Tsuneo trabalha para o Departamento de Estrangeiros e Fronteiras japonês, e uma das suas funções é fazer rusgas em locais onde emigrantes ilegais se encontrem. Numa dessas rusgas, um dos suspeitos foge e Tsuneo persegue-o. No entanto, quando o consegue apanhar, é assaltado por uma sensação arrebatadora que toma conta do seu corpo. Sem conseguir controlar os seus movimentos ou sensações, é percorrido por uma força devastadora com algo de sensual e feminino. E ali, num cemitério, e vendo o perseguido fugir, esta "coisa" inexplicável que o possuiu fá-lo atingir um êxtase sexual e involuntário como nunca antes lhe tinha acontecido.

Este episódio marcante nunca lhe saíu da cabeça, mas Tsuneo prosseguiu a sua vida numa tentativa de retomar a normalidade até começar a ouvir uma voz falar com ele. Uma voz de mulher que chegava até ele através do pensamento, do coração, e com a qual começou a envergar conversas íntimas. Ora isto não podia vir em pior altura, porque Tsuneo está noivo e não é altura para ouvir outras mulheres dentro dele. Tenta então descortinar a origem da voz, numa luta consigo mesmo e com todos os outros que se lhe vão atravessando no caminho.

Este é o terceiro livro de Taichi Yamada que leio e depressa se está a tornar num dos meus autores favoritos. Este homem tem uma espiritualidade terra-a-terra, que é compreensível e palpável. Consegue pôr em palavras sensações que são tão difíceis de explicar, e fá-lo com tanta mestria que não raras vezes leio e releio algumas passagens, porque são belas ou porque nunca tinha pensado nas coisas naqueles modos.

Nota-se bem a sua apetência cinematográfica porque conseguimos visualizar tudo o que é sentido. As relações que retrata nos seus livros têm sempre algo de impossível e inalcançável, mas sempre dentro de um mundo que conhecemos, com personagens sem nada de transcendente, que simplesmente se dedicam a viver, a dar e a receber, que exigem, mas dão de volta, estão receptivas, aventuram-se para lá das suas vidas, terrenas e não só.

Em Busca de Uma Voz Distante
De: Taichi Yamada
Ano: 2007
Editora: Livraria Civilização
Páginas: 206

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.
Leitoras! Ponham os olhos nestes anéis, se são fãs dos livros. São peças únicas, feitas à mão em ouro e prata pela artista Roxy Becofsky. Ela faz tudo sozinha e todos os os anéis são personalizáveis, por isso podem passear o vosso livro favorito nos dedos, ou até pedir uma personagem de que gostem.

Visitem a sua loja online, vejam anéis também de outras temáticas e inspirem-se para uma futura encomenda, que isto dá uma bela prenda (nem que seja para nós próprias!).




Fred Astaire - alcunha ganha pela leveza de pés tal como o original - está na casa dos 60 e é carteirista há décadas. Pratica o difícil ofício que é ter dedos de nuvem, oportunidade e muita lata na cidade de Lisboa, principalmente em grandes eventos, transportes públicos, ou quando a oportunidade, ou as carteiras, se atravessam à sua frente.

No entanto, Fred viu chegar a sua ruína quando começaram a surgir as caixas multibanco e a machadada final foi dada quando as lojas começaram a aceitar pagamentos com cartão, esse instrumento do diabo que fez com que as carteiras passassem a andar bem mais magras.

É num mau momento em que não tem onde cair morto que conhece a Gaby das Mamadas, prostituta exímia na fabulosa arte do sexo oral e com ela faz amizade. Não tarde que ela o leve para sua casa, que divide com um bando de marginais - Messias, ex-polícia que vendia coiratos com a mãe; Doses - viciado em heroína; e Porcalhão - arrumador de carros versado em palavrões. É com esta companhia que Fred elabora um plano que pretende fazer dos pobretanas uns ricaços de primeira...

Moita Flores conta esta história com um sentido de humor irónico, crítico e algo perverso, para o qual contribuiram decerto os anos que passou como inspector da Polícia Judiciária, no departamento de furto qualificado. Esta experiência adiciona elementos específicos que são tanto de rir até às lágrimas na sua surrealidade como alvo de alguma tristeza e saudosismo. A crítica social está constantemente presente, em especial na caracterização do povo português, que 'engole' tudo o que os media lhes metem à frente, sem questionar. Um retrato de um país onde os que mentem ganham, onde os ricos ficam mais ricos e a honestidade não leva a lado nenhum.

