Este livro é uma colectânea de contos do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Na primeira página reza assim: "14 contos fantásticos e histórias de uma elegância demoníaca". Está tudo dito! Se definisse Hitchcock numa palavra, seria mesmo essa - elegância. Apesar do elemento comum de todos estes contos ser a morte, tema pesado e sério, ele torna-a num ingrediente delicioso que nos faz querer mais e mais, descobrir os responsáveis, desvendar mistérios e participar em tramas complexas apesar de curtas. Isto só é possível com a tal elegância da escrita, uma desenvoltura ligada a uma das imaginações mais negras e mais férteis da arte.

Pioneiro e único no mundo do cinema, da literatura e da televisão, conhecido em todo o mundo e por todas as gerações, Hitchcock é um contador de histórias natural e escrevia sobretudo contos. Por um lado, apegamo-nos tanto às personagens que é uma pena quando a história chega ao fim mais depressa do que estamos habituados. Porque o autor é mesmo assim - capaz de nos prender em pouquíssimo tempo e dizer / fazer acontecer tanto em poucas páginas. É esse o meu maior desgosto com os contos de Hitchcock - queria mais! Por outro lado, é um estímulo mental de elevadíssima qualidade, uma cadência de acções que nos faz pensar, buscar soluções, que nos espanta e surpreende ao virar de cada página.

Entre as muitas histórias, temos por exemplo o caso do mistério do joalheiro assassinado a tiro na própria loja; o homem que se quer matar porque a mulher o trocou pelo melhor amigo; o caso do homem que apareceu morto fechado no seu próprio carro; o homem que conspirou para matar a mulher e ficar com a amante; enfim, um pouco do pior do ser humano está reunido nestas fantásticas histórias, misturado com boas doses de humor e ironia, e Hitchcock vale a pena a qualquer hora.

Procissão de Assassinos
De: Alfred Hitchcock
Ano: 1975
Editora: Impala
Páginas: 220
A nossa pontuação: ★★★☆☆

Disponível na Bulhosa.



472 escritores, entre eles 10 vencedores do prémio Pulitzer e 4 vencedores do National Book Awards, entre muitos outros prémios, assinaram uma carta aberta contra a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos da América.

O movimento foi iniciado pelos romancistas Andrew Altschul e Mark Slouka e conta com a assinatura de 472 nomes, entre eles Stephen King, Amy Tan, Junot Díaz, Michael Chabon, Dave Eggers, Francine Prose, Tracy K. Smith, entre muitos outros. Esta carta aberta transformou-se agora numa petição pública que pode ser lida e assinada aqui.

Andrew e Mark decidiram promover esta carta pela frustração que é assistir à ascensão de uma figura política perigosa. Falaram com colegas escritores e em dois dias já tinham centenas de apoiantes. O objectivo é expressar a voz da comunidade em como Trump não se ajusta aos valores morais da América e passar essa palavra ao maior número de pessoas.

Leiam a carta, é fantástica, um apelo emotivo onde a frustração é palpável. Uma carta que repudia o uso da língua em nome do poder; que defende o pluralismo e a discussão de ideias; que apela à História de um país multicultural; que critica a manipulação, a divisão e as mentiras; que diz que um líder deve ter conhecimento, experiência, espírito aberto, consciência do peso histórico do país, em vez de incitar à violência ou denegrir as mulheres e as minorias.

O bicho das letras está com estes escritores. A falta de respeito tem de ser travada. Este senhor estar onde está é uma ofensa para qualquer um com dois dedos de testa.

Fonte: Buzzfeed

 
Quando digo "mau", refiro-me àquele livro, mais ou menos populista, que muitas vezes se pensa que fica a dever à qualidade literária tanto como tem, em excesso, o sensacionalismo de uma revista cor-de-rosa.

Quem é que não deu por si com uma edição da Harlequin nas mãos, sentindo a vergonha de "devia era estar a ler André Malraux"? Depois dizemos que era da avó Nélinha, que é uma viciada nestes quentes romances espalhafatosos das Sabrinas e das Biancas, coitada... mas no fundo até que nos rimos com as desventuras ardentes destes livritos que parecem uma telenovela mexicana daquelas que se viam à hora de almoço na RTP1 na década de 90.

Ou então o "As Cinquenta Sombras de Grey"? Vá, confessem! Todos conhecemos uma pessoa, daquelas para quem a literatura só existe quando criada antes do século XXI, que abomina flores e texturas nas capas dos livros, mas que um dia (o horror!) deu por si na casa da recém casada irmã mais nova, e encontrou um livro de que tanto falavam e a curiosidade foi mais forte : e pimbas! Vai que leu aquilo tudo, sofregamente, enquanto pensava: "isto é tão mal escrito! Mas já agora deixa cá ver o que é que ele lhe faz com o chicote".

