão sendo o mote para uma escrita que tem tanto de estranha como de sentimental. Ele e o seu melhor amigo, F., recordam esta mulher, Edith, e estas conversas vão revelando que F. e Edith eram afinal muito mais que amigos. À medida que as revelações vão tomando proporções gigantes, os dois amigos também se vão embrenhando cada vez mais numa relação homosexual e muito conspurcada, pode-se dizer que bastante doentia.

É um livro difícil. Porque não há uma linha temporal segura para seguir, porque as histórias e os tempos se vão misturando, porque há páginas lá pelo meio que são só devaneios imensos e longos, sem pontuação e sem linhas de raciocínio. Por um lado, é revelador saber o que a mente de Leonard Cohen criou antes de se tornar músico. Por outro, é simplesmente assustador. Leiam, se quiserem uma viagem estranha, mas estejam preparados.

Vencidos da Vida
De: Leonard Cohen
Ano: 1966
Editora: Alfaguara Portugal
Páginas: 296

A nossa pontuação: ★★☆☆☆
Disponivel no site Wook.


Como descrever este conto em apenas uma palavra? Não dá, mas duas bastam: nostalgia e solidão.

Em "A Balada do Café Triste", a escritora Carson McCullers conta-nos a história de uma mulher forte, em corpo e em espírito, Miss Amélia, do seu primo corcunda Lymon e de um rufia condenado de seu nome Marvin Macy.

Numa terra norte-americana solitária e esquecida, perdida no tempo e sem muito que fazer, vão se cruzando histórias de várias personagens com as três principais. Um sentimento de tédio peganhento pode descrever a cidade, até à inesperada chegada do primo anão de Miss Amélia, que com as suas maledicências tem tanto de caricato como de entusiasmante : uma novidade numa terra estagnada onde nada acontece.

Desta relação imprevista entre um corcunda anão, Lymon, e a gigante impetuosa que é Miss Amélia, nasce um café onde todos os habitantes do lugarejo vão para conviver. Este café vai ser o palco onde se desenrola o quotidiano na sua calma e tranquilidade, até à chegada de Marvin Macy, ex-marido de Amélia e um ex-presidiário perigoso.

Miss Amélia nutre um ódio profundo por Macy, mas apesar de ser uma mulher reservada e isolada, no seu coração começa a nascer um estranho amor pelo anão corcunda. Este amor vai ser ameaçado pela presença de Macy e o inesperado acontece... Como se irão relacionar estas personagens, donas de personalidades controversas e intensas?

Uma escrita simples e crua, uma história onde as personagens agem para fugir da solidão, procurando entretenimento nas discussões e brigas entre os seus habitantes.
Dá que pensar...Talvez hoje em dia não seja esta terra assim tão diferente de uma qualquer terra deste mundo, pois a verdade é que parece que se buscam muito mais a desgraça e a desventura, do que a paz e a felicidade.

Serão as nossas notícias, as nossas redes sociais, a nossa imprensa, como o café de Miss Amélia, um palco para a má-língua? Estaremos nós tão entediados que não procuramos mais que guerras e desavenças? Espero que não.


A Balada do Café Triste
De:
Carson McCullers
Ano: 2003 - Coleção Biblioteca Escritores Estrangeiros da Atualidade
Editora: Planeta DeAgostini
A nossa pontuação: ★★★★☆

Mais sobre este livro no site Wook.pt

Também não sei... ajudam a escolher? 😀


Um ex-polícia, Matthew Scudder, que de vez em quando faz umas investigações por conta própria é o protagonista deste policial. A acção passa-se 9 anos depois de uma série de crimes que aconteceram, cujas vítimas foram unicamente mulheres, todas atacadas com um picador de gelo. O assassino foi finalmente apanhado e confessou os crimes, mas diz que não foi o autor de um deles.

O pai dessa vítima quer paz e acima de tudo que o verdadeiro responsável, caso não seja o confessor dos outros crimes similares, seja apanhado, e perante a inactividade da polícia, contacta Matthew para investigar. Este acaba por aceitar, embora o rasto dos acontecimentos esteja bastante frio após quase uma década.

Mesmo assim, o faro de Matthew Scudder vai levá-lo a falar com pessoas que nunca foram escutadas e a fazer pressões, levantando véus sobre o passado que fará com que muita gente fique incomodada.

Esta personagem é recorrente nos livros do autor e este foi o primeiro livro que li dele. Adquiri-o no Jumbo por 3€ e valeu bem a pena. É um policial decente com muito mistério e bem estruturado. Matthew Scudder é também uma personagem que vale a pena conhecer e continuar a explorar. A linguagem é simples mas o autor consegue perpetuar o suspense, condição essencial neste tipo de livros.