É portanto uma história divertidíssima, brilhantemente escrita, com personagens fantásticas e cómicas, mas ao mesmo tempo é um reflexo do nosso povo que, aqui e ali, nos põe a pensar. Nota-se bem que o autor é um talentoso argumentista, e esta história dava um fabuloso filme.

O Carteirista Que Fugiu a Tempo
De: Francisco Moita Flores
Ano: 2001
Editora: Editorial Notícias
Páginas: 152

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.
E que tal andar com homenagens a grandes livros ou autores ao ombro? Seja para levar as compras, livros ou os nossos pertences pessoais, são sacos bem jeitosos que podemos envergar com orgulho! Ora vejam estes exemplos :)

Não, não estou a falar das vivências nos mundos alternativos que os livros oferecem... isso também é bom, claro, mas um recente estudo afirma que quem lê vive mais anos do que quem não lê.

Ora isto são óptimas notícias para nós, bichos das letras, que por este andar vamos passar dos 100 anos! Em termos gerais, leitores assíduos vivem em média mais dois anos que os não-leitores, o que é explicado por diversas razões. Quem lê vê a sua vida afectada de várias formas, e apresenta melhorias que vão desde o melhor conhecimento da realidade económica até a uma melhor saúde mental.

Há outros dados interessantes, como por exemplo as crianças que lêem, quando adultos, têm melhores ordenados do que aqueles que não tinham hábitos de leitura. Vejam estes e outros dados no estudo divulgado pelo Indepedent.

Em plena Grande Depressão, acompanhamos a família Lester, que vive na Georgia rural. Jeeter Lester, o patriarca, teve 17 filhos. Alguns dos que não morreram, fugiram de casa para trabalhar nas fábricas das cidades próximas. Com ele moram dois filhos - Dude, de 16 anos, que deve muito à inteligência, e Ellie May, de 18, que nenhum homem lhe pega porque tem o lábio rasgado de nascença - a mulher, Ada, e a avó Lester (que não abre a boca para falar há anos).

Apesar da fome que os atormenta todos os dias, Jeeter é apegado à terra e é lá que quer morrer. Insiste nesse ponto até ao fim, mesmo havendo dias em que não tem o que comer. Todos os dias olha para os campos vazios e lamenta não ter dinheiro para sementes ou uma mula para lavrar, e todos os dias toma a resolução de ir pedir fiado e uma mula emprestada, ou cortar madeira para vender. E todos os dias adia para o dia seguinte, só por preguiça. Ano após ano. Existe sempre algo melhor para fazer, como ficar a olhar para as ripas velhas de madeira da casa caírem ou sonhar acordado com um automóvel novo. No meio disto tudo arranja esquemas para arranjar dinheiro, como roubar ou vender coisas que não são dele.

Este livro de 1932 é riquíssimo e tem em si o retrato de uma época marcante. Oferece uma perspectiva única sobre tantos temas como a religião, o racismo, o valor da família, a pobreza, ou o egoísmo cego. Tudo isto envolto numa aura de humor negro bem característica. É uma escrita de mestre, onde o narrador, após cada capítulo, segue a personagem com a qual o anterior terminou. Usa as repetições frequentemente mas de modo eficaz e extremamente engraçado. As personagens são tão marcantes e com características tão próprias que depressa nos apaixonamos por todos, apesar de serem uns calões, cada um com a sua grande pancada.

É um livro fantástico, considerado um dos melhores clássicos americanos. Foi adaptado para a Broadway em 1933, e ainda hoje é o segundo espectáculo que por lá ficou mais tempo. Foi também adaptado para o cinema em 1941 por John Ford. Ainda não vi o filme mas quero muito ver, apesar de as críticas o considerarem demasiado afastado das ideias do livro. Veremos. Entretanto, se puderem dar uma espreitadela nesta grande obra, não deixem de o fazer.

A Estrada do Tabaco
De: Erskine Caldwell
Ano: 1932 (reedição de 2014)
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 208

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


Com 131 stands à disposição dos mais ávidos leitores do norte, a Feira do Livro do Porto promete ser um evento fantástico, com concertos, lançamentos, sessões de autógrafos... e este ano num novo espaço: nos jardins do emblemático Palácio de Cristal.

De 02 a 18 de Setembro, milhares de pessoas são esperadas, todas à procura do seu novo amor literário ou de um companheiro para folhear no verão, à busca daquela oportunidade que não se pode perder ou daquele livro raro que se procura há anos.

É de visitar :)

Saibam mais em Publico.pt.



