As estantes estão caras e há formas mais criativas e, sobretudo, baratas, para organizarmos os nossos livros. Aqui ficam algumas ideias - vejam como umas ripas de madeira, gavetas ou bocados de couro são suficientes para desempenhar o papel, de forma original e poupada!








Com o Alentejo como pano de fundo, são-nos apresentados os habitantes de uma terreola. Lá, os hábitos são antigos e as pessoas também. Antónia é uma das mais antigas e, apesar de já não andar e pouco ver e ouvir, tem o sonho de visitar a Terra Santa para poder morrer descansada. 

A sua neta Rosa, moça simples de parcos sonhos e buço avantajado, move mundos e os fundos que não tem para manter viva a avó e a ela própria. Mesmo na pobreza e na timidez, a rapariga desperta amores. É o Professor, homem graúdo mas apaixonado pela jovem, que tem a ideia de trazer Jerusalém até ao Alentejo, arrastando consigo toda a gente da aldeia na elaboração da benéfica farsa que fará da velha feliz e de Rosa eternamente agradecida.

Foi um livro que custou a arrancar. As personagens são mais que muitas e cada uma delas tem muitas histórias dentro de si, e não pareciam interligar-se. Foi confuso, ao início. Quando tudo começou a fazer sentido a narrativa fluiu e acabei por adorar o livro. Dentro de cada um dos habitantes mora uma rede complexa de experiências de vida e emoções que torna tudo belo e entrelaçado como uma unidade maior. A leitura flui leve mas marcante e poderosa como um rio. Afonso Cruz é já um dos autores portugueses contemporâneos que mais aprecio e este livro só o confirma mais veementemente.

Jesus Cristo Bebia Cerveja
De: Afonso Cruz
Ano: 2012
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 252

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


O humorista Ricardo Araújo Pereira (RAP), que todos nós conhecemos de outras e muitas paragens, escreve este livro quase em tom de manual para quem quer fazer humor. Mas é mais do que isso. É um pequeno documento histórico onde nos são apresentados vários exemplos do que de melhor se fez no humor ao longo dos séculos.

Desde Chaplin, passando por Woody Allen, Tarantino, Seinfeld e até pel'Os Maias, entre muitos outros, vamos compreendendo melhor o humor e como certas nuances nos podem ter passado despercebidas em obras que conhecemos, ou pensávamos conhecer, bem.

Dividido em 'técnicas' de fazer humor (como "aumentar uma coisa" ou "imitar uma coisa"), este pequeno livro denota acima de tudo a inteligência de RAP e o seu querer partilhar bons momentos e algumas gargalhadas e, neste caso, História e conhecimento.

A doença, o sofrimento e a morte entram num bar 
De: Ricardo Araújo Pereira
Ano: 2016
Editora: Tinta da China
Páginas: 112

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.


Este é o primeiro romance da jovem escritora californiana Emma Cline, que aos 27 faz a sua estreia no mundo literário.

Trata-se da história de Evie que, nos anos 60, é uma adolescente reservada até que um dia encontra umas raparigas que vivem em conjunto num rancho e que lhe chamam a atenção - são como que desprendidas do mundo, como se não quisessem saber das consequências das suas ações, das opiniões dos outros e do mundo. Uma delas em especial - Suzanne - desperta em Evie qualquer coisa mais. O seu olhar selvagem e despreocupado torna-a num ídolo para Evie, que nunca a esquece.

E quis o destino que se voltassem a ver. Evie idolatra Suzanne e tudo o que ela faz parece ser o correcto; todos de quem ela gosta Evie passa a gostar também; as acções que Suzanne tem, Evie imita. E aos poucos a adolescente reservada vai mudando conforme vai entrando mais no mundo de Suzanne e adoptando o seu estilo de vida.

Quando está totalmente embrenhada na nova amiga e a segue como um cordeiro para todo o lado, o desprendimento da sua antiga vida vai tomando grandes proporções - quase se esquece que um dia já teve outras amigas, que dormia sempre no seu quarto de adolescente, que tem pais que se preocupam com ela, que andava na escola e tinha sonhos de menina. E tudo se desmorona. Como tudo o que é demais, torna-se perigoso. Um acontecimento vai mudar a vida de Evie para sempre. Será que valeu a pena ter deixado tudo para trás?

