Foi com ainda mais carinho que peguei no livro de Gonçalo Naves porque é oriundo da nossa terrinha. O miúdo tem apenas 18 anos mas a maturidade literária não o dá a entender. Gonçalo escreve como gente grande.

A história segue uma família portuguesa cujo filho, Vasco, tem uma doença rara que o deixa quase como um vegetal. Assistimos às mudanças na família - a tensão, a traição, a falta de interesse, o drama a crescer -, e seguimos várias personagens com a ajuda de um narrador activo que assume várias vozes.

A linguagem usada marca a diferença. Gonçalo mostra um domínio enorme da língua portuguesa e só assim é possível escrever como escreve. É preciso ler quase como estando em diálogo com o narrador para conseguir acompanhar a complexa narrativa. O autor não se coíbe de trocar as voltas à leitura tal como estamos normalmente habituados e poupa nas vírgulas, faz trocas inesperadas do verbo com o sujeito, omite palavras, e é preciso mais do que estar atento.

Para mim, é aqui que o livro peca. Não volto as costas à complexidade, mas por vezes vi-me na necessidade de ler, reler e voltar a reler para não perder o fio à meada. Reler não é necessariamente mau, mas neste caso senti que o ritmo quebra bastante. Outra questão que dificulta a leitura são as variadas intervenções do narrador para dar a sua opinião, introduzir outra questão ou fazer apartes, que dão valor à história, mas parecem acontecer demasiadas vezes.

Vale a pena ler Gonçalo. É um desafio, sim, mas também nos mostra o sentido de família, as dificuldades, uma atenção ao pormenor extraordinária, as diferenças entre gerações, e muito mais.

Bem-Vindos a Esta Noite Branca
Autor: Gonçalo Naves
Ano: 2015
A nossa pontuação: ★★☆☆☆
Disponível em ebook no site Wook. Recentemente também lançado em versão física.


"Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio." 

Vergílio Ferreira, in "Conta-corrente - nova série - 2"


Este pequenino livro sobre motivação, liderança e sonhos, foi um desafio para mim. Um desafio porque tilintou na campainha da minha vontade de mudança ao mesmo tempo que contrariou a minha veia mais conservadora. Porquê? Porque se trata de um relato das invejáveis aventuras e desventuras de Richard Branson, fundador criativo e carismático da mega marca Virgin, o homem que conhecemos um self-made millionaire, dono de uma aparentemente eterna vivacidade e coragem (e loucura até). E afinal de contas...todos nós queremos ser profissionalmente felizes e ter uma ilha como cereja no topo do bolo!

"Screw It, Let's do It" é como que um livro de bolso para um empreendedor, com um conjunto de dicas sobre como atingir objectivos, sempre mantendo o foco no que é importante, enquanto nos divertimos na viagem em direcção ao sucesso. É um livro entusiasmante, confesso, no entanto pode provocar a sensação de "ele só fez isto tudo e diz isto assim, porque é rico e um pouco louco", deixando provavelmente alguns leitores numa corda bamba entre a motivação e a frustração. Motivação, porque prova que para se conseguir algo basta decidir e agir; frustração, porque nem todos temos o grau de coragem necessária (ou sacrifício, ou meios) para fazer acontecer.

Acredito que este seja um bom livro para estimular a inovação e a bravura, ao mesmo tempo que, sendo escrito em modo "saber de experiência feito" em que todas as dicas são exemplificadas através da própria historia de vida do Sir Branson, funciona como uma breve auto-biografia de uma das personalidades mais marcantes das últimas décadas.


Screw It, Let's Do It
Autor: Richard Branson
Ano: 2006
Editora: Virgin Books ( li em eBook, disponível em Amazon.com)
A nossa pontuação: ★★★☆☆
Saibam mais aqui.

Deixo-vos um vídeo do Shia LaBeouf que expressa bem a sensação com que fiquei depois de ler o livro.


Vá, confessem, já ficaram com olheiras à custa de um bom livro, certo?!


 Um abrigo de cães no Missouri, nos Estados Unidos, convida as crianças a ler para os cães abandonados, especialmente para aqueles que foram maltratados pela espécie humana, a mais ameaçadora de todas.

Estes cães, tímidos e receosos pelo que já viveram nas mãos de quem não os merecia, descontraem-se a atentam na voz dos mais pequenos, que assim praticam a leitura e ganham hábitos de respeito pela vida animal. Eles, que se mantêm a um cantinho na sua jaula, tornam-se mais sociáveis aos poucos, reganham confiança, o que pode ajudar também a encontrarem numa nova família mais facilmente.

Antes de começaram as leituras, os petizes entre os 6 e os 15 anos passam por um processo de preparação de 10 horas que lhes ensina a compreender a linguagem corporal dos cães e a melhor maneira de interagir com eles.

Oxalá este exemplo fosse tomado por mais abrigos pelo mundo fora, se é para estimular a leitura nas crianças e para ganharem laços e aprenderem a respeitar os animais, nós apoiamos.

Mais no site Time.
 
Esta é uma dica para todos os escritores e escritoras de armário que guardam os rascunhos dos seus sonhos literários no fundo da gaveta. Vamos lá libertar o Fernando Pessoa ou a Florbela Espanca que temos cá dentro! Ou o Saramago, ou a Alice Vieira... Mas vamos lá soltar os escritos do Moleskine!

Um curso de Escrita Criativa na Ler Devagar: um espaço fantástico com excelentes e variadas iniciativas para os viciados em livros.

Saibam mais em Lerdevagar.com.