A letra de "Ouvi Dizer" dos Ornatos Violeta é toda ela uma ode à língua portuguesa. Lançada em 1999 no álbum "O Monstro Precisa de Amigos", foi o primeiro single do disco e é uma das músicas-bandeira da banda do Porto que teve o seu término em 2002. Manel Cruz, esse grande artista que deu voz e letras aos Ornatos, faz agora parte de outras bandas e também tem projectos a solo. Mas os saudosistas, esses, dizem que nunca haverá nada como os Ornatos.

Esta música rock cantada em português é, por inteiro, belíssima (uma das mais belas de sempre), mas a parte final na voz de Vítor Espadinha provoca arrepios na espinha sempre, mas sempre, que a ouço. Para recordar:

A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura.
Ora amarga, Ora doce...
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura.


Um escritor com uma crise de inspiração enfrenta as dificuldades dos tempos modernos quando numa manhã como qualquer outra começa a ser importunado por email por cinco pessoas diferentes. Com um profundo sentido de organização virtual (não descansa enquanto não arquiva os seus emails por pastas de destinatários, após terem sido devidamente numerados), e devido ao seu civismo nestas coisas da tecnologia social, não consegue simplesmente ignorar um email.

O escritor começa por receber emails de alguns conhecidos com quem costuma trocar este tipo de comunicação, mais eis que surge um "Admirador" anónimo que lhe faz uma proposta indecente - propõe-lhe que escreva um livro e lhe ceda os direitos de autor. Portanto, que se torne um escritor-fantasma. Ao mesmo tempo que estranha esta proposta e quer aprofundar mais o assunto - quem é o Admirador, o que propõe exactamente e como sabe tantas coisas pessoais sobre ele - as conversas com os outros correspondentes virtuais começam a descarrilar e a dar problemas. O escritor vê-se metido numa embrulhada.

Enquanto tudo isto acontece, o gato do escritor, Félix, nome que inspirou a sua identidade virtual, deambula à sua volta e dá origem a situações muito engraçadas nas quais recebe toda a atenção do seu extremoso dono, que nem é capaz de o mover se por acaso ele adormece em cima do teclado.

No final só uma pergunta impera - quem é aquele que assina como Admirador? Será um completo desconhecido? Ou será um dos outros correspondentes virtuais, já que estão todos com discursos fora do comum?

Este romance curto e leve que não leve a enganos, porque apesar de ligeiro tem uma trama complexa que nos obriga a pensar e vemo-nos desejosos de saber quem é quem. Toda a ação se passa em poucas horas e no mesmo local e no entanto o ritmo é alucinante, à medida que o escritor se vê envolvido nas mais espantosas e surreais conversas virtuais. Tudo está tão bem estruturado, e os pormenores são tão únicos que mal damos por nos metermos no labirinto que é este livro. Os "intervalos" entre as conversas por email são bem preenchidos com adoráveis aventuras com o gato Félix.

Fiquei bastante curiosa para ler outros trabalhos deste escritor sérvio de quem nunca tinha ouvido falar. Ele meteu muito dele na personagem principal uma vez que partilham muitas características, entre elas o afecto por gatos.

Nota: não deixem de ler o posfácio, foi um 'abre-olhos' para mim!

O Escritor-fantasma
De: Zoran Živković
Ano: 2009
Páginas: 144
Editora: Cavalo de Ferro

A nossa pontuação: ★★★☆☆
Disponível no site Wook.

Ninguém que conheça superficialmente Florentin Bosse imagina que já trabalhou durante anos de fato e gravata num banco. A sua vida sofreu uma reviravolta e acabou por fazer 3.800 quilómetros a pé entre Berlim e Santiago de Compostela. O seu sonho de ter uma vinha e gozar a reforma foi passado para segundo plano quando teve uma ideia melhor - abrir uma livraria em Lisboa.

O seu gosto pela leitura em papel e o querer fazer perdurar este hábito na era digital deram-lhe a vontade de meter mãos à obra e pediu a amigos e a desconhecidos que lhe facultassem uma lista dos seus 10 livros favoritos. Assim, reuniu centenas de opiniões para criar uma livraria, a Letters Matters, que vá ao encontro dos mais variados gostos, não necessariamente bestsellers.

Abriu em julho no Largo do Rato, tem uma decoração dedicada aos grandes escritores (lá constam Oscar Wilde ou Fernando Pessoa, por exemplo), e tem toda uma atmosfera convidativa, onde se inclui um lounge que incentiva à conversa e um restaurante. Florentin pretende que este espaço se torne uma referência no panorama cultura, com lançamentos, debates ou exposições. A visitar!

Saibam mais no site do Público.