Para mim, o meu "shame-on-me" livro veio com amigos, em modo saga.

Querem saber qual é?

Estão preparados?

Caso sejam seguidores deste blog até já sabem!

Ora... é a saga TWILIGHT!

CALMA! NÃO FUJAM! São vampiros, mas não mordem (muito).

E o vosso livro "da vergonha"? Qual é?

Desbronquem-se lá! Tenham coragem. E não vale dizerem que não, que vocês nunca!
Ah! E os livros "Uma Aventura" também contam! Ou um qualquer da Margarida Rebelo Pinto!
Existe uma cadeia de livrarias abertas 24 horas por dia que está a ser um sucesso tão grande que já se expandiu para 48 lojas em Taiwan, Hong Kong e China. O conceito parecia estar condenado ao fracasso, já que a principal premissa é um convite a todos para lerem à vontade, em qualquer hora, sem terem de pagar. Portanto, é quase uma biblioteca com opção de compra aberta o dia inteiro.

O curioso é que o período com mais clientes é entre as 22h00 e as 02h00 e ao que parece estão a roubar clientela aos bares, aos karaokes (muito populares por aquelas bandas) e às discotecas. Como muitos dos livros estão em inglês a Taiwan’s Eslite Bookstore já se tornou também uma atracção turística.

Para ter lucro, este conceito de biblioteca-livraria é acompanhado de muitas outras actividades, como degustação de vinhos, sala de chá, venda de roupa, café, restaurante, concertos, espectáculos de dança, exibição de filmes, cursos de culinária, e muito mais. Apesar disto tudo, o papel principal é dos livros. São eles o motivo que faz com que os clientes venham visitar e se deixem estar, à vontade, sem pressão. É um centro de leitura, de convívio, de artes, aberto todo o dia, sempre pronto a receber. Eu frequentaria!

Fonte: The Guardian








Kim, Ola, Gunnar e Seb são quatro pré-adolescentes que vivem na Noruega nos anos 60 e veneram tanto os Beatles que cada um tem a alcunha de um membro da banda, e é algo que levam muito a sério. Em cada novo lançamento, juntam-se, metem o disco a tocar e vivem um momento quase religioso de adoração à banda de Liverpool. Ouvem, ouvem outra vez, discutem o que ouviram, voltam a ouvir melhor. Que ninguém se atreva a dizer mal dos Beatles, que eles defendem-nos de garras afiadas com todo o ardor.

Neste livro assistimos às mirabolantes histórias destes quatro amigos e acompanhamos o seu crescimento à medida que o tempo passa. Começamos na fase na descoberta e de uma certa inocência, onde o aparecimento de uma revista pornográfica é acontecimento que merece honras de reunião na casa de banho dos rapazes com toda a turma. Uma fase em que jogar à bola e ir à pesca, passar noites a olhar para as estrelas e estar fora de casa sem aturar os pais é a melhor coisa do mundo. Depois, a prioridade passam a ser as miúdas, no despontar da adolescência que lhes traz amargura e desilusão como nunca antes tinham sentido. Daí até às verdadeiras preocupações aparecerem é um pulinho. Arranjar emprego, fugir das drogas e das más companhias, participar activamente na vida política ou apenas sobreviver rouba-lhes todo o tempo.

Lars Saabye Christensen é um narrador exímio que, através das palavras, nos oferece uma nostalgia e uma melancolia únicas. Não temos descanso na leitura, está sempre a passar-se alguma coisa que nos prende. Ao longo da leitura deste livro tantas emoções são despertadas - saudade, tristeza, dó, ternura, alegria, desilusão, esperança... - que se torna uma montanha russa. É uma autêntica viagem pela amizade e pelo seu verdadeiro significado, e todos nós conseguimos, num momento ou noutro, rever-nos em algumas das diversas vivências descritas. Lars empresta uma certa crueldade à escrita, uma crueza que, aliada a vários momentos de humor, transformam este livro num relato espantoso e tão verdadeiro que nos transporta directamente para os anos 60, para o rock n roll, onde os Beatles estão presentes, do princípio ao fim, mas não estão sozinhos.

Só há poucos dias soube que o livro foi adaptado para o cinema em 2014. Ainda não tive a oportunidade de ver, mas está no topo da minha lista de prioridades. É realizado por Peter Flinth, também norueguês como o autor do livro, e podem espreitar o trailer aqui.

Beatles
De: Lars Saabye Christensen
Ano: 1984
Editora: Cavalo de Ferro
Páginas: 560

A nossa pontuação: ★★★★☆
Disponível no site Wook.


