Victor é hoje dono de um império. Aos 80 anos tem mais dinheiro do que aquilo que consegue gastar. O Mercado do Sabão, do qual é dono, proporcionou a ascensão económica deste homem solitário. Mas nem sempre foi assim. Ele nasceu pobre, muito pobre. Órfão de pai, mendigava nas ruas desse mercado com a mãe, que o manteve apertado mamando no peito até uma idade demasiado avançada para o efeito. Quando deixou de haver leite, ela passava mel nos seios para ele continuar a mamar. Um método pouco ortodoxo, mas era esta visão de uma mãe a amamentar que dava esmolas fáceis, e ela aproveitou até ultrapassar o limite para os poder subsistir.

Isto fez com que Victor crescesse atrofiado de músculos e de habilidades sociais. Com poucos anos de idade, arrastava-se pelo chão e não dizia uma palavra. Não conhecia as cores e as caras da cidade, apenas os sons e visões dos pés dos transeuntes. Foi quando a mãe morreu que tudo mudou e Victor teve de arranjar modo de sobreviver sozinho. Foi um percurso notável até se tornar dono daquele mercado onde a mãe mendigou.

Idoso e com muito dinheiro, Victor decide onde o gastar - quer renovar o mercado. Construir uma estrutura moderna e nunca antes vista como homenagem à sua mãe. Arcádia seria o nome desse centro do comércio envidraçado, repleto de ar condicionado e com portas fechadas aos mais pobres. Mas será que os comerciantes, os habitantes e os errantes o vão deixar continuar com a excentricidade?

Jim Crace oferece uma história empolgante onde ricos e pobres se defrontam, onde o poder do dinheiro é rei e senhor implacável, onde a sede de poder dita comportamentos. É um reflexo do desejo de modernidade, de se ser mais e maior mesmo quando não há necessidade. O livro está repleto de cheiros, formas, cores, com descrições fantásticas e pormenorizadas do mercado que se está a meter entre o mundo antigo e o progresso. Muitas vezes sarcástico e com humor, o autor inglês deita cá para fora as entranhas da inveja, do ciúme e do interesse numa crítica à vida moderna.

Arcádia
De: Jim Crace
Ano: 1992 (edição de 2006)
Editora: Gradiva
Páginas: 359

Disponível em inglês no site Wook.
A nossa pontuação: ★★★☆☆

É oficial - os livros para colorir vieram para ficar e agora podemos adquirir grandes clássicos da literatura para colorir. Estes livros para adultos são um óptimo método para relaxar e um novo hobbie para os amantes das leituras e das artes. Tenho de pôr as mãos naquele Drácula!










A fotógrafa e designer de jóias Manon Richard cria objectos lindíssimos que brilham no escuro, e agora alargou esse conceito aos marcadores de livros. Basta deixá-los junto de uma fonte luminosa a "carregar" e eles darão luz pela noite fora.

Para além do nobre objectivo práctico de nos sinalizar as páginas dos nossos melhores amigos, são mesmo bem feitos (à mão) e criam um belo efeito. Podem espreitar a loja online da artista aqui.

Fonte: Bored Panda





 
A história é narrada pelo melhor amigo e assistente do doutor Herbert West desde os tempos da faculdade. West tem a teoria de que o corpo pode ser reiniciado depois de morto e dedica a sua pesquisa académica a tentar prová-lo. Depressa a teoria passa à prática e o médico começa a fazer experiências em animais. Mas ele quer mais. Quer ressuscitar seres humanos e para isso precisa de corpos frescos e sem danos, que vai conseguindo através de meios nem sempre honestos...

O narrador assiste a tudo isto, com uma curiosidade mórbida crescente, que se vai transformando em medo à medida que as experiências vão fugindo ao controlo. Com a quantidade de experiências falhadas e corpos a crescer, a pergunta impõe-se: o que acontecerá quando a experiência correr bem? Qual será a reacção de um corpo ao ser trazido de novo à vida? Quando Herbert West acaba por desaparecer, o narrador dá-nos as respostas.

É um livro muito curto mas muito sumarento. É muito avançado para a época e foi uma das primeiras referências aos zombies tal como os conhecemos hoje em dia - mortos-vivos. É bastante gráfico e apenas aconselhável aos que gostam de se impressionar com cenários de terror (como é o meu caso). H. P. Lovecraft é um mito nesta área e muito do cinema, da televisão e literatura de terror que se faz hoje em dia é baseada nas suas ideias. Aliás, influenciou decisivamente o trabalho de autores como Hitchcock ou Stephen King. É muito injusto ter tido apenas reconhecimento póstumo e ter morrido na pobreza.

Este livro deu um filme em 1985 com Jeffrey Combs no papel do macabro doutor Herbert West.