A ação vai alternando entre o tempo presente e o passado. Vemos o olhar inocente de Evie com 14 anos, e seguimo-la também em adulta, analisando tudo o que se passou com a frieza da distância e da maturidade. Apesar de se passar nos anos 60, reflecte um grande problema dos nossos dias e de todos os tempos - a necessidade, muitas vezes perigosa, que os adolescentes têm de seguir alguém e de se armarem aos cucos, com acessos de rebeldia injustificável.

Apesar da relativa normalidade do enredo, é um livro muito bem escrito, e se não soubesse nunca diria que é o primeiro romance de alguém. Há que dar os parabéns a Emma e esperar pelas próximas aventuras nas letras.

As Raparigas
De: Emma Cline
Ano: 2016
Editora: Porto Editora
Páginas: 272

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook
E começamos o ano com um balanço do que melhor se fez em termos de capas de livros. São daqueles casos raros em que podemos julgar o livro pela capa! As escolhas são do Buzzfeed e podem consultá-las todas aqui. Das escolhidas, este é o meu top 5. Boas leituras para 2017!






Ah, pois é :)

O leitor que nunca snifou os seus livros que atire a primeira pedra!




Este é um clássico com mais de 120 anos, mas se me dissessem que tinha sido escrito ontem eu acreditaria. É completamente actual e escrito com uma linguagem leve, perceptível, e acima de tudo com muito humor.

O livro conta a história de três amigos que decidem dar umas férias às suas vidas cansativas e fazem-se ao rio (Tamisa) numa viagem de 15 dias cheia de peripécias. Com eles vai o cão do narrador (Montmorency) a ajudar à festa. Um dos segredos desta história bem sucedida está no facto de se basear em factos reais. A pretensão do autor até era que o livro fosse uma descrição histórica e topográfica do rio, mas as situações que os amigos foram vivendo tomaram conta da narrativa e fizeram dela um ícone da literatura mundial, com muitas gargalhadas à mistura.

Efectivamente, as interacções e peripécias dos amigos são o ponto forte do início ao fim. As partes menos interessantes, a meu ver, foram os tais levantamentos históricos sobre o rio, porque, pelo menos para mim, uma vez que uma pessoa se habitua à narrativa cómica, isso representa uma quebra no ritmo da leitura.

O livro teve seis adaptações cinematográficas (!) por diversos países e foi interpretado no teatro e eternizado noutras formas de arte, como escultura, pintura e ilustração. Portanto, uma história imortal de grande sucesso, aconselhada para todos.

Três Homens Num Barco
De: Jerome K. Jerome
Ano: 1889
Editora: Alma dos Livros
Páginas: 224

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
Inspira, expira e não pira...



Escrito antes do famoso "Matar a Cotovia", este manuscrito de Harper Lee andava perdido e foi descoberto em 2014. Em "Vai e Põe Uma Sentinela", são-nos apresentadas as personagens míticas daquela obra vencedora do Prémio Pulitzer, 20 anos mais velhos.

Scout regressa à sua cidade natal, vinda de Nova Iorque, para passar umas férias junto da sua família. Depois de passar tanto tempo na 'cidade grande', os modos tradicionais e as ideias fixas dos habitantes da terrinha no Alabama incomodam-na, no meio das recordações que vai tendo da sua infância. Tudo descamba quando é a sua própria família e um amigo próximo a apoiar ideias tacanhas. Com a questão da desigualdade racial em cima da mesa, este livro é um retrato, a ponta de um grande icebergue, sobre o que se passava nos anos 50.

É um livro que não gera consenso na sua avaliação. Há quem o adore e quem o odeie, sendo que quem leu o "Matar a Cotovia" tinha grandes expectativas que não se confirmaram. Para mim, é um livro interessante com situações dignas de registo mas sem grande sumo. Gostei da personagem principal - Jean Louise Finch (Scout) e das vicissitudes da sua relação com o pai; das suas quezílias com a comunidade e com a tia; mas cerca de metade do livro, para mim, é desinteressante, com recordações excessivas sobre o passado e sem grande coisa digna de apontamento.

Vai e Põe Uma Sentinela 
De: Harper Lee
Ano: 2015
Editora: Editorial Presença
Páginas: 240

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.