Não há canção-poema que faça mais juz ao nome do que esta. Os Trovante fizeram do fantástico poema "Ser Poeta", de Florbela Espanca, uma música que todos conhecemos intitulada "Perdidamente". É uma canção que remonta já a 1987 e que é um porta-estandarte da língua portuguesa e tem atravessado gerações. Musicada por João Gil e com a voz de Luís Represas, quem nunca sonhou alto e perdidamente com esta canção eterna?

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens, morder como quem beija
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja
É ter cá dentro um astro que flameja
É ter garras e asas de condor

É ter fome, é ter sede de Infinito
Por elmo, as manhãs de ouro e de cetim
É condensar o mundo num só grito

E é amar-te, assim, perdidamente
E é seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente...

E se fosse, qual seria a vossa livraria-modelo?

Eu gosto, particularmente, desta e desta

Paraísos na terra.
Estamos tantas vezes embrenhados na nossa vida e tomamos tantas coisas como certas, que quando chegam notícias destas é mais do que chocante, é surreal. Temos sorte por viver um país que, com tanta coisa de mau, tem pelo menos liberdade de expressão e qualquer um pode escrever o que quiser, onde quiser, ainda para mais sendo ficção. No Egipto, o autor Ahmed Naji está atrás das grades.

Depois de passar por um processo de revisão e censura, o seu livro foi publicado no Cairo em 2014. Mas posteriormente foi colocado um excerto numa publicação de Akhbar al-Adab e um leitor decidiu apresentar queixa. Alegou que as cenas com carácter sexual e drogas o puseram doente, com falha cardíaca e baixa de tensão. Então, o autor foi acusado de violar a moral pública. Ahmed, que no início do processo não queria acreditar no que estava a acontecer, viu-se envolvido num julgamento que culminou agora na sua prisão.

Nada disto parece real, é como se fosse um filme mau. É triste, é mesquinho, é um atentado contra tudo o que acreditamos e contra tudo o que também lutámos há algumas décadas atrás. Só nos resta mandar a Ahmed pensamentos positivos e de esperança na liberdade. Estamos com ele.

Fonte: Buzzfeed

 
Para além de advogado e de vocalista dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal é poeta, e dos bons. Não admira portanto que as músicas da banda sejam na sua maioria autênticos poemas, verdadeiras odes à nossa língua, inebriadas de um negrume sentimental.

Como canção-poema, escolhi hoje a "Tu Disseste" do álbum "Primavera de Destroços" de 2001. É um fabuloso álbum da banda de Braga e de lá saíram estandartes como "Cão da Morte" ou "O Jardim". Os Mão Morta são das bandas mais importantes e mais antigas do panorama português em actividade e vão aparecer por aqui mais vezes.

E agora, a fantástica letra de "Tu Disseste", por Adolfo Luxúria Canibal e Miguel Pedro, para ler acompanhada da música, com estas notas de piano para mim inesquecíveis:

Tu disseste "quero saborear o infinito"
Eu disse "a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis"
Tu disseste "sentir a aragem que balança os dependurados"
Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."

Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

Tu disseste "agora procuro o desígnio da vida. às vezes penso encontrá-lo num bater de asas, num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon. escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo. depois queimo tudo e prossigo a minha busca"
Eu disse "eu não faço nada. passo horas a olhar para uma mancha na parede"
Tu disseste "e nunca sentiste a mancha a alastrar, as suas formas num palpitar quase imperceptível?"
Eu disse "não. a mancha continua no mesmo sítio, eu continuo a olhar para ela e não se passa nada"
Tu disseste "e no entanto a mancha alastra e toma conta de ti. liberta-te do corpo. tu é que não vês"
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"


O Diário de Notícias fez uma lista das 50 obras mais importantes da literatura portuguesa, de todos os géneros. Foi preciso um mês para se chegar à lista final e muitas opiniões foram consultadas (António Mega Ferreira, Isabel Alçada, Nuno Júdice, Fernando Pinto de Amaral...) mas chegou-se finalmente à lista que podem consultar aqui.

Como em cada cabeça sua sentença, provavelmente vamos sentir falta de uma ou outra obra, mas penso que está uma lista bem representativa. É com alguma vergonha que assumo só ter lido cerca de um quarto dos livros desta lista mas orgulho-me de ter 6 deles na prateleira. E talvez o meu preferido de todos eles seja "O Livro do Desassossego" (nem é preciso falarmos da sua genialidade), mas é o "Aparição" do Vergílio Ferreira que quero destacar. Foi-me 'impingido' nas aulas de Português e fez-me apaixonar por Vergílio, embora a obra que mais me tenha marcado tenha sido "Escrever".

Vou lançar um desafio a mim própria e completar a minha lista.