Herbert West: Reanimator

De: H. P. Lovecraft
Ano: 1922
Páginas: 92 (na edição Quasi Edições)


A nossa pontuação: ★★★☆☆
Os edifícios mais altos projectam
as mais longas Sombras
(do mesmo modo os Grandes Homens deixam
a sua Marca tapando o Sol,
e, ao procurarem eles próprios Calor, lançam
o Frio sobre todos os outros).

Emile Dell'Ova, Truismes
Editions Baratin, Paris, 1774

Para pensar... ;)


Pois é. Tal como a nossa amiga aqui da imagem, quem é que nunca se apaixonou por uma personagem? Seja cavaleiro andante, príncipe ou princesa, cavalheiro ou dama, homens e mulheres fortes, exemplares, bons de coração, espadachins exímios, polícias ou nobres ladrões... Qual é a personagem que vos levava ao altar?

Eu, como tenho muito de louca e sou apegada ao lado negro da vida, tenho no coração o Jack Torrance do The Shinning. Porque um homem que sabe usar um machado tem o seu je ne sais quoi...

Mas para dar o nó teria de escolher o meu mestre Stephen King, está claro.


Ora aí está mais um quiz, e este propõe-se a analisar-nos de acordo com a nossa caligrafia. Acredito que a maneira como escrevemos diz muito acerca de nós, e por isso partilho convosco - podem aceder aqui.

Quanto a mim, parece-me que acertaram em tudo, essencialmente na minha necessidade de controlo e natureza organizada com um toque de rebeldia.



Este ano mais de 40 editoras vão estar presentes num fantástico evento literário que vai decorrer no Palácio de Belém. Nesta Festa do Livro estarão editores como a Almedina, a Relógio d' Água, a Bertrand e tantas outras do agrado dos bibliófilos.

Abrem-se as portas do emblemático espaço da Presidência a todos os amantes da leitura. Uma excelente iniciativa a aproveitar e visitar este fim de semana, de 01 a 04 de Setembro.

Saibam mais no site da Presidência da República Portuguesa.

Esta é a história entrelaçada de três gerações de uma família indiana. Estha e Rahel, gémeos biovulares, crianças irrequietas e de imaginação fértil, são o centro de tudo. Com uma cumplicidade e uma amizade infinitas vão marcando a vida de todos à sua volta e nem todos os vêm com bons olhos. Crescendo sem pai, tragédia praticamente inaceitável mesmo pela família, deambulam, brincam, criam os seus cenários, as suas brincadeiras que mais ninguém entende, com uma linguagem própria de quem se conhece um ao outro como a palma da mão.

A sua mãe, Ammu, passa ao lado da vida até encontrar um amor proibido que a levará à desgraça. O seu tio, Chacko, passa ao lado da vida até reencontrar a filha que não viu crescer e a ex-mulher que não o quer. A sua avó, Mammachi, passa ao lado da vida a carregar as cicatrizes da mão pesada do marido e a vergonha da família. Baby Kochamma, tia-avó, passa ao lado da sua vida, tomando a dos outros como a sua e dificultando tudo a todos por ter tido um amargo passado. E a vida vai acontecendo e muitas coisas precisam ser ditas, deitadas para fora, partilhadas, mas todos falam apenas das pequenas coisas. Estas são mais fáceis de deitar cá para fora. As outras ficam entaladas na garganta. E quem precisa das coisas grandes, quando sentir os pés molhados pelo rio lamacento, observar o voo das borboletas, dar nomes e cheiros às cores é tão mais importante?

A tragédia vai marcar esta família para sempre e nada, nunca mais, vai ser o mesmo. Estha e Rahel, 23 anos depois de uma vida separados, encontram-se. Irmão e irmã que se tornaram desconhecidos mas ligados por uma força que mais ninguém compreende e memórias só deles. A culpa, o peso nos ombros, as costas curvadas pela maldade não importam quando se têm um ao outro, por fim.

Um livro daqueles que é muito mais do que um livro. É um retrato social de uma Índia formada por uma sociedade de castas, um sistema injusto num clima político fervoroso. É uma viagem por estradas, rios, cheiros, cores que desconhecíamos e que sentimos como nossos. É uma ida ao pormenor imensamente bem conseguida. É um transporte autêntico para outro país, outra família, outras relações que não julgávamos possíveis. É estar sempre a voltar atrás na leitura, porque há tanta coisa que merece ser relida e ficar cá dentro mais um pouco.

Este foi o único livro de não-ficção escrito pela autora. Arundhati Roy ganhou o Booker Prize no ano de lançamento do livro em 1997. Não é fácil de ler. Parece que a autora tinha em si o mundo para contar e fê-lo, com toques auto-biográficos. E isso merece uma leitura cuidada e sentida.

O Deus das Pequenas Coisas
De: Arundhati Roy
Ano: 1997
Editora: BIS
Páginas: 368

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
A minha carteira até teias de aranha tem... mas quando se encontra "aquele" livro... que fazer? Até o pó do porta-moedas se vende, se preciso for! Ai vida, aguenta carteira!