Xavier Vidal tem uma livraria em Barcelona e acolhe tão bem os clientes que se tornou um enorme caso de sucesso, o que é raro neste tipo de negócio e nos tempos que correm. A sua livraria tornou-se pequena para tanta adesão e decidiu mudar-se para um espaço maior, 100 metros mais à frente.

A sua querida clientela, ao saber da notícia, juntou-se a um domingo de manhã e formou uma corrente desde a antiga livraria à nova, e os livros passaram de mão em mão até chegarem à nova casa. Isto é bonito. Para além do gesto em si ser prova de uma cumplicidade e de uma proximidade muito rara entre proprietários e clientes, há algo de mágico em fazer passar os livros por centenas de mãos antes de chegarem ao seu destino, eles que foram feitos para ser tocados e partilhados.

Parabéns ao Xavier por ter clientes destes, decerto os trata com o mesmo amor e respeito com que estes tratam os livros.

Fonte: blog Horas Extraordinárias

Umas são bem antigas, outras gritam modernidade. Algumas são uma mistura de muitas eras. Mas são todas fantásticas, e está uma biblioteca portuguesa entre as mais bonitas do mundo recolhidas pelo Bored Panda.

As bibliotecas são marcos tão importantes na História de todo o mundo, contribuindo para a literacia, para o fomento de tantas formas de arte, para a educação, para o espalhar da palavra e do conhecimento, desde há tanto, tanto tempo, que é quase impossível quantificar. Para nós, os apaixonados dos livros, não há nada como o cheiro das bibliotecas, o odor a folhas, às capas e contracapas, a todas as pessoas que os leram antes de nós, e ao amor que elas lá deixaram por eles. São sítios únicos, e nesta era moderna onde a tecnologia é rainha, há que saber e respeitar as bibliotecas, esses antros do saber que despertam os nossos sentidos - o cheiro, o toque, o olhar, o som das folhas. Só falta comê-los. Já poucas coisas são assim neste mundo.

Aqui ficam algumas das nossas preferidas mas não deixem de ver a lista completa. Aqui as vossas amigas não se importavam decerto de uma tour pelo mundo a visitar estas maravilhas

Biblioteca Nacional de Praga - Praga

 Biblioteca da Universidade de Trinity - Dublin

 Biblioteca Holandesa

 Biblioteca da Cidade - Estugarda

Biblioteca Real - Gabinete Português de Leitura - Rio de Janeiro

Biblioteca de Admont - Áustria
Estes jardins sempre me acompanharam. Nos bons momentos e nos não tão bons, tanto os seus espaços verdes como as suas cafetarias, fizeram as delícias dos meus tempos de estudante e ainda fazem, agora que estudo mais do que quero e menos do que me é imposto.

Seja para ler o jornal, a revista, ou o "Ulisses", estes jardins não julgam. Acolhem todos os leitores de igual maneira, com o seu sol e com os seus patos e com as suas sombras e com os seus recantos.

É o espaço ideal para ler AQUELE livro, sabem?! Aquele que chega lá dentro, toca na alma e faz ricochete em todo o tipo de memórias, de tal forma que ficamos a olhar para o vazio depois de o acabar, assim, simplesmente a contemplar a maravilha que é poder ler nas palavras de outra pessoa o nosso coração.

Os Jardins da Gulbenkian são para mim, como um bom livro, um abrigo seguro onde volto sempre que preciso de equilíbrio. Uma pausa merecida no corre-corre desta vida e se essa pausa tiver como companhia um bom livro, o que se pode pedir mais para se ser feliz?! Acho que nada, ou muito pouco... talvez um chá, ou o cantar de um pássaro, ou um raio de sol num frio dia de inverno e tudo isso, garanto-vos, encontram lá.

Saibam mais em Gulbenkian.pt


irvine welsh
Ray Lennox é um polícia escocês do departamento de Crimes Graves e lida frequentemente com 
crimes sexuais cometidos a menores. Uma das suas maiores tristezas foi não ter conseguido ajudar Britney, uma menina levada a caminho da escola por um 'papa-anjinhos' - expressão usada no livro para designar os pedófilos - foi abusada sexualmente e encontrada morta três dias depois.

Depois deste caso, Ray deixa-se ir abaixo e cai nas malhas da droga e do álcool. A sua noiva planeia umas férias em Miami Beach com o objectivo de afastá-lo dos maus pensamentos e da culpa que o assola. Acontece que essas férias vão tornar-se muito mais do que isso quando as circunstâncias colocam Tianna no caminho de Ray, uma miúda com os seus próprios pesadelos reais, e ambos vão empreender uma viagem contra os 'papa-anjinhos' que a atormentam.

Os livros de Irvine Welsh têm esta particularidade de conterem em si o pior que os humanos trazem dentro. O assunto é sempre negro, chocante, subversivo, e o próprio protagonista é frequentemente vítima de uma luta interior entre o bem e o mal. A linguagem do autor também merece sempre uma bola vermelha no canto superior direito - aqui, escreve-se tal como se fala nas ruas e nos antros sujos por onde as personagens deambulam.

O livro tem um ritmo alucinante - os dramas acontecem e sucedem-se a uma grande velocidade, saltando de forma inteligente entre o passado e o presente. Não é o melhor livro de Welsh, mas a temática é interessante, prende-nos nas malhas da pedofilia e faz-nos chegar ao fim num instantinho.

Crime
Autor: Irvine Welsh
Ano: 2009
Editora: Quetzal
A nossa pontuação: ★★★☆☆
Mais no site Wook.