Uma Punhalada no Escuro
De: Lawrence Block
Ano: 1981
Editora: Cotovia
Páginas: 184

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
... vocês não são assim, pois não? 😝


Comecei na dúvida - nunca tinha lido nada deste autor e o começo do livro aconteceu a toda a velocidade. A personagem principal é um detective privado, que se auto-intitula de "o melhor do mundo", e na parte inicial da trama Mário França de seu nome recebeu uma montanha de casos para resolver. Uma carga tão grande que se tornou algo inacreditável, mas, claro, dei a oportunidade ao autor de se desvencilhar da bicuda situação.

A visita do Papa a Portugal e a ameaça subjacente de um ataque terrorista; mortes misteriosas de padres; a ameaça de morte à rainha da música pop; resolver um conflito de ciganos; e encontrar um rasto perdido do tempo da Segunda Guerra Mundial parecem demais para um homem só, mas o que é certo é que com os conhecimentos de Mário França tudo se resolverá (pelo menos é o que toda a gente acredita, especialmente ele próprio).

Tudo se passa na cidade do Porto mas os casos vão levar o detective a largos passeios fora do território nacional. O que é certo é que sentimos o Porto, a sua gente, as casas, as portinholas, o mercado, as tascas, a ribeira, a luz, o rio, o que nos alegra o passeio por este livro e contribui ainda mais para melhorar a narrativa. Os "assistentes" de Mário França são personagens tão peculiares que só por elas vale a pena ler este livro.

Surpreendentemente, um bom policial "made in Portugal" que me fez ficar muito curiosa para ler mais livros do autor.

Dai-lhes, Senhor, O Eterno Repouso
De: Miguel Miranda
Ano: 2010
Editora: Marca D'água
Páginas: 264

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Vou ter de colocar o título completo deste livro estranho aqui porque é incrivelmente extenso:

How to Talk to Your Cat About Gun Safety: And Abstinence, Drugs, Satanism, and Other Dangers That Threaten Their Nine Lives


Sim, leram bem, é isso tudo. O vosso gato vai durar 100 anos com este guia para que ele consiga poupar todas as suas nove vidas. Nunca se sabe quando o animal se pode perder nas ruas amargas da dependência das drogas, ou ficar preso nas malhas do satanismo.

Esta preciosidade está à venda na Amazon. Comprem já e salvem os gatos por esse mundo fora! E tem um gato fofinho na capa, é sempre um plus.


É com o Japão antigo como cenário que o mais recente romance de Valter Hugo Mãe nos arrebata. Através da sua linguagem característica, apresenta-nos a Itaro, artesão, à sua irmã cega de quem tem tomado conta e à criada que os acompanha e que tem sido mais do que uma mãe.

Na vizinhança, o oleiro Saburo tem a Itaro uma raiva intrínseca e algo inexplicável, que é mútua. Depois da morte da mulher do oleiro, este guarda-se num negrume dentro de si, mas o ódio a Itaro nunca morre.

Itaro, que se coloca acima do vizinho e do mundo, vai tomar decisões que lhe vão valer o desprezo dos seus pares, mas vai participar numa lição de vida única, e essa parte do livro é a minha preferida. É arrebatadora e cheia de revelações interiores, daquelas que podemos facilmente adaptar a cada uma das nossas vidas. É um dos 'poderes' de Valter Hugo Mãe, aqui bem exposto.

De resto, a paisagem e a natureza chegam-nos descritas numa perfeição palpável, e as personagens que vão aparecendo têm algo de sagrado e intocável. Não considero a obra-prima do autor (essa para mim ainda é "O Filho de Mil Homens"), mas é fantástico, e vê-se que é escrito com muito amor por um povo, por um tempo e por um país que nos é distante, mas que nos fica tão próximo depois desta leitura.

Homens Imprudentemente Poéticos
De: Valter Hugo Mãe
Ano: 2016
Editora: Porto Editora
Páginas: 216

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Não é lindo? 😀


A fotógrafa Katherine Elena criou uma sessão fotográfica para um casamento inspirada na Guerra dos Tronos. Os livros de George R. R. Martin e a série deram o mote para um cenário fantástico, onde não faltou um "lobo", vestidos lindíssimos e uma decoração à medida.

Quem acompanha a série sabe que na saga os casamentos não correm muito bem, mas que dá umas fotos engraçadas para um casal fã, lá isso dá.

Via Buzzfeed.